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Num determinado dia, após o ataque bem-sucedido a unidade inimiga, a primeira brigada descansava em uma floresta, preparando-se para uma nova viagem exaustiva. Alguns estavam responsáveis por estocar comida, caçando ou usando os espólios conseguidos em batalha para comprar suprimentos, mas isso tinha que ser feito de forma inconspícua, então eles não poderiam comprar muito de uma vez só.
Outros estavam cuidando das armas e cavalos, além das roupas e outros suprimentos que seriam necessários para a viagem. Ainda outros treinavam fervorosamente sob a vigia de Marth, que usava seu grande conhecimento de armas para instruir todos aqueles alunos.
Além deles, outra pessoa que treinava era Mara. Mas ela estava separada dos outros membros, e praticava seus movimentos sem qualquer orientação. Perto dela estava Clarina, que desenhava círculos de proteçao no chão, costume que havia aprendido com os pais.
Marisa se sentava no centro do campo, pensando, e ninguém queria interromper a concentração dela, pois a líder havia deixado bem claro que esse tempo era crucial para o planejamento bem sucedido das operações. As últimas pessoas do grupo eram Kato e Marco, e eles estavam fazendo algo que já havia se tornado um hábito.
Kato e Marco estavam lutando, da mesma forma que fizeram muitas vezes quando eram crianças, na época, eles eram sem dúvida os melhores lutadores do lugar, e lutar um contra o outro era basicamente a única forma de testar suas habilidades. Atualmente, eles faziam isso apenas para não perder o costume.
O estilo de Kato era rápido e repleto de movimentos dispensáveis, devido ao fato dele nunca ter tido um treinador. Em contraste direto, Marco possuía uma técnica refinada que se focava em atacar os pontos fracos do inimigo. Marco tinha a maior percentagem de vitórias nessas lutas.
Kato dançava ao redor de seu adversário, girando, fintando e avançando nos momentos menos esperados. Marco, por sua vez, mantinha-se parado no meio do círculo que Kato estava fazendo, observando cada movimento do adversário, cada contração muscular, para saber quais ataques eram fintas e quais eram reais.
Gradualmente, Kato começou a aumentar a velocidade, e Marco começou a ensaiar alguns ataques nas pequenas brechas de Kato começava a deixar, mas o espadachim percebia as próprias brechas, e se preparava para contra-atacar qualquer golpe que abrisse uma brecha na defesa de Marco.
Um jogador de xadrez reconheceria o que estava passando na cabeça dos dois. Incontáveis possibilidades de golpes, contra-golpes e contra-contra-golpes. Uma batalha furiosa estava acontecendo entre os dois no campo de batalha mental, apesar da luta no mundo físico ainda estar nos primeiros estágios.
Finalmente, depois do que pareceu um tempo exageradamente longo, os movimentos passaram para a realidade. Kato avançou e disparou uma série de ataques, que foram defendidos pelo adversário, que por sua vez, revidou com um golpe de lado do machado. Kato abaixou-se para evitar o golpe e deu uma estocada, que foi defendida pelo cabo do machado de Marco.
Esse golpeou na diagonal, mas foi parado pela rápida lâmina de Kato, já voltando da estocada. Ele pressionou ainda mais, girando com um chute da perna de trás. Kato conseguiu defender isso com a mão direita, e revidou com seu próprio chute, que acertou o alvo. Aproveitando a vantagem para atacar a mão direita de Marco, visando derrubar o machado dele.
Mas Marco havia previsto isso, e girou o pulso para que o machado protegesse a própria mão. Ele então socou com a mão livre, acertando Kato no peito e fazendo-o recuar um passo. Foi o suficiente, Marco invadiu o espaço de Kato, colocando a lâmina do machado contra a garganta dele. Marco tinha vencido.
Ele ajudou Kato a se levantar, dizendo:
- Você precisa treinar mais seu corpo.
Essa era a principal diferença entre eles, Kato era baixo e esguio enquanto Marco era alto e musculoso, ele não era nem de longe tão forte quanto Mara, que costumava esmagar pedras com as mãos, mas Marco era bem mais forte do que Kato.
- Eu achei que aquele golpe fosse ao menos te desequilibrar - Kato disse sorrindo.
- Se tivesse acertado um pouco mais pra cima acho que teria me desequilibrado - Marco respondeu.
As pessoas que tinham parado para assistir a luta já voltavam ao trabalho, e os membros que haviam sido mandados coletar suprimentos começavam a chegar, eles se sentavam no chão por alguns minutos para descansar as pernas, e logo depois voltavam ao trabalho, preparando as mochilas e outros pacotes que iriam carregar.
Clarina já havia desenhado 4 círculos tangentes uns aos outros, cada um deles contendo selos de proteção diferentes, e dava o trabalho por encerrado. Mara finalizava seus exercícios diários, que tinha deixado de fazer bem poucas vezes nos últimos 12 anos. Marth via que aqueles sob a sua tutela estavam chegando ao limite então deixou-os descansar.
Marisa também parecia ter finalizado as suas considerações, pois ela se levantou e passou a observar silenciosamente o trabalho de seus companheiros, quando o último deles terminou suas tarefas, ela chamou todos em sua direção.
- Nossa próxima missão vai ser especialmente importante - ela começou dizendo.
Todas as pessoas presentes se retesaram ao ouvir aquelas palavras, a primeira brigada não existia a muito tempo, então Marisa havia dito aquelas palavras poucas vezes, e todas as vezes isso resultou em missões difíceis, os ataques a alvos-chave que tornaram o grupo tão famoso. Daquela vez nao seria diferente.
- Alguns dos generais inimigos mais importantes vão se encontrar em Anaktol para discutir iniciativas para dominar o resto do país. Eles não vão sair de lá vivos.
Os membros da brigada prenderam a respiração, a audácia daquela frase era imensa, e vindo da maioria das pessoas pareceria uma simples e absoluta loucura. Mas Marisa tinha falado com o mesmo tom de voz que usava para tudo, como se isso não fosse apenas possível, mas já estava marcado nos livros do destino. Como se fosse apenas fato.
- Quando o encontro vai ser? - Marth fez a pergunta relevante.
- Daqui a oito dias - ela respondeu.
- Quais são as defesas? - perguntou Marco.
Marisa sorriu - algo como cento e cinquenta soldados treinados e experientes estão postados como guardas ao redor do prédio, e aproximadamente três mil soldados das companhias que os generais comandam estão esperando no campo de Tel-al-viv. O grosso desse exército é composto por infantaria e máquinas pesadas.
Houve silêncio por um momento, e então Kato disse:
- Um erro de cálculo da parte deles.
- Sim, mas quem imaginaria que alguém atacaria uma reunião estratégica importante como essa com uma unidade tão pequena? - Raciocinou Mara.
- Eles provavelmente tem vigias posicionados ao redor do lugar todo - falou Clarina - devo matá-los?
- Não - disse Marisa - eles irão servir numa parte essencial do plano.
Todos voltaram a ficar em silêncio, para ouvir qual era o plano criado por Marisa.
- Vamos fazer cinco grupos de três pessoas, cada um desses grupos deve ir para um lado, e criar briga com os guardas em cinco posições - ela virou para Marth - me dê o mapa do lugar e uma caneta.
Ele foi buscar no meio dos suprimentos as coisas que Marisa tinha pedido, ele era o responsável pela organização de tudo, então encontrou o que procurava facilmente. Um mapa do campo de Tel-al-viv, que ele tinha ficado intrigado a respeito do propósito quando eles o obteram, e uma caneta tinteiro.
Ao receber o que havia pedido, Marisa desenhou um círculo no meio do mapa - esse é o acampamento deles - ela fez cinco pontos ao redor do círculo, distantes uns dos outros - aqui é onde vocês vão atrair os guardas e começar as brigas - ela fez uma seta apontando para o círculo, entre dois pontos - o resto de nós vai entrar por aqui e atacar o encontro diretamente. Kato, Marco, vocês serão os principais aqui, avancem direto para o centro do encontro e matem todos os generais - ambos assentiram.
- Muito bem, mas nós só vamos fazer isso quando o mínimo possível de guardas estiverem lá, pra isso, as equipes dos guardas deverão revelar que estão atacando, isso vai fazer parte dos guardas do centro serem deslocados para repelir os "ataques". Quando os destacamentos vierem, vocês devem fugir.
Todos assentiram para exprimir seu entendimento.
- Kato, Marco, vocês devem sair por aqui - ela fez um traço no lado oposto daquele da seta de entrada - vocês devem atrair os soldados enquanto o resto de nós escapa por onde entramos. Vocês devem ser mais rápidos que as infantarias inimigas. 60 quilômetros ao norte está o rio Amara, sigam ele para o leste até Amaranth, vamos nos encontrar com vocês lá. Isso é tudo.
Todos olharam para os dois amigos de infância, sabendo que aquele plano punha eles em alto risco. Seria uma mentira dizer que aqueles dois não estavam preocupados, mas eles olharam para Marisa e viram um olhar que dizia "Vocês conseguem, vão lá e depois voltem". Isso foi o bastante para convencê-los.
- Vamos começar a nos preparar - Kato falou.
- Não nos deixem esperando por muito tempo - sorriu Marco.
A tensão se dissolveu, todos os membros da primeira brigada sabiam quais eram suas funções, e saíram para começar a preparação para essa nova missão.
-
Era chegado o dia, Kato e Marco estavam esperando junto com o resto da primeira brigada, com exceção dos grupos que haviam recebido a função de atrair o guardas. O grupo restante estava esperando o sinal das trombetas, que era o sinal para pedir reforços daquele grupo. Ironicamente, esse também seria o sinal para o ataque que levaria aquele lugar a ruína.
Marisa estava se concentrando e recitando palavras de poder, e a magia parecia eletrizar o ar em volta dela. Clarina fez um ritual em que ela tocava o chão com cada um dos dedos, e fazia uma oração a cada toque. Mara havia fechado os olhos, e estava respirando de forma tão profunda e lenta que era praticamente imperceptível. Marth olhou para cada um dos soldados, analisando seu comportamento para perceber o estado de espírito deles. Kato e Marco eram os mais relaxados, eles estavam conversando.
- E mais uma vez, nós vamos pular direto no meio das lanças - Kato disse.
- Eu acho que isso aí faz parte de um ditado, "pular no meio das lanças" - falou Marco.
- Nunca ouvi falar desse ditado.
- Bem, se não fizer parte de um ditado, deveria fazer.
- Nisso você tem razão.
- E é inevitável que nós tenhamos que fazer isso, não só dessa vez, mas muitas outras vezes.
- Seria bom se pudessemos sobreviver o bastante para fazer isso muitas outras vezes.
- É... - Marco caíu em silêncio. Kato esperou, ele sabia o que estava na cabeça do amigo.
Marco finalmente rompeu o silêncio - Quando tempo você acha que essa guerra ainda vai durar?
- Se depender da Chefe, não muito tempo - Kato respondeu.
- É, você tem razão - Marco sorriu.
E então, eles ouviram o som de uma corneta, e depois ouviram outros sons de corneta, vindos de outros lugares. Marisa levantou um punho e disse:
- Preparem-se, vou contar até dez.
E ela começou. Em quatro, eles começaram a ouvir os sons dos soldados inimigos tentando se organizar, em 7 eles ouviram barulhos de perseguição, em 9 esses barulhos chegaram muito perto de onde eles estavam, e em 10...
- Avançar! - Marisa gritou.
Todos seguiram essa ordem. Uma unidade de soldados de todos os tipos correram numa formação de cunha, e rapidamente avistaram a grande tenda que servia de local de encontro. Mas os guardas que estavam lá só avistaram eles depois de 1, 2, 3 segundos. E a esse ponto já era tarde demais.
Os primeiros dois inimigos foram derrubados por duas flechas que Clarina lançou enquanto corria, Depois Kato saltou na direção do inimigo mais próximo e no caminho decapitou ele, que não conseguiu reagir a um movimento tão inesperado, tendo atravessado a linha de defesa, Kato continuou a correr para dentro.
Mara atacou com grande velocidade usando seu bastão, acertando um golpe diretamente na têmpora do oponente. Depois disso, Marco alcançou a linha de inimigos e decepou a mão que segurava a arma do soldado mais próximo, ele continuou a correr passando pelo buraco nas defesas que havia se aberto.
Marco adentrou a tenda seguindo Kato, e viu ele lutando contra quatro soldados inimigos ao mesmo tempo, três outros estavam caídos no chão, mortos. Essa devia ser a guarda de elite, já que ainda restavam alguns deles vivos numa luta contra Kato.
Esse estava usando seus instintos ao máximo, lutando enquanto se agachava, rolava e saltava pelo chão. Os adversários eram bons, mas não estavam acostumados a lutar contra oponentes em que eles precisavam atacar tão baixo para conseguir acertar, ou que se moviam com tanta agilidade.
A situação deles piorou ainda mais quando Marco chegou, atacando o inimigo mais próximo com um golpe de machado, ele desviou, mas perdeu de vista Kato por um momento crucial, e teve as duas pernas cortadas por isso. Os três restantes não tiveram chance, em menos de um minuto todos eles estavam mortos.
Então a tenda pegou fogo.
Percebendo que aquele era o sinal de Marisa para significar que os outros estavam se retirando, Kato e Marco se apressaram para entrar na tenda dentro da tenda, onde os generais estavam. Esses ficaram chocados ao ver que tinham sido invadidos, durou só um segundo, mas os dois da brigada perceberam sua chance.
Kato levantou sua espada, Marco abaixou seu machado e os dois começaram a matar, alguns generais tentaram fugir, mas eram lentos demais, outros tentaram se defender, mas eram fracos demais. Um por um, eles foram morrendo, até que restou apenas um, que fugiu para a outra saída da tenda, mas isso era exatamente o que Kato e Marco estavam esperando.
Eles seguiram ele, deixando espaço o bastante para ele achar que poderia escapar, se era pra eles servirem de isca, era melhor que os inimigos pudessem ver o que eles tinham feito.
O último general chegou no lado de fora, haviam alguns soldados perto.
- Socorro! - ele gritou - eles estão...!
Ele não conseguiu dizer o que exatamente eles estavam fazendo, pois Kato escolheu aquele momento para avançar e decapitá-lo. Os soldados que tinham visto isso começaram a gritar que haviam inimigos na base, e um deles soou uma corneta para chamar reforços. Perfeito.
Kato e Marco saíram correndo, geralmente eles não teriam conseguido escapar daquela base sem precisar pelo menos atravessar um cerco de inimigos assim como tinham precisado pra entrar. Mas os pedidos de reforços de vários lados diminuíram muito a força disponível para lidar com esse tipo de coisa, e os grupos tinham conseguidos atrair aqueles soldados para longe o bastante pra eles não poderem voltar rápido o suficiente, então Kato e Marco conseguiram escapar do perímetro do acampamento sem precisar matar mais ninguém.
Alguns soldados tentaram lançar flechas neles, mas esses soldados não eram tão habilidosos quanto Clarina, então não puderam acertar dois alvos pequenos que se moviam tão rápido. As máquinas pesadas eram lentas demais para ir atrás deles, elas tinham sido projetadas para uso em cercos, não em perseguições.
Sem opção, os soldados perseguiram eles a pé, mas os dois da brigada tinham a vantagem de estarem usando armaduras especialmente leves, que eles tinham colocado sabendo que iam ser necessárias. Eles logo chegaram no rio e saltaram para dentro.
Quando o resto do grupo chegou a Amaranth, a única coisa que Kato e Marco tinham a dizer era "Por que vocês demoraram tanto?"
Todo mundo riu depois disso.
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