sexta-feira, 15 de novembro de 2013

Natália Nocte e a Academia Arcádia: Capítulo 2 - A Academia Arcádia

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Natália desceu até o salão de entrada, onde a família dela estava esperando. Depois de umas últimas despedidas(Satoshi disse pra ela mostrar a eles do que ela era feita, mas não especificou quem seriam "eles"), Natália saiu de casa e foi andando para o banco, que era o lugar mais próximo onde ela poderia pegar um táxi.
Natália tinha insistido em fazer isso sozinha, desde a saída de casa até a chegada em Arcádia, e eles não puderam dizer não pra ela.
Não ocorreu nenhum incidente durante a viagem, incluindo a ida de táxi até o aeroporto, e depois de mostrar a minha passagem comprada anteriormente, eu embarquei no avião sem problemas.
Nessa hora ela se lembrou de uma coisa que o pai dela tinha dito "Depois da primeira hora do voo, olhe pela janela, você não vai se arrepender". Então ela marcou o horário que o avião decolou antes de pegar sua mala e tirar dela seu livro de artoniano.
Artoniano era a língua falada na ilha de Arton, onde ficava a Academia Arcádia, e como ela recebia estudantes de todas as partes do mundo, um dos pré-requisitos para ser aceito em Arcádia era aprender artoniano, e dessa maneira todos os estudantes e professores poderiam se entender. Havia até uma versão do artoniano baseada em cliques, ou batidas no chão, que era usada por aqueles que eram incapazes de produzir os sons da língua normal.
Natália passou o tempo revisando o artoniano pela última vez, e rapidamente a hora que ela devia esperar passou. Ela guardei o livro e olhou pela janela.
Por alguns minutos, nada aconteceu. E nada continuou acontecendo pelos minutos seguintes, até que Natália começou a se perguntar se ela tinha entendido o meu pai errado, mas eventualmente ela começou a ouvir um som diferente de tudo o mais que ela tinha ouvido na vida.
Parecia uma canção, uma canção de uma única nota que subia e descia sem jamais se perder. Uma nota impossivelmente longa que parecia se estender até o infinito.
E lentamente, o autor daquela nota surgiu do centro das nuvens. Era uma serpente, imensa a ponto de seus limites se perderem no horizonte. Colorida de um verde-claro tão leve, que era quase possível ver através dela. Seus olhos não eram olhos, mas simples pontos pretos de propósito desconhecido. Sua boca não tinha dentes, assemelhando-se mais com uma atemporal fenda nas rochas de uma montanha ancestral.
Finalmente, o corpo dela parecia ser um sólido transformado em ar, uma coisa que não parecia pertencer a realidade. E era frágil. como uma folha de papel carregada pelo vento de um furacão.
Natália percebeu imediatamente o que era aquele ser. Era uma besta atmosférica, criaturas tão elusivas que desafiavam o estudo. Que tinham sido avistadas pouquíssimas vezes, e quase nunca por pessoas que as buscavam.
Quase nada era conhecido sobre elas, exceto que viviam nas camadas mais elevadas da atmosfera, e por vezes desciam por razões desconhecidas.
Natália observou enquanto ela nadava pelo ar com movimentos belos e majestosos, apesar de serem inegavelmente estranhos, como saltos distorcidos que não obedeciam a qualquer padrão.
E tão rapidamente quanto tinha aparecido, a besta se foi. Subindo de volta ao mundo das nuvens, um mundo tão alienígena quanto as profundezas do mar. E depois que o corpo tinha desaparecido, a canção ainda restou por mais alguns segundos, última lembrança de que qualquer coisa tinha ocorrido.
E então restou apenas silêncio.
Natália olhou para o resto da cabine do avião, percebendo que ela não tinha sido a única que percebera o que tinha ocorrido. Só naquele momento ela se convenceu de que aquilo não tinha sido um sonho.
Natália caiu no sono em algum momento, e a próxima coisa que ela ouviu foi a voz do piloto avisando que eles estávamos se aproximando do aeroporto.
Ela desceu do avião carregando sua mala, e acompanhou a multidão que ia para a parada de ônibus. Eles não tiveram que esperar muito, e logo ela estava fazendo a última viagem em direção a academia.
Natália já tinha visto fotos da Academia Arcádia, mas mesmo assim ela quase não acreditou no que estava vendo quando o ônibus terminou de subir o monte mais alto da ilha, e os passageiros puderam ver o terreno onde ficava a academia.
Só tem uma forma de descrever aquele território. Uma colcha de retalhos colossal que não poderia ter sido criada pela natureza. Geleiras se encontravam com desertos que se encontravam com florestas, pedaços de áreas de diversos tamanhos e formas se espalhavam pelo território caoticamente. E no centro de tudo isso estava a escola, que Natália não estava perto o bastante para conseguir enxergar os detalhes, mas parecia ser diferente de qualquer outro prédio que ela já tivesse visto, apenas pela forma básica.
O ônibus chegou mais perto, e Natália lentamente foi capaz de distinguir mais detalhes daquela... construção, que é a única palavra remotamente adequada para aquela escola.
Ela viu torres em estilo barroco, sólidas em sua colocação. Ela viu esferas prateadas parecendo flutuar ao redor da massa principal, quando de fato estavam conectadas por fios quase invisíveis. Ela viu paredes que pareciam ser feitas de carne, e no meio delas algo que ela poderia jurar que era um olho. Ela viu pontes suspensas constituídas por plantas, pontes grandes o bastante para sustentar gigantes. Ela viu rios de água cristalina correndo livres pelo ar, e viu coisas nadando por aqueles rios.
Ela via cada vez mais coisas impressionantes a cada momento, esculturas de cristal ambulantes, dragões empoleirados em arcos de gelo, gotas de água douradas escorrendo de teias colossais e sendo apanhadas por robôs morcegos. E logo ela percebeu que sempre haviam mais coisas para se ver.
Enquanto ela estava tentando processar tudo aquilo que ela estava vendo, o ônibus entrou num caminho que se elevava acima do nível do chão, olhando para o caminho correspondente do outro lado, ela vi que ele estava suspenso por correntes feitas de ossos, milhões de ossos fundidos e esculpidos com habilidade sobrenatural. O caminho fez um C, afastando-se da escola antes de voltar a se aproximar dela, e ela logo percebeu a razão deles precisarem entrar naquele caminho suspenso.
Os portões principais eram imensos, a escala deles era completamente diferente, eles estavam abertos, e Natália conseguia ver que haviam gigantes passando por eles, mas os próprios gigantes pareciam pequenos em comparação com os portões.
O arco dos portões percorria uma área tão grande, que ele estava conectado aos mais diversos materiais do resto do prédio, estava conectado a uma rocha que brilhava como diamantes, com o que parecia ser cascas de árvore, com uma teia de fios mecânicos, com um metal que escorria como líquido, subindo e descendo em sentido antihorário, formando a figura de um O. E isso era apenas o começo.
O portão em si também atraíu a atenção de Natália, o material de que ele era feito parecia ser uma combinação de madeira e ouro, e haviam detalhes que ela estava longe demais para distinguir. Percebendo que o ônibus não chegaria mais perto, ela respirou fundo e recitou "Azath, Kazath, Nazath", e a visão dela se aguçou, permitindo que ela enxergasse os detalhes dos portóes.
Era como Natália esperava, os detalhes dos portões eram um microcosmo da escola inteira, sendo feitos de uma conjunção de todos os tipos de materiais diferentes. Naturais e sobrenaturais, simples e complexos, estáticos e móveis. Satisfeita, ela desfiz seu feitiço e piscou os olhos várias vezes ao sentir a ardência esperada neles. Ela se aconchegou no banco e esperou o ônibus terminar de fazer a curva e finalmente chegar na sua parada.
Natália desceu, junto com os outros passageiros do ônibus, e passou pelo arco de entrada lateral decididamente. Ela andou pelos corredores, percebendo que o estilo de arquitetura do interior da escola era o mesmo do exterior, a consistência do chão se confundia entre terra batida, cerâmica e outros materiais. A mesma pluralidade se verificava nas paredes e no teto alto. Um rio corria no lado direito dela, e na sua esquerda havia um caminho constituído por placas metálicas finíssimas, que estava acima do chão mas abaixo do teto. Finalmente, na parede do lado esquerdo, alunos andavam normalmente, como se a gravidade daquela área fosse diferente. Ela foi lá testar e descobriu que podia fazer a mesma coisa, então aquilo não era uma habilidade especial daqueles alunos.
Por falar em alunos, eles eram a coisa em que Natália estava prestando mais atenção, pois a variedade deles era ainda maior do que a diversidade do cenário. Alguns alunos andavam como ela, outros nadavam pelo rio em diversas velocidades, outros pulavam entre as árvores que estavam espalhadas pelo terreno, e ainda outros simplesmente voavam, com asas ou não.
Alguns alunos eram pequenos, como fadas em que Natália poderia pisar, e outros eram grandes, como um golem de pedra que precisava se manter abaixado para não bater com a cabeça no teto. Alguns usavam roupas como as de Natália, outros tinham trajes em um número diverso de estilos e formas, e ainda outros eram cobertos apenas por seu pelo, pele ou cobertura metálica.
Subitamente, Natália se lembrei de olhar as horas. Ainda havia algum tempo antes da cerimônia de abertura, mas ela queria desfazer as malas e talvez conhecer sua futura colega de quarto, então ela seguiu as placas e atravessou os corredores, para chegar em sua seção de dormitórios.
Natália subiu uma escada em espiral e passou por mais algumas portas antes de chegar em seu quarto. Ela bateu na porta e uma voz lá dentro disse que ela podia entrar. Então a colega de quarto já tinha chegado, Natália respirou fundo e entrou.
Ela olhei para a garota que estava lá dentro. Ela era uma humana como Natália, ou pelo menos parecida o bastante. Os cabelos dela eram de um loiro escuro e os olhos eram verdes. Ela estava usando um short que ia até a metade das coxas e uma camisa sem mangas. Ela também não estava usando sapatos. Isso permitiu que Natália visse que o corpo dela estava repleto de marcas multicoloridas, incluindo o rosto dela. Natália já tinha visto marcas como aquela em algum lugar... em suma, a garota era bonita.
- Olá - Natália falei em artoniano, tentando ser amigável.
- Olá - ela respondeu, fazendo um pequeno aceno e indo na direção de Natália - parece que nós somos colegas de quarto.
- É, parece - Natália falou, grata por estar entendendo a garota bem, apesar do sotaque dela.
- Eu me chamo Rinata Alveia - ela disse, estendendo a mão - venho da terra de São Lourenço.
Natália apertei a mão dela - Eu me chamo Natália Nocte. Venho da terra de Yuden - ela terminou, e esperei pela reação da outra garota.
Natália viu a compreensão se formar nos olhos de Rinata.
- Quer dizer.. - ela começou - da família Nocte?
Natália se preparou mentalmente e falou - Sim.
- Que incrível! - ela falou, com uma animação evidente - você é a filha da Bianca Nocte?
- Isso mesmo.
A animação dela aumentou ainda mais - Sua mãe é a minha ídola!
- Mesmo? Quer dizer que você também usa magia das histórias?
- Não. Eu uso magia da manipulação. Mas eu sempre quis me tornar uma maga de combate, desde que vi um vídeo da sua mãe ganhando o torneio Atlamontei.
- Ah, eu entendo - Natália percebeu uma brecha na conversa, e decidiu agir - mas você poderia me fazer um favor?
- Que tipo de favor? - ela perguntou.
- Poderia manter segredo sobre quem eu sou? Eu não quero receber atenção demais, entende?
- Pelo que eu ouvi dizer, você não é a única pessoa de uma família famosa por aqui, mas tudo bem, se você quer isso, eu prometo que não irei revelar o seu segredo, ou todo o azar do mundo cairá sobre mim.
Natália relaxou, parecia que tudo ia ficar bem - Essa é uma promessa ao estilo São Lourenço? - ela perguntei.
- Exatamente. Como vocês fazem em Yuden?
- Nós dizemos "Se quebrar essa promessa, engolirei mil agulhas!".
- Agh - ela disse - mas voltando ao assunto, quer dizer que você veio aqui pra estudar magia das histórias?
- Na verdade não - Natália baixei os olhos - mamãe tentou me ensinar, mas eu não consegui aprender.
- Oh - ela parou por um instante quase imperceptível - então que matérias você pegou?
Natália colocou a mão em sua mala, puxou a folha de seu horário de aula e entregou para ela.
- Vamos ver - ela começou - "História do Século 20", segunda e sexta 08:00. "Conceitos Básicos da Iniciação em Magia", segunda e quarta 10:00. Legal, é a mesma classe que eu. "Introdução a Teoria da Magia", segunda e quarta 14:00. Eu prefiro as aulas mais práticas. "Artefatos Mágicos: História e Treinamento", segunda e quinta 16:00. Podia ter entrado nessa aula, mas não consegui encontrar um horário bom. "Psiônicos: Talentos Práticos", segunda e quarta 23:00. "Russo 1", terça e quinta 08:00. Aprender uma língua só foi o bastante pra mim. "Entendendo a Nova Tecnologia", terça e quinta 10:00. Eu já estou feliz com a tecnologia normal. "Culinária 1", terça e quinta 14:00. Eles tem uma aula de culinária?! Por que ninguém me avisou? "Introdução a Ambientes e Seres Fantásticos", terça e quarta 16:00. Outra aula junto com você. "Combate a Curta Distância: Nível Básico", quarta e sábado 08:00. E uma terceira matéria juntas - ela coçou a cabeça - espera aí, tem algo estranho.
Ela devolveu a folha pra Natália, e foi na mesa pegar a folha de horários dela. Ela entregou a folha para a recém-chegada e falou - Compara.
Natália olhou a folha de horários dela, além das aulas que elas duas tínham, ela também tinha aulas de "Magia da Manipulação: Nível Básico", "Aplicando a Magia em um Contexto de Combate", "Cálculo 1", e duas instâncias de "Prática de Magia". Natália não precisou olhar por muito tempo para perceber o que ela tinha achado estranho. Com exceção do fato dela não ter aula ás 23:00, os horários de descanso dela eram exatamente iguais aos de Natália.
- É estranho mesmo - ela concordou - mas acho que eu sei o que houve.
- Sério?
- Sim. Acho que as disposições dos quartos são decididas com base nos horários dos alunos.
Rinata pegou o horário de volta - Sim, você deve ter razão. Mais uma coisa pra pilha de "Bizarrices Dessa Escola". Você tem alguma teoria sobre a razão deles misturarem tantos materiais diferentes nessa construção?
- Na verdade - Natália começou - minha mãe me explicou sobre isso.
- Oh? - ela pareceu mais interessada - essa eu quero ouvir.
- Basicamente, tempos atrás, as pessoas começaram a notar que shopping centers tinham algumas propriedades estranhas. Como por exemplo, o fato de que criaturas do povo das fadas podem entrar neles sem precisar de convite.
- Eu já ouvi falar disso.
- Realmente. E como a magia dos territórios ensina, cada lugar tem suas próprias regras, então eles descobriram que, como os shopping centers tinham coisas de muitos lugares diferentes, como lojas de franquias de diferentes países, as regras deles ficavam confusas. O termo de não-lugar foi criado para designar eles.
Rinata estava ouvindo atentamente, e Natália viu quando ela entendeu o que a outra estava querendo explicar. Ela continuei só pra esclarecer.
- Então quando essa academia foi fundada, 20 anos atrás, a diretora, que é uma especialista em magia do território, projetou a escola para ser o maior não-lugar possível, assim ela mesma poderia definir quais seriam as leis do território. Um exemplo é que os vampiros são imunes a luz do sol aqui.
Rinata piscou os olhos.
- Eu entendo... mas acho que vou deixar essa informação na pilha de "Bizarrices Dessa Escola".
- Concordo - Natália percebeu que ainda estava segurando a mala - pode me ajudar a desfazer isso?
Ela finalmente olhou direito para o quarto. E ele era surpreendentemente normal. De fato, depois de tudo o que Natália tinha visto até aquele ponto, aquela normalidade chegava até a ser agressiva. A única coisa interessante era que haviam pequenas diferenças entre o lado do quarto de Natália e o de Rinata. A cor das paredes de Natália era azul marinho, e as de Rinata eram verde-escuras. Natália tinha uma cama com colchão, Rinata tinha um colchão sem uma cama. Natália tinha um criado mudo, Rinata tinha uma simples mesa de quatro pernas.
- Claro - Rinata respondeu. E com a ajuda dela, Natália conseguiu arrumar tudo em pouco tempo.
Ela olhou para o relógio.
- Está quase na hora da cerimônia de entrada.
Rinata olhou pra ela e falou:
- Venha comigo, eu vim mais cedo e explorei um pouco, eu conheço um atalho.
E sem esperar resposta, Rinata saiu correndo do quarto.
Alarmada, Natália saiu o mais rápido possível, trancando a porta atrás dela, e se apressou para tentar alcançá-la. Rinata corria rápido, e Natália teve que se esforçar, mas ela ainda conseguiu perceber que ninguém estava olhando para elas. O povo dessa escola devia estar acostumado a coisas bem mais estranhas.
Elas subiram por uma escada de corda e depois atravessaram uma ponte estreita que passava do lado de uma cachoeira. Natália não olhou muito bem para os lugares por onde elas passaram, pois estava com muita pressa na hora.
Finalmente elas chegaram num lugar que tinha duas fileiras de cadeiras diante de um quadro-negro. Em cima do quadro-negro estava uma contagem regressiva que estava nos últimos segundos, a maioria das cadeiras estavam ocupadas.
- Chegamos a tempo! - Rinata comemorou, sentando em uma das cadeiras.
Natália sentei na cadeira ao lado dela, sem saber o que exatamente estava acontecendo ali. Ela não precisei esperar muito para descobrir, pois quando a contagem chegou a zero, as cadeiras subitamente manifestaram barras de segurança, como as de uma montanha-russa, e o quadro-negro deslizou para o lado, revelando uma passagem escura.
O chão embaixo das cadeiras começou a se mover, avançando para dentro da passagem e carregando as cadeiras junto.
- Ah, é um transpo-
O chão acelerou subitamente.
- OOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOORTEEEEE! - a surpresa fez Natália gritar.
A comparação com uma montanha-russa mostrou ser extremamente apta, especialmente quando o transporte saíu de dentro do túnel e ela pode ver que ele estava andando em um único cabo fino, que não parecia ter qualquer sustentação adicional. Isso também permitiu que Natália visse vários outros lugares da academia que ela ainda não tinha visto. Como quando elas passaram no meio de teias de aranha gigantes, e também quando passaram ao lado de árvores gigantes, e também quando passaram acima de uma pista de corrida... de tamanho normal. Nem tudo podia ser gigante, pelo que parecia.
Elas pararam perto de um corredor suspenso, onde várias pessoas estavam entrando. E olhando para as placas, Natália percebeu que aquele corredor era uma das conexões com a Esfera de Cristal, que era o lugar onde a cerimônia de abertura seria realizada.
Ela desci do banco, tentando fazer suas pernas pararem de tremer, o que levou alguns segundos. Então as duas entraram no corredor, junto com todos os outros alunos que estavam indo para a cerimônia de entrada.
Não era um corredor especialmente longo, e quando elas chegaram chegamos no final, a escola surpreendeu Natália mais uma vez. O nome de Esfera de Cristal era tecnicamente correto, mas ele realmente subestimava a escala daquela maravilha.
Para começar, cada uma das mesas onde os alunos estavam sentados estava pousada em uma plataforma circular, e estavam conectadas por duas coisas, largos corredores suspensos no ar e escadarias também suspensas no ar que conectavam os andares superiores e inferiores. Não havia qualquer tipo de coluna de sustentação abaixo dessas plataformas e corredores, o que parecia ser um tema para essa escola, mas haviam tantos desses corredores em todos os andares que essas colunas precisariam atravessar vários deles para chegar ao chão.
Isso não quer dizer que houvesse pouco espaço vazio, pois havia o bastante para ver desde as pessoas que estavam no fundo até aquelas que estavam no topo, olhando pelos espaços entre os corredores.
A próxima coisa que saltava aos olhos era a simples escala daquela construção. Elas estavam em um dos andares médios, e podiam perceber que as escadas e corredores ficavam cada vez menores conforme a altura subia, e vice-versa. Natália viu vários andares que tinham proporções adequadas para gigantes, então a altura daquela estrutura inteira devia ser algo de fora desse mundo. E isso fez ela pensar, pois ela não achava que a altura da escola era tão grande assim.
Isso significava que parte daquela estrutura devia estar abaixo do nível da terra, escavada em profundidades abissais, e Natália teve outro choque quando percebeu que isso queria dizer que os portões gigantes de entrada da escola não eram grandes o bastante para deixar alguns daqueles gigantes passarem, e as acomodações igualmente grandes que deviam haver no térreo provavelmente pareciam inadequadas.
E a terceira coisa que impressionou elas duas foi a aparência das estruturas, que eram feitas de cristal, assim como o nome dizia, mas eram muitos tipos de cristal. Elas viram árvores de cristal Arukanji, que passavam uma inegável sensação de vida. Elas viram cristais artificiais, sutilmente registrando informações sobre todos que passavam por eles. Elas viram cristais que pareciam ser feitos de luz, mas eram tão sólidos quanto todo o resto. Elas viram até cristais líquidos, onde alguns seres aquáticos nadavam. E elas viram muitos outros tipos de cristal, formando a esfera na qual todos estavam reunidos, formando os corredores e escadas, formando as mesas e cadeiras.
- Isso é... incrível... - Rinata falou.
- É... eu concordo.
Elas não falaram mais nada enquanto andaram até a mesa mais próxima e sentaram nas cadeiras. Elas eram confortáveis, com uma consistência macia, mas diferente daquela de bancos normais.
Natália aproveitou o tempo antes da cerimônia começar para observar os alunos que ela podia ver daquela posição, enquanto Rinata parecia estar tentando tocar uma das sinfonias de Marx com a batida dos dedos na mesa. E haviam todos os tipos de alunos imagináveis. Natália viu um estudante humanoide formado por milhares de abelhas. Ela viu um aluno que parecia ser um monte de areia que circulava entre várias formas diferentes constantemente. Ela viu um ovo do tamanho de uma pessoa e que tinha braços e pernas. E esses foram apenas os que mais chamaram a atenção dela.
Haviam incontáveis outros, incluindo muitos que Natália não conseguia nem imaginar o que eram, mas Elidee provavelmente poderia explicar pra ela tudo a respeito deles.
Mas subitamente, algo chamou a atenção dela. Por algum motivo, seus olhos foram atraídos para um conjunto de plataformas no centro absoluto da esfera, levemente separadas de todas as outras.
Pelo canto do olho ela viu que todos os outros alunos ao meu redor também estavam olhando para a mesma direção, levando-a a pensar que a atração de sua atenção não devia ser coincidência.
Aqueles deviam ser os professores, mas eles estavam longe demais para Natália conseguir distingui-los. Relutantemente, ela murmurou as palavras mágicas de novo "Azath, Kazath, Nazath". E sua minha visão aumentou.
Ela viu que haviam centenas de professores, o que não era surpreendente, considerando a quantidade de alunos, e eles eram tão diversificados quanto os alunos. A atenção dela foi atraída para dois professores que estavam lado a lado. Um deles parecia ser um humano, mas tinha as partes que ela podia ver do corpo dele quase completamente cobertas por diversas pequenas marcas de várias formas, incluindo uma estrela amarela no meio da testa. Natália pensou em sua irmã Elidee e imaginou o que aquele professor ensinaria. O outro era um centauro de cabelos loiros que estava usando vários braceletes dourados e um olho de vidro.
Ela ia continuar olhando para os professores quando Rinata chamou sua atenção.
- Isso é magia pura, não é? - ela perguntou.
Natália desfez a magia antes de olhar para ela, e apertou os olhos para lidar com a dor.
- Isso mesmo - ela respondi - você percebeu?
- Sim, eu sou uma praticante, eu consigo perceber essas coisas se estou prestando atenção.
- Eu só consegui aprender dois feitiços de magia pura, estava esperando poder aprender alguns outros, e descobrir se eu quero seguir alguma das escolas de magia, ou se eu quero ir por outro caminho.
- Ah - a compreensão passou pelos olhos dela - então é por isso que você tem tantas coisas diferentes no seu horário de aulas.
Antes que Natália pudesse assentir, uma voz ressoou por toda a esfera, de uma forma que apenas magia seria capaz de fazer. Ou centenas de alto-falantes cuidadosamente posicionados e calibrados, mas seria mais fácil usar magia.
- Bem-vindos - era uma voz masculina - Sua diretora não pode chegar a tempo, então eu farei as apresentações - milhares de sussurros começaram após essas palavras.
- Para os alunos que estão começando esse ano, espero que vocês gostem da academia. Para aqueles que estão voltando, seu retorno é apreciado.
- Nossa escola tem uma tradição a zelar, nós treinamos nossos alunos para lidar com o mundo, e desenvolver suas habilidades. Nosso maior orgulho é o seu avanço, e nós também aprendemos com vocês.
- Pois foi para isso que essa academia foi criada, para ensinar e aprender.
Ocorreu um momento de silêncio antes dos alunos perceberem que o discurso tinha terminado. E então a resposta foi uma ovação tremenda, e depois o ruído de milhões de passos enquanto os alunos se levantavam e saíam.
Natália conversava com Rinata enquanto elas estavam andando:
- Eu achei que o discurso fosse ser maior - ela disse.
- É, eu também - Natália parou por um momento - quer comer alguma coisa?
Ela pensou - Não, estou sem fome. Mas acho que quero beber alguma coisa.
Natália teve uma ideia - Nesse caso, eu tenho a coisa perfeita.
- O quê?
- Vamos voltar para o quarto que eu te mostro.
E elas andaram de volta para os dormitórios, dessa vez seguindo pelo caminho mais longo, e passando por mais cenários que nenhuma delas tinha visto antes. Incluindo uma ponte no formato de um garfo gigante. Não, nenhuma delas entendeu a razão disso.
Quando elas chegaram no quarto, Natália olhou em sua mala, e encontrou vários pacotes de chá lá dentro. Assim como um mini-fogão e um pote de metal cheio de água. Ela aqueceu a água no fogão, enquanto se explicava para Rinata:
- Minha irmã Elidee adora chá, então ela coloca chá nas minhas coisas sempre que tem uma oportunidade. Por causa disso eu desenvolvi um gosto por chá.
- Certo, mas onde nós vamos colocar o chá?
Natália colocou a mão na mala e tirou um pacote com seis xícaras.
- Ela pensa em tudo - falou.
Depois de Natália terminar de preparar o chá, elas duas beberam enquanto conversavam sobre o que elas tinham visto. Natália ouviu muito sobre os caminhos da escola, enquanto Rinata ouviu sobre os muitos materiais usados na construção e detalhes sobre alguns dos outros alunos.
Quando elas finalmente encerraram a conversa e se deitaram em suas camas, Natália não pode deixar de sorrir.
Ela tinha feito uma amiga.

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quarta-feira, 13 de novembro de 2013

Natália Nocte e a Academia Arcádia: Capítulo 1 - A Família Nocte

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Os Nocte eram uma família excepcional. Cada um deles tinha um grande talento e todos eram diferentes. Os membros da família consistiam de sete pessoas, um pai, uma mãe, dois irmãos e três irmãs. Porém, uma dessas irmãs era a exceção da família. Ela era pouco conhecida pois nunca havia demonstrado talentos excepcionais ou se envolvido em situações fora do comum. Ela era a irmã do meio que costumava vigiar a casa enquanto os outros estavam fora. Portanto, o resto da família ficou muito feliz quando ela recebeu um convite para estudar na renomada Academia Arcádia. O nome dela era Natália Nocte, essa é a história dela.
Natália estava no quarto dela, fazendo as malas antes de sair. Seu quarto era bonito, com um piso de madeira e paredes brancas que estavam quase completamente recobertas pela variedade de interesses dela.
Haviam pôsteres de seus personagens favoritos, haviam fileiras de estantes contendo todos os livros que ela já tinha lido, todos meticulosamente organizados(ela era um pouco obsessiva em relação a isso), haviam dezenas de bonecos, que ela mesma tinha montado e pintado.
Havia o computador dela, robusto e tão carregado de arquivos que precisava de um HD externo para guardar tudo. Havia uma cama macia e de lençóis azuis. Havia um criado-mudo sobre o qual estava a carteira e o celular dela, dentre outras coisas. Havia uma mesa com cadeira onde ela estudava. E havia irmã mais velha dela, Elidee, que estava ajudando Natália a fazer as malas.
Elidee tinha 16 anos e era bonita, com um corpo atlético e um rosto sorridente. Tanto que ela provavelmente teria muitos pretendentes se a maioria das pessoas não tivessem medo dela. Ela tinha a pele morena e olhos castanhos, junto com cabelos pretos, características que partilhava com quase todos os membros da família, incluindo Natália. Ela estava usando uma camisa sem mangas, especialmente para tornar visíveis as várias marcas, símbolos e imagens gravadas em cada ponto da pele dos braços e ombros, mas haviam várias marcas nas costas que não era visíveis. Cada uma daquelas marcas tinha uma história e Natália conhecia muitas delas, mas havia algumas que Elidee se recusava a contar.
- É engraçado que um dos seus livros da escola seja "Animais Fantásticos e Onde Habitam" - disse Elidee, entregando o livro em questão pra Natália - considerando que fui eu que escrevi.
- Tem razão - Natália disse - então é bom que nenhum dos outros membros da família gostem muito de escrever livros.
- É mesmo! - ela riu - você consegue imaginar como seria um livro escrito pela mamãe?
Elas duas ficaram em silêncio por um momento, e então desataram a rir.
As risadas delas atraíram a atenção da irmã mais nova, Susan, que entrou no quarto perguntando:
- O que é tão engraçado?
- Estávamos imaginando um livro escrito pela mamãe - Natália respondeu, e elas caíram na risada de novo.
Susan apenas sorriu, ela nunca tinha sido muito de rir, mas o sorriso dela era muito bonito. Ela só tinha 10 anos, mas já dava para ver que ela seria uma beldade no mesmo nível da mãe delas, com um corpo mais desenvolvido do que outras garotas da idade dela. Eu mal posso esperar para ver a expressão das filas de pretendentes rejeitados que ela deixar para trás - pensou Natália - bem, isso saíu mais cruel do que eu tinha imaginado. Deixa pra lá - ela voltou a atenção para a situação atual.
A esfera vermelho rubi no colar ao redor do pescoço dela balançou quanto ela se curvou pra pegar o horário escolar que estava na cama de Natália. Susan usava o cabelo na forma de maria-chiquinhas e usava um complicado vestido vermelho com bordas, babados e detalhes em preto, junto com sapatos caros. Eram roupas muito mais práticas do que pareciam, especialmente considerando as habilidades que Susan possuía, e quase todas as roupas dela eram similares.
- Vamos ver... "Conceitos Básicos da Iniciação em Magia", "Artefatos Mágicos: História e Treinamento", "Entendendo a Nova Tecnologia", "Combate a Curta Distância: Nível Básico", "Psiônicos: Talentos Práticos", "Introdução a Ambientes e Seres Fantásticos"... e mais algumas coisas.
Ela levantou a cabeça e olhou para Natália:
- Parece que você incluíu todo mundo.
- Sim - Natália falou.
Elidee fechou a mala de Natália, depois de colocar as últimas coisas dentro. Então ela olhou para Natália com um ar misterioso.
- O que foi? - Natália perguntou.
Ela apenas sorriu, e Natália notou que Susan também estava agindo estranhamente, ela tinha se colocado entre Natália e a porta de saída, como se estivesse tentando impedí-la de fugir.
- Quem vai primeiro? - perguntou Susan.
- Vai você - respondeu Elidee, sem tirar os olhos de Natália.
Alarmes começaram a soar na cabeça de Natália, ela procurou por outra saída, mas Elidee tinha fechado todas as janelas anteriormente. Será que elas tinham planejado isso desde o princípio? Conhecendo elas, provavelmente sim.
Susan começou a andar na direção de Natália. Os músculos se enrijeceram e ela se preparou para um movimento explosivo, caso fosse necessário.
- Eu tenho... - ela falou, depois de se aproximar o bastante - um presente! - ela tinha tirado uma pequena caixa de... algum lugar.
Os músculos de Natália relaxaram tão rápido que ela quase caíu no chão, mas felizmente ela consegui recuperar o equilíbrio a tempo. Era por esse tipo de coisa que ela tinha de estar sempre preparada, tanto para fazer uma pegadinha quanto para dar um presente, elas agiam exatamente do mesmo jeito.
Natália estendeu a mão para a caixa e pegou ela - desculpe, mas eu não tive tempo de embrulhar o presente - Susan disse, mas a caixa já era bonita por si mesma, era uma caixa de madeira branca, do tamanho de uma caixa de anel. Por um segundo Natália teve uma visão estranha de Susan pedindo ela em casamento e quase riu de novo.
Então qual não foi a surpresa dela ao ver que dentro da caixa realmente tinha um anel. Obviamente não era uma aliança de casamento, parecia ser um daqueles anéis de jóias que pessoas usam pra se mostrar. Mas se fosse, era um de muito bom gosto.
Tanto o anel quanto a jóia tinham a mesma cor, um prateado que brilhava como se tivesse acabado de ser polido, a jóia em si era redonda e muito bem trabalhada, mas a parte que deixou Natália certa de que aquilo não era um simples anel, foi o fato de que o conjunto do anel com a jóia parecia ser uma coisa só. Não parecia que era uma jóia presa num anel, parecia que a jóia e o anel eram a mesma coisa.
- Coloque - Susan pediu.
Natália colocou o anel no indicador de sua mão direita. E subitamente ela percebeu exatamente o que ele tinha de tão especial.
- Esse é um Artefato - Natália falou.
- Isso mesmo - Susan disse - o nome dele é Olho da Luz. Tente usá-lo.
Natália se concentrou no anel, e fechando os olhos, ela conseguiu perceber uma coisa que poderia ser considerada um botão, metaforicamente falando. Ela concentrou sua força de vontade e apertou aquele botão metafórico.
A jóia se acendeu como uma lanterna com poucas pilhas, era uma luz que seria pequena mesmo no escuro, e num quarto bem iluminado como aquele, era quase imperceptível.
- Perfeito! - Susan disse, com uma alegria pouco característica - foi bem complicado achar um Artefato adequado pra você. É um Artefato de luz.
Natália abraçou Susan - Obrigado - disse ela - eu adorei.
Susan retribuiu o abraço, e depois elas se separaram - você vai ter que treinar muito pra poder melhorar as suas habilidades com isso - ela disse.
- Vou me esforçar - Natália disse, fazendo o sinal de vitória.
- Agora é a minha vez - disse Elidee, que também removeu seu presente de um lugar indeterminado, e ele era bem maior do que o de Susan, sendo um pouco maior que uma raquete de tênis de mesa, e ele estava embrulhado com um papel vermelho com bolinhas brancas.
Ela entregou o embrulho para Natália e fez um movimento para ela abrir. Natália desfez o pacote e abriu a caixa, que era uma caixa de papelão, para descobrir o que havia dentro.
Era uma faca, uma adaga para ser mais preciso, e ela estava presa em um coldre parecido com aqueles que tem em filmes de faroeste, de couro preto, mas adequado ao formato da adaga, Natália tirou a adaga de lá para olha-la melhor.
A adaga tinha duas coisas em comum com o anel, ela era um objeto único ao invés de partes conectadas e parecia ter sido feita por um artífice de grande habilidade. A cor dela era cinza-claro e o cabo era cilíndrico e tinha uma superfície que não era áspera o bastante para machucar, mas tornava mais fácil de segurar.
A guarda era circular e sólida, e a lâmina era reta e triangular, e tão afiada que quase se podia ouvir o som de corte só de se olhar para ela. Natália colocou ela de volta no coldre, aquela coisa era perigosa.
- E ainda tem a melhor parte! - Elidee disse, e Natália olhou para ela - essa é uma adaga de Ferro Relâmpago!
O queixo de Natália caíu - Quer dizer... ferro de meteoro?
- Isso mesmo - ela assentiu.
O queixo de Natália chegou ao chão, Ferro Relâmpago é um dos minérios lendários, capaz de bloquear completamente o fluxo da magia, ele era muito difícil de encontrar, e ainda mais difícil de manter funcional.
- Eu tive que usar alguns favores pra conseguir o minério e um artífice bom o bastante para moldá-lo...
Natália não deixei ela terminar e a silenciou com um abraço - muito obrigado - ela disse - isso é muito legal.
Elidee ficou em silêncio por um momento e então pegou a adaga junto com o coldre - deixa eu colocar em você - ela falou.
Natália desenlaçou os braços do corpo da Elidee e ela se ajoelhou para amarrar o coldre em volta da coxa direita de sua irmã. Um lugar escondido, pois a saia que Natália usava ia até o joelho. Ela se levantou logo depois, admirando o trabalho.
- Dê uma voltinha - ela pediu.
Natália girou.
- Perfeito - ela disse - está muito bem escondida.
Natália decidiu que aquela era a hora de fazer uma pergunta.
- Gente - ela comecei - eu gostei muito dos presentes, mas por que hoje? Nem é o meu aniversário.
Susan respondeu - É que você vai pra Grande Academia Arcádia, vai ser a primeira vez que você vai pra uma escola interna, e ainda mais por ser a maior escola do mundo. Você vai estar sozinha lá.
Natália baixei os olhos. Era verdade, ela nunca tinha vivido numa escola antes, e ela nunca tinha conseguido fazer amigos em nenhuma de suas escolas anteriores. Mas pelo menos ela voltava pra casa todos os dias, mesmo que a casa estivesse quase sempre vazia. Ela não poderia fazer isso em Arcádia.
- Todos nós decidimos fazer isso hoje pra te relembrar que estamos sempre com você - disse Elidee.
Natália olhou para ela, dava pra sentir que havia alguma coisa que elas não estavam contando pra ela. Então Natália olhou direto nos olhos dela e perguntou:
- É mesmo só isso?
- É claro que sim! - ela respondeu, mas Natália continuei olhando direto para os olhos dela, e rapidamente Elidee começou a ficar desconfortável.
Natália continuou a olhar direto nos olhos dela, tentando descobrir o que elas não estavam lhe falando. Isso continuou por alguns segundos, mas Natália acabou decidindo dar a elas o benefício da dúvida.
Natália parou com aquele olhar penetrante, e o alívio de Elidee foi quase visível.
- Então eu vou falar com os outros - Natália disse.
E saiu de dentro de seu quarto.
Ela andou pelos corredores, desviando dos vários robôs de serviço que voavam de um lado para o outro em velocidades assustadoras. O quarto mais próximo do dela era o quarto de seu irmão mais novo, Aleksei, mas la se encontrou com ele antes de chegar lá.
Aleksei era um garoto de 7 anos de idade que parecia ter vindo das terras distantes de Roksoi, isso por causa da roupa que usava: Um robe monástico cinza-claro, extremamente simples. Aleksei tinha vários desses robes, a maioria deles em cores tão neutras quanto esse. Aleksei sempre tivera muito orgulho de lá, pois era onde ele tinha nascido. Seu nome também era no estilo daquela terra, assim como os nomes de seus irmãos eram no estilo de onde tinham nascido. Os pais deles sempre haviam viajado muito.
A aparência física dele também era muito normal, com um rosto amigável e cabelos crespos. Eu gostaria de brincar dizendo que ele nunca ia arrumar uma namorada daquele jeito, mas ele já estava noivo daquela princesa amazona. Quem diria que uma briga de crianças poderia virar algo tão sério?
Natália encerrou essa linha de pensamentos se aproximou dele e começou a falar:
- Já estou quase pronta.
Ele deu um grande sorriso, Alexei sempre gostara muito de Natália, desde que era bem pequeno.
- Venha comigo - e Aleksei começou a andar, Natália seguiu ele.
Ela achou que eles estivessem indo para o quarto dele, mas Aleksei desceu as escadas e foi na direção do salão de entrada da casa. No meio do caminho, ela percebeu que os pés dele não estavam tocando o chão.
- Aleksei, pare de flutuar - ela mandou.
- Ah - ele nem sequer tinha percebido o que estava fazendo, e voltou ao chão, meio envergonhado.
Depois de passada essa momentânea interrupção, eles chegaram ao salão de entrada. Lá havia um entregador, e ao lado dele uma caixa retangular que era maior do que Natália. Aleksei andou até o entregador e assinou a prancheta que ele segurava.
- Você chegou bem na hora - falou - muito bem.
O entregador não falou nada, mas fez uma mesura tirando o chapéu por um momento, então ele se virou e saíu pela porta da frente.
Aleksei se virou para Natália e falou:
- Tenho um presente pra você! - ele disse, apontando para a caixa com as duas mãos.
- Susan e Elidee me falaram.
Imediatamente a cara dele ficou desconsolada. Parecia que ele estava contando com isso ser uma surpresa. Natália passou a mão na cabeça dele.
- Tudo bem, vamos abrir pra ver o que tem dentro.
Isso rapidamente alegrou ele de novo, e Alexei fez vários gestos repetivamente, apressando ela. E normalmente isso faria Natália ir mais devagar, como uma piada. Mas dessa vez ela estava ansiosa para ver o que havia lá dentro. Então ela rompeu o lacre de segurança e tirou a tampa, deixando as quatro partes laterais caírem, e revelando...
Outra caixa.
Dessa vez era uma caixa quadrada, e bem menor do que a caixa que a continha. Pra que serve todo esse espaço extra então? Ela pensou antes de abrir essa nova caixa.
E revelar outra caixa.
Natália já estava ficando impaciente, então ela começou a abrir caixa após caixa rapidamente e eficientemente, e elas ficavam cada vez menores e menores até o ponto que a caixa restante era ainda menor que a caixa do anel da Susan. Ela respirei fundo e disse:
- Está na hora!
E havia outra caixa dentro.
Natália colocou a palma da minha mão no próprio rosto, em um sinal de exasperação, ela ficou assim por dois segundos inteiros, antes de abrir a (dessa vez) última caixa.
O que havia lá dentro era uma esfera menor do que a ponta do dedo de Natália, a consistência parecia a de uma pedra preciosa, mas a cor era um azul-turquesa muito apagado. O cheiro era a parte mais estranha dela, sendo um aroma ferroso, com traços de produtos químicos que Natália não conseguiu identificar, além de um cheiro extremamente leve de uma pessoa desconhecida.
- O que é isso? - ela perguntou.
Aleksei juntou as mãos e abriu os braços logo em seguida, como um mestre de espetáculos apresentando suas atrações, ele começou - Isso, minha cara, é uma lendária...
Ele fez uma pequena pausa naquele momento, Aleksei sabia como ser dramático - antes de finalizar:
- Esfera de Emoções!
Natália não tinha certeza, mas ela achou que seus olhos se esbugalharam naquele momento. Uma esfera de emoções era uma massa sólida constituída de emoções extremamente comprimidas. Era uma coisa muito perigosa, pois a explosão de uma dessas era capaz de deixar inconsciente quase qualquer ser vivo que estivesse no alcance.
- Vo... você... - Natália gaguejou.
- Eu pedi para um dos meus amigos arranjar isso.
- Certo - Natália falou, começando a se acalmar - mas como... eu vou poder carregar isso?
Ao invés de responder, ele pegou a esfera e falou:
- Abra a boca.
Natália fez o que ele pediu, e ele estendeu a mão para dentro da boca dela, para colocar a esfera lá. Ela percebi o que ele estava fazendo e relaxou.
Ele colocou a esfera no canto da boca dela, perto da gengiva, a esfera ficou colada lá quando ele tirou a mão.
- Isso vai evitar que ela seja ativada por acidente. Mas essa coisa ainda é muito perigosa, então você só deve usá-la em caso de emergência.
Era como Natália tinha imaginado. Ela ainda não estava completamente convencida de que aquilo valia o risco, mas não podia recusar um presente de seu irmão. Ela passei a língua pela esfera, imaginando que ela provavelmente deixaria de sentir a esfera lá depois de algum tempo.
- O que você achou? - Aleksei perguntou.
Ela abraçou ele. E então começou a girar ele no ar.
- Eu não sei se vou precisar de uma coisa dessas - ela falou, sem parar de girar o Aleksei - mas obrigado, deve ter sido muito difícil de conseguir.
Natália colocou o Aleksei no chão e ele deu um sorriso radiante.
- Satoshi está esperando lá no quarto dele, ele também tem um presente pra te dar.
Ela agradeceu de novo e voltou a subir as escadas, dessa vez indo para o terceiro andar da casa, onde ficava o quarto do Satoshi. O corredor do terceiro andar era diferente daquele do segundo andar. Uma das diferenças era o fato de que haviam muito menos robôs voando de um lado para o outrô e realizando tarefas inescrutáveis.
Outra era o fato de que o teto desse andar era muito mais alto, com quase seis metros de altura, e ainda outra era o fato de que a decoração naquela parte da casa parecia muito mais pessoal. Imensas janelas com cortinas igualmente imensas, pedestais de cabeça para baixo e com vários troféus em caixas de vidro adornando o teto e diversas quinquilharias de todas as formas e tamanhos presas nas paredes eram apenas o começo dos muitos toques pessoais espalhados pelo corredor. Um decorador provavelmente consideraria aquilo exagerado, mas pra Natália isso parecia perfeito para os pais dela, pois o quarto deles também era naquele andar.
Ela atravessei o corredor quase sem olhar para os lados, e chegou até a porta do quarto de Satoshi. Ela era fácil de reconhecer, sendo uma porta de metal pesada.
Natália bateu na porta, e uma voz disse que ela podia entrar. Ela se firmou e empurrou a porta, abrindo caminho para o quarto de seu irmão mais velho.
Existe uma forma simples de descrever o quarto do irmão dela, ele parecia pertencer a duas pessoas diferentes. Um lado do quarto estava cheio de barras, sacos de areia(e outras coisas), e vários outros instrumentos de treinamento mais esótericos. Uma coisa importante a se notar é que não haviam simples aparelhos de musculação, mas instrumentos de treinamento marcial sério.
A outra metade do quarto, por outro lado, estava repleta de um número ridículo de videogames, controles de videogame e especialmente jogos, todos meticulamente organizados temática e alfabeticamente(essa parte era culpa de Natália).
De fato, a única coisa que mostrava que aquele era o quarto de apenas uma pessoa era a cama de solteiro onde o irmão dela estava sentado.
Satoshi tinha 19 anos, e o corpo de um lutador marcial. Ele não tinha músculos saindo pelos ouvidos, mas cada pedaço do corpo dele havia sido perfeitamente tonificado pelos anos de treinamentos e combates. O rosto dele também era bonito, e ele já tivera passado por várias namoradas, não surpreendentemente. Satoshi estava usando calças brancas e uma camisa preta sem mangas.
- Olá Natália! - ele acenou, chamando ela mais para perto.
- Como as coisas estão indo?
- O mesmo de sempre, tendo que lidar com alunos que acham que sabem o que estão fazendo, animar alunos que não estão indo tão bem e ajudar os alunos a resolverem os problemas que tem uns com os outros.
- É, você já falou sobre isso.
- E como você está se sentindo sobre finalmente entrar em Arcádia?
- Animada. Vou poder aprender muitas coisas lá - e talvez descobrir o que eu quero fazer, ela pensou.
- Por falar nisso. Eu tenho uma coisa pra te dar - ele estendeu a mão para pegar algo embaixo da cama.
Natália olhou, ela tinha uma ideia do que ele iria lhe dar, mas ainda estava curiosa.
E ele pegou... um livro. Parecia que ela estava certa. Estava embrulhado, mas era claramente um livro. Depois do drama dos outros embrulhos, uma coisa tão simples deixou Natália até aliviada.
Ela peguei o presente e abriu ele, revelando "O Livro dos Cinco Anéis", um tomo instrutivo sobre artes marciais. Natália tinha expressado interesse nele quando tinha passado por uma livraria algum tempo antes. E Satoshi estava lá para ouvir.
- E então? Você gostou?
Ela me virei e abraçou ele. Satoshi retribuíu o abraço e começou a girar ela no ar.
- Ahhhhhhh - ela gritei, de brincadeira.
Ele colocou ela no chão.
- Você vai levar esse treino a sério, não vai?
- Claro, ele vai ajudar nas minhas aulas de combate.
Ele bagunçou o cabelo dela.
- O papai está correndo pelos corredores, procurando você, vai lá.
Natália agradeceu de novo pelo presente e saíu do quarto, novamente precisando se firmar pra puxar a porta.
Sabendo que o pai estava procurando ela, não seria difícil achar ele, ela apenas andou pelo corredor até ouvir o familiar som de metal se chocando contra metal. Ela se virou e esperou o pai dela se aproximar.
Chamar a máquina que estava vindo na direção de Natália de "veículo" seria extremamente caridoso. Pessoalmente, ela diria "armadilha mortal". Ela parecia um pequeno andaime cercado por um anel flutuante de metal que batia nas paredes sem quebrar nada, e com um som macio. O mesmo não podia ser dito da parte de dentro, com a qual o andaime se chocava constantemente, sendo a fonte do barulho que ela tinha ouvido.
E era só isso, não havia qualquer amarra, cinto ou argola segurando a pessoa que estava em cima do andaime. Ela se segurava com as mãos, e ocasionalmente os pés, enquanto o andaime se movia em velocidades que seriam imprudentes em uma rodovia. Aquela pessoa era o pai de Natália.
Ele não era um homem especialmente bonito, mas também não era feio. As feições dele eram sérias, e o corpo dele não era tão musculoso quanto o do filho, mas também não era magricelo. Ele estava usando um jaleco de laboratório por cima de um casaco e calças pretas. Ele era o único da família que não era moreno, tendo a pele branca, mas suas feições eram muito similares a de seus filhos homens. Seu nome era Nicolas.
Ao avistar Natália, ele levantou a perna e colocou a sola do pé numa das barras do andaime. Aí ele freiou.
O andaime parou quase imediatamente, numa desaceleração tão violenta que teria jogado o pai por cima dela se ele não tivesse empurrado para o outro lado com o pé. No final das contas, o anel do andaime voador parou a poucos centímetros do rosto dela. Teria sido assustador se ela já não estivesse acostumada.
Nicolas desceu do andaime.
- Parece que os outros já te deram os presentes - ele falou.
- Sim, só faltam você e a mamãe.
- Nesse caso - ele colocou a mão no bolso do jaleco - está na hora do meu presente.
Ela olhou pra ele. Diferente do resto da família, ela tinha apenas uma vaga ideia do que ele poderia lhe dar, mas o conjunto de possibilidades diminuía muito se fosse algo que coubesse no bolso dele. Natália tentou adivinhar o que era.
Ela falhou.
Ele tirou do bolso um par de luvas brancas extremamente elegantes, parecidas com luvas de ópera. Natália pegou elas e e as calçou, depois de tirar o anel de seu dedo. As luvas tinham uma consistência parecida com a do veludo, e eram muito confortáveis.
Ela estava admirando quão bem as luvas ficavam quando o pai dela falou:
- Deixe os outros dedos esticados e aperte o dedo médio e o anelar na palma da mão.
Ela fiz o que ele pediu, com as duas mãos, e imediatamente sentiu algo estranho. Parecia que ela tinha ficado mais leve subitamente.
- Tente levantar o anel.
Natália colocou as duas mãos no anel do andaime e tentou empurrá-lo para cima. E para a surpresa dela, ele subiu facilmente, como se não tivesse mais que o triplo dopeso dela.
- São dinaluvas. Enquanto ativadas, elas aumentam a sua força consideravelmente.
- Elas são tão... lindas... - Natália falou, depois de ter abaixado o anel - mas como eu volto ao normal?
- É só fazer a mesma coisa.
Ela dobrou os dedos do mesmo jeito de antes, e sentiu o seu peso voltar ao normal. Então ela se virou e abraçou o pai dela.
- Obrigado mesmo...
Ele fez carinho na cabeça dela. Depois eles se separaram e ele falou:
- Sua mãe já deve estar chegando, desça lá no jardim pra receber ela.
- Tá bom, mas pode levar isso pro meu quarto? - Natália entregou o livro de Satoshi pra ele.
- Tudo bem.
Ela saiu, acenando enquanto ele voltava a subir na armadilha mortal, e voltou a descer as escadas, colocando seu anel de volta no dedo por cima da luva e indo para o salão de entrada.
Natália passou pela porta e chegou no jardim. Diferente do que se poderia imaginar, aquele era um jardim perfeitamente normal, e muito bonito. Ela sentiu uma ponta de orgulho, já que ajudava Susan a cuidar dele.
Isso levou ela a pensar no jardim de Elidee, que era muito bem escondido, já que seria muito perigoso pra qualquer pessoa que entrasse lá por engano.
A linha de pensamentos sobre jardins parou quando Natália avistou um ponto negro no céu. Ela apertou os olhos, e percebeu que aquele ponto era a mãe dela.
Natália observou enquanto ela chegava cada vez mais perto, e percebeu quando ela a avistou e começou a acenar, Natália já via o bastante para distinguir as roupas que a mãe estava usando quando algo aconteceu.
Ela caiu, simplesmente despencou do ar como se a gravidade tivesse subitamente percebido que algo estava errado, foi como se uma águia tivesse magicamente se tornado uma pedra.
Não devia ter sido mais de 5 segundos e ela acertou o chão como um míssil, levantando uma nuvem de poeira. Como Natália estava perto de onde ela tinha caído, a garota precisou abanar com as mãos para afastar a poeira.
- Droga - falou a minha mãe, no meio da nuvem de poeira - por que eu tinha que pensar em Ícaro logo naquela hora?
A poeira lentamente baixou, e Natália pode ver sua mãe de perto.
Simplesmente falando, ela era a mulher mais bonita do mundo.
Certo, isso era na opinião de Natália. Mas o fato é que toda vez que eles íam pra um lugar público, ela atraía os olhos de todos os homens e de muitas das mulheres também.
A aparência dela não era magra como a de uma modelo, ela era encorpada e curvilínea, com uma cintura larga. Os braços e as pernas dela não pareciam nada delicados, mas isso era de se esperar, considerando o trabalho dela. Os cabelos dela eram lisos e acentuavam perfeitamente o belo rosto dela, especialmente em contraste com os olhos negros. Isso pois os cabelos dela eram brancos, extremamente brancos da forma que uma folha de papel teria inveja. Seu nome era Bianca.
As roupas que ela estava usando eram uma calça folgada que ia até o tornozelo, uma camisa branca com escritos em círilico, que Natália conseguia reconhecer, mas não entender e um sobretudo marrom que não estava fechado. Ela não usava sapatos.
Ela bateu na roupa com as mãos, para tirar a poeira, e pequenas faíscas multicoloridas saltavam toda vez que ela fazia contato. Ela terminou isso, olhou para Natália, levantou os braços para o ar e gritou:
- Eu cheeeeeeeeeeeeeeeeeeeegueeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeei!!!
Imediatamente, dezenas de pequenos fogos de artifício explodiram ao redor dela, formando imagens de casa, comida e dos outros membros da família. Um arco-íris surgiu sobre a cabeça dela. E finalmente uma explosão imensa rugiu vários metros atrás dela, criando uma nuvem de fumaça vermelha.
Bianca sempre ficava feliz quando voltava pra casa.
E antes que Natália pudesse dar as boas vindas, a mãe dela tinha corrido em sua direção e a envolvido num abraço apertado, levantando-a do chão.
- Ugh - Natália falou, tentando respirar.
Bianca diminuíu um pouco a força, permitindo que Natália abraçasse ela também.
- Que bom que eu consegui chegar a tempo! - ela falou, colocando a filha de volta no chão.
- É, todo mundo conseguiu.
Ela olhou para as luvas de Natália e sorriu.
- E parece que o seu pai já te deu o seu presente.
- Sim.
- Então é a minha vez!
Ela girou a mão e colocou a palma pra cima. Uma explosão de luz surgiu na mão dela, e quando desapareceu havia um embrulho no lugar.
- Aqui está - ela entregou o embrulho para Natália.
O presente tinha sido embrulhado com papel multicolorido, pelo menos três camadas. Mas ainda assim era claramente um livro. Natália já tinha imaginado o que seria o presente de sua mãe, e parecia que ela não estava errada.
Ela desfez o exagerado embrulho e olhou a capa do livro.
Era um livro pesado de capa dura, que parecia ser de segunda mão. Ou talvez sétima mão. Ele parecia um livro que havia testemunhado as mudanças do mundo, e suportado todos os problemas que sofreu. O livro era sólido, e cheirava a conhecimento. A capa dele dizia gloriosamente: Tomo de Feitiços de Fora das Escolas de Magia.
Natália olhou para Bianca, sem acreditar, ela sabia que o presente seria algo relacionado a magia, mas receber um livro tão obviamente raro era algo que ela não estava esperando.
A mãe de Natália se aproveitou da confusão dela para envolvê-la em outro abraço, delicadamente dessa vez.
- Eu te amo - ela falou no ouvido de Natália - nunca se esqueça disso - ela soltou sua - agora vá terminar de arrumar as suas coisas.
- Obrigado - Natália disse, acenando pra ela e voltando para dentro de casa.
Natália correu de volta para o quarto dela, Elidee e Susan não estavam mais lá, mas a mala ainda estava lá, com o livro de Satoshi ao lado dela.
Ela rapidamente guardou os dois livros na mala, e então foi até o espelho para checar sua aparência pela última vez.
Natália estava satisfeita, a aparência dela sempre seria mais parecida com a da Elidee do que com a da Bianca, mas ela não iria querer o excesso de atenção que vinha com a beleza dela.
Natália estava usando uma saia preta e uma camisa vermelha de mangas curtas. Na cabeça dela havia uma boina branca, e o cabelo dela era longo o bastante para chegar no começo das costas. As luvas não tinham deixado de ser elegantes desde a última vez que ela olhara, e nos pés estavam botas de combate pretas com meias brancas. Satoshi acharia melhor se ela usasse galochas como as dele, mas ela preferia essas botas.
Natália sorriu e se virou para pegar a mala, estava na hora de ir para a escola.

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sábado, 13 de outubro de 2012

O Mago e a Vampira: Capítulo 5 - As Três Irmãs Magas

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Na verdade Vítor tinha achado um pouco estranho o fato de Lúcia ter pedido pra ele ficar lá, apesar deles só terem se conhecido no dia anterior. Eles realmente tinham se dado bem naquela pequena exploração, mas ainda assim era difícil de acreditar que ela já confiaria nele.
Por outro lado, ele tinha derrotado aquele monstro antes mesmo de conhecê-la, e provavelmente ela esperava que ele fosse atender aos pedidos de ajuda do povo da cidade.
E ele se lembrava daquela intenção assassina que tinha sentido, ela estava mais fraca, mas ainda continuava perceptível por trás das outras sensações que a casa passava. Vítor pensou que era bem possível que o dono daquela intenção fosse um guarda que não hesitaria em acabar com ele caso ele saísse da linha.
Não que ele pretendesse fazer isso, embora ele estivesse disposto a aproveitar o tempo livre para explorar aquela casa. Já que ficar parado seria muito entediante.
Pensado em tudo isso, ele saíu andando pelos corredores inexplorados da casa, e uma coisa que ele rapidamente pode perceber foi que aquela era uma casa complexa, que provavelmente estava cheia de locais ocultos e passagens secretas.
Andando pelo corredor principal da casa, ele decidiu evitar todas as portas que davam em outros corredores, pelo menos no começo. Depois de passar por três delas, ele abriu uma quarta porta, e imediatamente desejou jamais tê-la aberto.
Era um quarto, isso estava absolutamente claro pela cama com dossel e a mesa com um computador, mas o resto do quarto era uma visão que rompia os limites da sanidade. As paredes pareciam feitas de centenas de rostos costurados uns nos outros, alguns desses rostos pareciam estar em agonia, outros possuíam sorrisos maníacos, e ainda outros pareciam observar o próprio Vítor, com olhos acusadores e temíveis, como se eles estivessem prestes a sentenciá-lo pelo pior dos crimes.
Mas esse era apenas o começo do show de horrores, instrumentos de tortura que pareciam récem-usados jaziam jogados no chão ou pendurados nas paredes, instrumentos dos mais variados tipos e para as mais variadas anatomias, como se essa fosse uma macabra exposição histórica.
E isso ainda não era tudo, a cada pequeno detalhe daquele lugar que era absorvido pela mente de vítor, havia mais um pequeno horror esperando para ser descoberto, mas o pior de tudo ainda estava por vir, pois a mente de Vítor tentava desesperadamente não compreender o verdadeiro terror daquela cena, mas não havia possibilidade, tudo já estava entrando em foco.
Eram as cores. Tudo o que havia naquele quarto estava pintado nas cores que causariam a pior distorção possível, rosa, azul-bebê e os vermelhos menos violentos possíveis. Aquilo era algo absurdo, era como ver um coelho comendo a si próprio, era como perceber que havia um número extra na contagem de 1 até 10, e Vítor sentiu um pedaço de sua infância morrendo imediatamente ao perceber aquilo.
Ele bateu a porta com toda a força que tinha.
- Esse... deve ser o quarto da Kogasa - ele concluíu, assim que conseguiu colocar os pensamentos em ordem.
Ele voltou a andar pelo corredor, ainda tremendo, mas confiante de que o pior já tinha passado.
Depois de algum tempo, ele chegou a outra porta, dessa vez ele abriu ela lentamente, e foi surpreendido por uma visão estranhamente normal.
No canto do quarto havia uma pequena cama com lençóis vermelhos, no outro canto havia um guarda-roupa imenso, que parecia ter o dobro do tamanho de um normal. O tapete era branco como o céu de alvorada, enquanto as paredes e o teto eram negros como a meia-noite. Haviam três mesas redondas de cinco cadeiras, cada uma com algo diferente em cima.
Uma delas tinha uma chaleira e algumas xícaras, a segunda tinha uma coleção de diferentes relógios. Analógicos, digitais, biológicos¹... finalmente, a última mesa tinha um tabuleiro de xadrez com peças em cima, mas as peças não estavam nas suas posições iniciais, então esse devia ser um jogo em andamento.
Foi a segunda mesa que fez Vítor ter certeza de que aquele devia ser o quarto de Lúcia, apenas ela seria tão maníaca por relógios. Vítor sentiu uma vontade súbita de adentrar naquela fronteira proibida, mas fechou a porta ao invés disso, aquele não era um caminho que ele queria trilhar.
Depois de mais algum tempo andando, Vítor finalmente chegou ao final do corredor, e havia uma última porta lá. Curioso, pois as duas últimas tinham sido quartos, ele estendeu a mão para a porta.
Antes que ele pudesse colocar a mão na maçaneta, a campainha tocou, quem poderia ser? Será que ele tinha sido deixado lá para receber aquela pessoa? Foi o que Vítor pensou, e a resposta era "definitivamente não".
-                 -                    -               -
Kogasa andava pelas ruas da cidade, disfarçada como um adorável cãozinho, aquele era um dos truques favoritos dela, alguém sempre tentava levá-la pra casa, e ela dava um tremendo susto na pessoa. Hilário.
O que ela encontrou foi exatamente o esperado de uma cidade militar. Grandes mercados abertos oferecendo todos os tipos de produtos, pequenos acrobatas, malabaristas e outros tipos de performistas realizavam feitos que desafiavam a lógica em troca de algum dinheiro, grandes esquedrões realizavam duros exercícios de combate e guardas bem armados patrulhavam os silos contendo os suprimentos de que a cidade necessitava para continuar funcionando.
Depois de tantos anos de guerra, aquela civilização havia alcançado uma complexidade muito grande, sendo composta de pequenos grupos com interações rigidamente determinadas. Qualquer sociólogo ficaria incrivelmente animado com a oportunidade de estudar algo assim, mas Kogasa não era uma socióloga, e tinha um trabalho a fazer.
Depois de assustar a pessoa requerida², Kogasa mudou para a forma de um mosquito, e adentrou uma das tendas do comando, não havia ninguém lá, então ela repetiu o processo com várias outras tendas até encontrar o ouro.
Bem, não era exatamente ouro, mas era um grupo de pessoas que destoava do resto da cena.
Haviam 11 deles, 6 pareciam híbridos de humanos e lobos, com uma forma humanóide coberta de pêlos e cabeças que variavam de meio caninas até cabeças iguais a de lobos, e estavam carregando ao redor de seus corpos uma grande quantidade de correntes que terminavam em ganchos afiados.
Um outro era um homem baixo e nada ameaçador, exceto pelo machado de duas mãos que ele afiava usando uma máquina. Outra ainda era uma elfa musculosa que estava usando luvas de metal.
Também havia uma quimera, que tinha cicatrizes espalhadas pelo corpo, e um olhar inteligente que observava o resto dos outros calmamente, além disso, havia uma pequena garotinha que carregava uma foice.
Finalmente, havia um homem alto, musculoso e imponente que estava usando uma armadura completa dourada e trazia uma espada de duas mãos presa nas costas. Todos eles eram definitivamente fortes.
"Um grupo de mercenários", Kogasa pensou "o que eles estão fazendo aqui?"
Ela teve sua resposta rapidamente, ao ouvir a conversa deles:
- Lúcia deve estar chegando - falou o homem de armadura, com uma voz alta e fazendo gestos expansivos - Rendi, você fica com ela - o homem do machado assentiu e, fazendo o machado desaparecer(Lúcia achou que ele devia ter algum tipo de espaço vazio), saíu da tenda - Anoris - ele continuou, apontando para os usuários de correntes - observem de longe e deem apoio a ele caso seja necessário - eles também saíram.
Então ele se virou para a garota da foice:
- Você viu o que aquela tal de Kogasa sabe fazer, não viu? - a garota assentiu - posso confiar em você pra lidar com ela?
- Claro - a garota falou, sorrindo docemente.
- Então vá.
Enquanto ela estava indo, o cara da armadura se dirigiu aos outros - nós vamos apenas continuar nas nossas posições anteriores e esperar novas ordens.
Os outros assentiram e saíram da cabana. Kogasa esperou alguns momentos antes de seguí-los, pensando "É uma armadilha, e eu não vou poder nem avisar a Lúcia."
-                      -                       -
Vítor chegou até a porta, ele se preparou para atender, mas quando chegou perto da porta, seus instintos fizeram ele saltar para trás, e foi bem a tempo, pois logo depois, a porta aparentemente explodiu.
Vítor tinha se afastado, mas mesmo assim ele foi atingido por cacos de madeira que voaram da porta. Vítor olhou para o local da explosão, e viu quando a poeira começou a baixar.
Haviam três velhas, velhas o bastante para seus cabelos serem brancos, as três também eram baixas e estavam usando robes brancos. As feições delas eram similares o bastante para Vítor se convencer de que elas eram irmãs. E nenhuma delas possuía aquela fragilidade das pessoas no fim da vida. Pelo contrário, as três eram mais parecidas com árvores anciãs, que ficam cada vez mais densas e resistentes com a idade.
A próxima coisa que Vítor percebeu foi que cada uma delas estava segurando uma arma. Aquela que estava na frente das outras possuía uma espada de duas mãos. A que estava mais atrás tinha um cetro. E a que estava entre elas estava usando manoplas bem maiores que a mão dela.
- Ei, vocês! Tomem cuidado com isso! Alguém podia ter se machucado! - Vítor gritou.
Aranea(a velha da espada. Eu não vou fixar chamando ela de velha da espada até alguém falar o nome dela) apontou sua espada para Vítor.
- Vítor Lee! Em nome do bem-estar e ordem no mundo, nós viemos aqui para te executar!
E as três avançaram como uma só. Nesse ponto existe uma coisa que se deve levar em consideração. A família Lee tinha apenas duas regras. A primeira era que todos os membros da família tinham que aprender pelo menos magia o bastante para fazer um feitiço, não importa quão pequeno. E a segunda era que eles tinham que ficar longe de Kali, de qualquer jeito. Essa segunda regra é interessante pois ela mostra uma coisa importante sobre a visão de mundo dos Lee. Eles não são orgulhosos demais pra fugir.
E fugir foi o que vítor fez, ele virou de costas e deu no pé, mas logo percebeu que jamais poderia escapar daquelas três simplesmente correndo. Meenah (a das manoplas) estava aparentemente usando um feitiço de movimento rápido.
Vítor tentou atacar elas enquanto corria, mas nenhum de seus ataques funcionavam, as magias de longa distância eram bloqueadas por Aranea ou Meenah, e tentativas de se aproximar eram respondidas por cubos de energia lançados por Porrim (a do cetro) que eram bem mais fortes que as esferas de energia de Vítor.
Vítor podia ser habilidoso, mas aquelas três obviamente tinham muito mais experiência do que ele. E vítor só tinha um feitiço que ainda não tinha tentato, seu quinto feitiço, mas atingir as magas com ele seria difícil. Pensando rápido, Vítor decidiu que sua melhor chance seria entrar em um dos quartos e atacar quando elas entrassem atrás dele. Porém, no momento em que pensou nisso, Vítor perdeu a concentração. Era exatamente o que as três estavam esperando.
Em um movimento fabulosamente rápido, Aranea se aproximou dele e atacou com a espada de baixo pra cima, Vítor criou sua espada de magia a tempo de bloquear o golpe, mas a pura força por trás daquele ataque jogou os braços dele para trás. Meenah avançou a seguir, juntando as mãos e atacando com elas antes que Vítor pudesse baixar os braços para se defender. Ele se preparou para a dor, mas ao invés disso Meenah tocou nele levemente sussurrando Dominum, e subitamente Vítor sentiu como se estivesse coberto de terra. Cada movimento saía apenas depois de um imenso esforço, e Porrim completou o ataque triplo criando um cubo de energia ainda maior que os outros e lançando ele na direção de Vítor. Ele não poderia se mover rápido o bastante para sair de lá, mas ainda tinha uma chance. O último feitiço.
Canalizando grandes quantidades de seu poder mágico pelo braço, Vítor fez ele brilhar em uma luz dourada. Várias veias romperam, músculos rasgaram e ossos racharam, mas aquele braço pode se mover livremente por uns breves momentos. E ele socou o cubo.
A explosão foi tremenda.
-                  -                -                     -
Vítor acordou no porão da casa. Todo o corpo dele doía e haviam destroços em todos os lados, mas o que realmente chamou a atenção dele foi a grande quantidade de correntes que estavam naquele lugar, correntes imensas, que pareciam feitas para prender dragões, correntes presas no teto, nas paredes, no chão. Correntes mantidas no lugar com pedras pesadas, com cravos similares aos usados em escaladas e algumas que pareciam coladas. E haviam várias correntes que haviam se soltado devido a destruição que a luta de Vítor e das magas tinha causado.
E então, uma corrente se rompeu.
Seguida de outra.
Todos os instintos de Vítor gritavam para ele fugir, mas antes que ele pudesse, Vítor ouviu uma voz ao lado dele.
- Ei, Vítor.
Vítor quase torceu o pescoço, com a velocidade que ele se virou, mas o que estava lá era muito diferente do que ele tinha esperado. Era uma bola de luz, uma bola de luz verde que aparentemente podia falar³.
- Quem é você? - ele perguntou, de maneira muito pertinente.
- Meu nome é Akinima. Eu sou uma pixie, e minha função é cuidar dessa casa.
- Como você consegue falar? - ele fez uma pergunta menos pertinente.
- Isso não é importante. Você entende o que está acontecendo?
- Tem alguém aqui, que aparentemente quer matar tudo o que existe, pela sensação que eu estou tendo. E está se soltando.
- Exatamente, mas eu tenho que explicar quem é essa pessoa, antes que você faça alguma coisa de que se arrependeria.
- Então quem ela é?
- Essa é... Amanda, a irmã da Lúcia.

¹ Alguns cientistas malucos ouvem o termo "relógio biológico" e entendem errado.
² A pessoa que ela tinha assustado espalhou a história, e a lenda do "cachorro de três cabeças" se tornou muito bem conhecida algumas décadas depois.
³ Existem cientistas chamados xeno-fonologistas que estudam a produção de sons por fontes não usuais. Essa seria uma das coisas que eles estudam.

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domingo, 12 de agosto de 2012

Os Principados de Toc

Uma promessa ancestral entre humanos e fadas faz com que sete princesas tenham que lutar contra as Forças das Trevas. Depois de centenas de anos, a magia, a humanidade e a tecnologia se misturaram, e o continente que elas juraram defender está experimentando um período de paz. Mas as Forças das Trevas estão se fortalecendo novamente...

Prólogo

Os Principados de Toc: Prólogo - No Passado

O dia estava animado na Corte Central. Pequenas fadas de asas multicoloridas delicadas voavam de um lado para o outro, dando notícias. Espíritos brilhantes e cheios de energia se reuniam ao redor da sala do trono. Duendes aproveitavam a movimentação para fazer performances ou vender coisas. E até um dragão tinha saído de sua caverna e estava flutuando impossivelmente alto no ar, observando com muito interesse.
E qual era a razão disso? Simples. Era a primeira vez em incontáveis eras que um humano recebia permissão para ter uma audiência com a Rainha das Fadas. E isso só havia acontecido porque aquela humana era muito especial.
Não havia muita gente dentro da sala no trono naquele momento. Haviam 12 guardas corvo, três em cada canto da sala, observando os procedimentos solenemente e sem mover um músculo, mas preparados para agir num instante caso sua intervenção fosse necessária. Eles pareciam homens musculosos, com excessão da cabeça, que parecia com a de um corvo, mas maior do que a de qualquer corvo normal. Eles estavam usando belas armaduras brancas e carregavam duas espadas nos braços cruzados.
No centro da sala, diante do trono, estava a pessoa que havia conseguido uma audiência com a rainha. E ela era alguém que dominaria completamente o ambiente em qualquer outro lugar. Era uma mulher alta e bonita, que parecia ter mais ou menos trinta anos, mas na verdade estava mais próxima de quarenta, ela tinha cabelos negros longos, que estavam presos num coque, junto com uma magnífica tiara de diamantes. Os olhos dela eram castanhos e sábios, e ela estava usando um vestido verde claro que havia tomado 12 meses para ser feito, e sua perfeição em cada detalhe e enfeite mostrava isso, mas o que realmente fazia ela se destacar era sua aura, uma aura de sabedoria e autoridade que fazia quase todas as pessoas próximas mostrarem respeito mesmo sem perceber. Mesmo os guardas corvo estavam se curvando levemente na direção dela. Ela era a Grande Rainha Íris, a Magnífica. Conhecida pelas fadas como "A Mais Poderosa Entre os Humanos".
Ao lado dela, havia alguém que não tinha uma presença menos marcante, era uma pequena e adorável garotinha que não parecia ter mais de nove anos, cujo sorriso parecia indicar uma felicidade que não cabia no próprio corpo. Os olhos dela eram negros, mas não simplesmente negros, eles eram negros como a vastidão do espaço, e realmente era possível ver estrelas neles com esforço. Os cabelos dela eram prateados, mas pareciam mais ser fios da mais fina e perfeita prata, que fluíam até as costas dela, flutuando de formas impossíveis. Ela estava usando um vestido simples de duas cores, exceto que aquelas cores eram um vermelho e um branco mais vibrantes do que qualquer coisa que pudesse ser feita sem o uso de mágica, e a maioria das coisas que podiam ser feitas com mágica, de fato, suas cores eram tão profundas que elas podiam ser percebidas mesmo por aqueles que não possuiam olhos normais. O vestido também se movia perfeitamente em conjunção com o corpo dela, como se fosse uma parte dela, o que de fato era, de certa forma. Juntando tudo isso, aquela pequena garota dava uma impressão de Poder, que era apropriada, considerando que ela era uma Garota Mágica, uma daquelas que comiam, bebiam e respiravam magia. E não apenas uma garota mágica, ela era a legendária Garota Mágica do Infinito, conhecida pelas outras garotas mágicas como "A Mais Próxima da Fonte", e elas se recusavam a explicar o que isso significava.
Ao lado do trono havia alguém que não tinha uma presença tão marcante quanto aquelas duas, mas também não estava nem perto de ser uma pessoa comum, como podia se ver pelo fato de que ele não estava se mostrando afetado por nenhuma das presenças que competiam naquela sala. Ele parecia um garoto humano, e realmente havido nascido daquela forma, mas tinha se perdido no reino das fadas em tempos imemoriais. O garoto estava usando vestes brancas muito simples, mas não destoava em nada da cena deslumbrante ao seu redor, pois ele parecia completamente confortável naquela situação, com um sorriso misterioso no rosto e elegância no andar. Ele realmente era o mais adequado para uma das posições mais invejosas no Reino das Fadas. Seu nome humano estava perdido no tempo, mas as fadas chamavam ele de Kallium, o Pajem da Rainha.
E a última pessoa naquela sala era obviamente a Rainha das Fadas, e a presença dela era a mais dominante em toda a sala do trono, e não apenas porque aquele era o Local de Poder dela. Ela tinha uma aparência tal que seriam necessárias palavras que não existem em nenhuma língua. A beleza dela ia além da mera concepção de beleza, e todos os olhares eram invariavalmente atraídos por cada minúsculo movimento que ela fazia. A cor de seus olhos era algo que não podia ser imitada por qualquer outra coisa existente, a expressão deles dizia que todos os que estavam perto seriam bem vindos como servos dela, e era quase impossível não pensar pelo menos uma vez que isso era o que você queria. O corpo dela parecia mais vivo e mais "real" do que tudo que havia ao redor. As asas dela eram tão claras e finas que pareciam que poderiam se desfazer em poeira com um simples olhar, e suas cores eram um negro tão profundo que parecia que iria sugar todos ao redor e um branco tão brilhante que era quase impossível de se olhar. As roupas dela lembravam pinturas, pois elas eram perfeitas demais para realmente existir na realidade. E finalmente a já mencionada presença dela envolvia todos os que estavam no mesmo cômodo, dando a eles uma nítida impressão de que seria impensável a mera sugestão de se ir contra ela. Ela tinha tantos nomes quanto haviam de estrelas no céu, mas seu nome mais conhecido era Camille, Rainha e Comandante Absoluta das Cinco Cortes do Povo.
A sala no trono em si também era magnífica, perfeita para um encontro que decidiria o curso da história. Ela era toda feita de um material que parecia mármore branco, com altas colunas espetacularmente gravadas e pinturas nas paredes que pareciam mostrar diversas cenas diferentes da história do Povo, dependendo de que ângulo fossem olhadas. O chão era azul celeste e feito de azulejos produzidos e montados tão perfeitamente que era impossível dizer onde um começava e outro acabava, parecendo mais um único e imenso azulejo impecável. O trono onde Camille estava sentada tinha uma cor dourada leve, e combinava perfeitamente com a majestade da Rainha. Suas linhas eram simples e belas, e quando os móveis dormiam, eles sonhavam em ser como aquele trono.
Íris tinha acabado de explicar para Camille a respeito de todas as Forças das Trevas que estavam se reunindo no distante Continente de Toc. Ela falou também a respeito dos planos dela de avançar com seu exército sobre aquele continente e impedir que os inimigos saíssem para atacar o resto do mundo. E então ela parou e esperou por um comentário de Camille.
- Minhas pequenas fadas e espíritos já haviam me informado de tudo isso que você fala. O que eu quero realmente saber é sobre as suas intenções em vir aqui e requisitar uma audiência comigo - foi a primeira coisa que Camille falou.
- Minhas intenções aqui são simples, quero pedir o seu apoio na minha campanha contra as Forças das Trevas - foi a resposta de Íris, normalmente ela não seria tão direta, mas tudo o que tinha ouvido sobre a famosa Rainha das Fadas indicava que esta não apreciaria o tipo normal de diplomacia.
- Essa é uma proposta estranha, jovem senhorita, especialmente considerando que os nossos súditos não tem se dado muito bem no passado.
- Embora eu não possa negar o fato de de o Povo e a Humanidade terem tido diversos conflitos, eu acredito que você tenha percebido que a ameaça representada pelas forças das trevas é muito mais importante do que qualquer iniminizade que nossos povos possam ter.
- Eu posso entender o motivo que levou você a procurar a nossa ajuda, mas existe um pequeno problema com a sua proposta.
- Esclareça para mim qual é o problema que você encontrou no assunto da cooperação entre nós.
- Simplesmente, eu creio que, mesmo com a nossa ajuda, vocês não sejam capazes de derrotar as Forças das Trevas. De fato, eu nem sequer teria concordado em te dar a audiência se não fosse a sua "companheira", que estava destruindo barreiras mágicas ancestrais só de passar perto delas.
Ao ouvir isso, Infinito se moveu ligeiramente ao perceber que estavam falando nela, mas não pareceu realmente preocupada. Íris se esforçou para não deixar nada de especial transparecer em seu rosto. Ela sabia que algo assim iria acontecer, a simples ameaça das Forças das Trevas não seria o suficiente para fazer Camille se mover, ela só tinha uma chance, apesar de ter preferido que as coisas não chegassem a esse ponto. Ela falou:
- Ah, mas eu receio que você esteja enganada em relação a isso. De fato, eu tenho tanta certeza de que nós seremos capazes, que estou disposta a fazer uma aposta com você a respeito disso.
Íris percebeu o brilho nos olhos de Camille ao ouvir a palavra "aposta", mas quando a Fada falou, sua voz mantinha o mesmo tom levemente zombeteiro de antes.
- É mesmo? De que aposta nós estaríamos falando?
- Eu aposto que as minhas filhas, sozinhas, seriam capazes de liderar o ataque no continente de Toc e vencer, se tivessem o apoio do Povo.
O sorriso de Camille aumentou levemente antes dela responder.
- As sete princesinhas? Essa parece uma aposta interessante, mas você sabe qual seria o preço se elas falhassem, não é?
Íris não mudou o tom de voz ao falar.
- Claro, eu conheço muito bem as apostas com as fadas. Você iria ficar com todas elas, não é? As coisas não chegarão a esse ponto, pois elas irão vencer.
Camille se levantou, sorrindo ainda mais intensamente que antes, antes de falar:
- Então o que você acha dessa aposta? Eu, Rainha e Comandante Absoluta das Cinco Cortes do Povo, prometo apoiar com todos os recursos possíveis o ataque ao continente de Toc, inclusive dando de presente para as princesas sete Tiaras Encantadas que irei abençoar com as minhas próprias mãos. Desde que as sete princesas possam destruir todas as Forças das Trevas, libertando o continente de Toc e o resto do mundo da ameaçada representada por elas. Caso elas falhem nessa empreitada, todas as sete irão se tornar minhas súditas dentro do Reino das Fadas. Isso é aceitável?
Íris não hesitou.
- Sim, eu, Rainha Íris, a Magnífica, comandante de todas as terras dos humanos, concordo com os termos expostos por Camille.
E assim estava feito. As duas Rainhas chamaram seus generais e ajudantes para ajudar no planejamento para a invasão conjunta. E durante todos os procedimentos, Camille riu silenciosamente, crente que tinha conseguido enganar a humana. A promessa tinha sido dita de tal maneira que ela se aplicava a todas as princesas humanas, incluindo as futuras, e destruir completamente as Forças das Trevas era praticamente impossível, pois alguns sempre escapavam e voltavam a reunir poder em segredo. As princesas e suas descendentes teriam que continuar lutando contra elas eternamente, ou até que falhassem.
O que ela não sabia é que a Rainha Íris tinha percebido completamente o truque colocado na promessa, e tinha aceitado apenas porque sabia que Camille não daria ajuda de outra forma. Por dentro, ela rezava que suas descendentes fossem fortes o bastante para encarar esse desafio.

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domingo, 17 de junho de 2012

Capítulo 2 - História de Laplace: Excertos Reunidos pela Ordem dos Historiadores

Havia apenas Ordem e Caos, conhecendo apenas a luta entre si, mas a incessante batalha entre aqueles dois deu origem a quatro novas entidades. Vida, Morte, Tempo e Espaço. Vida e Morte se casaram, assim como Tempo e Espaço, e a união deles deu origem as regras básicas do mundo, e junto com elas, houve a aparição dos primeiros espíritos, cujas formas ainda eram indefinidas. As quatro entidades tiveram 12 filhos no total, que ficaram conhecidos como os Deuses maiores e esses filhos foram os criadores do mundo e de todos os seus habitantes.
- Primeiro Parágrafo da Bíblia Sincretista de Alomar Konkani.

Desde o começo, não houve harmonia. O primeiro conflito deve ter surgido devido a algo pequeno, como um pedaço de fruta, mas rapidamente os seres de Laplace estavam matando uns aos outros em grandes guerras, ciclos de dor e destruição englobavam todos até o ponto em que eles se tornaram tudo o que aqueles seres conheciam.
Os deuses escolheram lados, e muitos dos deuses menores morreram naqueles conflitos, mas eventualmente, Morte decidiu que as coisas já tinham ido longe demais. Ele escolheu um daqueles seres para ser seu mensageiro.
Ninguém sabe como era o Mensageiro da Morte, mas todas as raças retratam ele como um membro da raça deles. O que é certo foi que o Mensageiro viajou por todo o mundo espalhando histórias sobre uma possibilidade, paz. Essa esperança contagiava a todos que a ouviam, e o número de seguidores do Mensageiro crescia dia após dia.
No final, ele entrou no meio do campo de uma batalha entre as três maiores facções remanescentes, as únicas que ainda estavam lutando. Ele foi ferido mortalmente naquela batalha, mas rezou por um milagre e o obteve, ele conseguiu fazer com que suas últimas palavras fossem ouvidas por todos no campo de batalha.
O último discurso dele foi a coisa mais linda que alguém já tinha ouvido, ele falou sobre amor e perdão, ele falou sobre amizade e confiança, ele falou sobre identidade e comunidade. Quando ele terminou de fazer, todos os soldados deixaram cair suas armas e começaram a chorar. E foi assim que surgiu a paz.
- Resumo dos documentos e histórias reunidas por Allison Alias, a fundadora da ordem dos historiadores.

Os Primeiros Heróis
Tipo assim, ano passado, esses "demônios"(pelo menos é assim que todo mundo está chamando eles) atacaram o nosso mundo. Felizmente, eles vieram praticamente do outro lado da parte do mundo onde eu moro, porque senão as coisas iam ficar feias, vocês sabem! E por um tempo, parecia que ninguém poderia parar eles, porque eles iam, tipo, matando todo mundo no caminho, e ninguém sabia porque. Mas então, vocês sabem o que aconteceu?
Apareceu um herói pra salvar todo mundo, e ele é tão adorável :)! Ele é um daqueles anoros, vocês sabem aqueles bichinhos bonitinhos que vivem em cavernas? O nome dele é Homero, e mal dá pra acreditar que ele consegue lutar tão bem mesmo sendo tão pequenininho.
E parece que depois de verem ele lutando, apareceram outras pessoas que queriam tentar proteger o mundo. Tem a Célia, ela é humana, e é uma menininha tão bonitinha que quase não dá pra acreditar que ela é uma maga que consegue destruir cidades inteiras em pouco tempo. Tem o Critilo, que é um gatão, ele é um elfo e é um artista marcial cheio de músculos que consegue abrir a cabeça dos demônios com as mãos. Tem a Turana, que é uma loba que trabalhava como dançarina, e parece que isso deu a ela alguns poderes estranhos. E também tem o Lumos, que é um anão que é um padre da Vida, por causa disso ele consegue curar as pessoas(Yay!) e criar zumbis(Ugh!).
Todos eles se juntaram, e foram derrotando os inimigos até chegar ao chefão, o cara, o general dos demônios! Eles derrotaram ele e o exército dos demônios recuou!
E é claro que os 5 viraram celebridades. As pessoas escrevem histórias sobre eles, existem grandes discussões sobre qual deles é o mais legal e algumas delas chegam até a brigas, e tem vários festivais onde as pessoas se vestem que nem eles.
Eles ensinaram uma lição pra todos nós, que nós temos que saber nos proteger, então tem muita gente treinando com espadas, magia e tudo mais pro caso dos demônios voltarem. E se eles voltarem, basta dizer que vão ter uma surpresinha(hehehe)...
- Postagem de Blog de Maria Levinstein, recuperada de um velho servidor.

Os demônios pararam de vir, e quem diria que isso acabaria sendo a pior coisa que poderia acontecer. Todo mundo ficava treinando, criando armas e tudo mais, só que não tinha nenhuma ameaça em que usar as armas, então eventualmente, nós começamos a usar elas contra nós mesmos.
As guerras eram praticamente ininterruptas, todo dia algumas alianças eram feitas e outras eram quebradas, ninguém sabia o que ia acontecer no dia seguinte, então todo mundo tentava reunir o máximo de poder possível enquanto estava vivo. Nós chamávamos de heróis aqueles que matavam muita gente do lado do inimigo.
De todos aqueles que comandaram exércitos, um se destacou acima de todos os outros. Ele é chamado de Imperador Celestial, pois seus seguidores acreditam que ele tenha vindo do céu. Depois de falar com ele uma vez, acredito que pelo menos parte disso seja verdade, senão como é que ele conseguiria sobreviver com todas aquelas esposas? Ele tem centenas!
Ele comandou um grupo de incríveis suditos, muitos deles se tornando esposas dele depois, ele conseguiu obter a amizade mesmo daqueles que derrotava, e era o melhor administrador possível, porque sabia deixar o trabalho para quem realmente soubesse fazê-lo, então o nível de vida das nações que ele conquistava subiam. O povo amava ele, os soldados amavam ele, de fato todo mundo amava ele.
O cara conseguiu dominar todo o mundo de Laplace, foi o primeiro que fez isso em toda a história, e ele até derrotou a maior invasão dos demônios até agora, quando eles inevitavelmente voltaram.
Eu era um cético, mas depois de tudo isso, eu acho que está tudo bem em ter esperança. Eu creio que o império dele poderá manter essa linda paz por muito tempo.
- Escritos de Alfonso Hefereto, filósofo.

A Segunda Era dos Heróis: Aconteceu pouco a pouco. Uma província entrou em guerra com outra. Um círculo de magos começou a sequestrar pessoas de uma cidade para uso em experimentos. Os monstros começaram a ficar mais e mais agressivos.
Logo, a paz tinha sido destruída, mas as coisas não eram tão ruins quanto poderiam ser, pois os heróis haviam retornado. Naquele novo mundo em que os ataques dos demônios eram raros e exércitos faziam mais mal do que bem, as pessoas começaram a depender mais e mais de guerreiros poderosos.
Todos os estilos de combate floresceram nessa época, alguns dos maiores épicos foram escritos, as civilizações avançavam e caíam ainda mais rápido do que antes.
Essa foi uma era que durou cinquenta mil anos, e as pessoas não perceberam na época, mas ela se encerrou com a primeira aparição... de Kali.

Kali Aparece: Foi um dia como qualquer outro. Numa certa vila, cujo nome foi esquecido pela história, Kali apareceu. Ela entrou andando e logo atraíu atenção. Mas a primeira pessoa a falar como ela foi incinerada viva.
O terror se instaurou, lâminas voadoras, relâmpagos, estacas de gelo. As pessoas morreram uma por uma, e a vila foi completamente destruída. Apenas dois irmãos conseguiram escapar vivos, mas isso foi provavelmente proposital, pois mais tarde os dois se tornariam os fundadores do Culto de Kali.
Obviamente, missões foram organizadas para tentar derrotá-la, mas todas falharam, caçadores de recompensa, destacamentos do exército, guardas reais...
E Kali continuava causando destruição e morte em todos os lugares por onde passava. No final, foi uma equipe de quatro aventureiros que conseguiu derrotá-la, mas a um preço alto. Nenhum deles sobreviveu a batalha.
As pessoas achavam que o terror tinha acabado, mas anos depois, Kali reapareceu. Mas as ações dela ficaram ainda mais enigmáticas. Ela não atacava tão frequentemente quanto antes, e não parecia ter nenhum padrão. As vezes ela até aparecia em cidades e simplesmente não atacava.
Isso ocorreu durante milênios, com ela sendo derrotada várias vezes durante esse tempo, e a maioria das grandes batalhas do mundo envolvia ela de alguma forma.

Os Cem Anos de Escuridão: Eventualmente, pareceu que ela tinha sido finalmente derrotada permanentemente. Kali tinha sido selada dentro de uma estátua de pedra, mas o culto dela já estava forte demais.
Eles sempre tinham causado problemas, mas o estado de seu objeto de adoração fez com que todos entrassem em uma fúria descontrolada, e foi aí que o verdadeiro terror do Culto de Kali foi conhecido.
Todos os tipos de pessoas, de todas as raças, idades, trabalhos e posições sociais subitamente começaram a destruir e matar todos os que eles podiam.
Aqueles foram tempos difíceis, as organizações eram devastadas e as pessoas mal conseguiam sobreviver, quanto mais revidar. Não houve ninguém que não perdeu algum ente querido durante esse tempo.
Por fim, tudo voltou ao normal quando Kali foi libertada de sua prisão. Ninguém sabe exatamente quem fez isso, talvez tenha sido uma equipe de aventureiros cultistas, talvez um dos próprios defensores da ordem tivesse achado que não havia outro jeito, ou talvez o poder do feitiço tivesse simplesmente acabado.
O fato era que Kali estava de volta no mundo.

A Terceira Era dos Heróis: E finalmente chegamos ao presente. Incursões de demônios, cultistas destrutivos e Kali. Os maiores problemas do mundo de Laplace. Mas o fato de que tais horrores existem significa que surgirão heróis para combatê-los. E essa história ainda está sendo escrita.

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Capítulo 1 - O Mundo de Laplace - Um Resumo

A primeira coisa que qualquer geógrafo te diria sobre o mundo de Laplace, é que ele é plano. Mas ele não é um disco horizontal que flutua no espaço ou é carregado nas costas de uma besta cósmica. Laplace se assemelha mais com uma parede, uma parede de proporções astronômicas que é transversal em relação a praticamente todos os movimentos cósmicos.
Uma parede banhada pela luz de uma estrela, e cujo ciclo de dias e noites é regulado pela lua que se move de um lado para o outro, causando eclipses em todas as partes do mundo pelas que ela passa.
Laplace tem uma grande variedade de climas, desde desertos vulcânicos onde o ar queima, até zonas glaciais de temperaturas tão severas, que a própria gravidade congela. A maior parte disso não acontece devido ao ciclo lunar, mas sim por causa de influências muito mais locais. Grandes criaturas cujas auras alteram o ambiente ao redor, ou campos eletromagnéticos criados por cidades tecnológicas.
De fato, em alguns casos, as influências sobre o clima são tão poderosas, que é possível encontrar dois biomas radicalmente diferentes lado a lado, como uma floresta pulsando de vida e uma planície estéril.
E obviamente, a grande variedade de ambientes resulta em uma variedade ainda maior de seres vivos. Não apenas as plantas, animais e fungos usuais, mas também mineirais vivos, criaturas de pura energia e seres parte animal, parte vegetal, entre outros.
Os potenciais ecossistemas onde esses seres se encaixam são inúmeros, e eles ficam ainda mais complicados devido as outras influências locais, levando a existência de situações aparentemente impossíveis, tais como um ambiente com mais predadores do que presas disponíveis.
Em consequência disso, existem diversos seres inteligentes, não apenas os normais, como humanos e anões, mas também anoros e lobos eslavos, dentre outros, assim como uma grande prevalência de híbridos.
Falando nisso, geneticistas garantem que não existe mais algo que se possa chamar de "raça pura", sendo que todos possuem genes de várias raças em seu DNA, os genes mais comuns são os humanos, e de fato, vários biólogos acreditam que a habilidade de gerar híbridos é algo que vem dos humanos.
Outros seres inteligentes notáveis são alguns grupos de espécies cujos membros normalmente não são conhecidos por viver em sociedade, como mantícoras e quimeras, e outras cujos membros normalmente não possuem inteligência o bastante para tanto, como ursos.
Em se tratando de influência no mundo, os dois grupos mais poderosos são A Irmandade da Ordem e As Crianças do Caos. Esses dois grupos seguem Ordem e Caos, os deuses supremos do mundo de Laplace, o primeiro se dedica a fomentar a construção de cidades e reinos, enquanto o segundo se dedica a fomentar a destruição deles. Esses grupos são os responsáveis pela instabilidade do mundo de Laplace.
As cidades em Laplace geralmente duram apenas algumas dezenas de anos, crescendo, se desenvolvendo e decaindo extremamente rápido. Então a imagem do mundo de Laplace não é definida por elas, mas sim pelas grandes organizações. Tais como a Anatech, a companhia de construção que praticamente controla o mundo, e o Sindicato dos Magos, uma união de todos os usuários de magia notável por sua neutralidade.
Isso não significa que não existam cidades importantes, porém. Ninguém sabe o motivo, mas algumas cidades conseguem permanecer de pé através das eras. Tais como Talifrais, a cidade dos guerreiros. E Azukidori, a cidade flutuante mercantil.
As cidades normais se desenvolvem imensamente rápido, mas elas não se desenvolvem de maneira igual. Algumas cidades se tornam metrópoles futuristícas cheias de robôs e tecnologia avançada, outras atingem seu ápice como giga-áreas urbanas com diversos submundos abaixo da superfície, ainda outras acabam parecendo com cidades grandes do mundo humano, só que contendo super-heróis e/ou outras coisas sobrenaturais, e cujo desenvolvimento está congelado por razões variadas. E essas são apenas variações baseadas em Tecnologia.
Existem também outros tipos de variações, como as baseadas em Magia, com cidades repletas de seres mágicos e com instrumentos mágicos tomando o lugar da tecnologia. Existem também as mistas, como algumas conurbações de cidades com Estilos totalmente diferentes, que podem se tornar locais de desenvolvimento de tecnologia combinada.
Voltando a falar dos submundos, existem muitos deles, mesmo que em outros lugares os habitantes desses submundos andem livremente. Existem submundos de artistas marciais, seres sobrenaturais, conspirações governamentais e muitos outros.
E em um mundo como esse, é óbvio que existiriam problemas variados, incursões de seres interdimensionais apelidados de "demônios" que são sempre derrotados mas nunca desistem é um dos problemas principais, mas nem de longe o maior. Essa honra vai para Kali.
Kali é uma maga com a aparência de uma menina humana com o rosto perpetuamente sem expressão, ela não envelhece e suas origens estão perdidas nas areias do tempo, seus objetivos são obscuros, mas destruição e terror acompanha ela onde quer que vá.
Kali foi derrotada diversas vezes por grupos de heróis poderosos, em algumas das batalhas mais titânicas da história de Laplace, mas ela sempre retorna anos depois, e vários desses grupos de heróis tiveram fins trágicos, como a morte, ou pior, passar para o lado de Kali.
Pois a mais terrível habilidade de Kali não se trata dos poderes mágicos dela, nem mesmo da imortalidade. É o carisma, a habilidade de atrair grandes quantidades de seguidores, que chamam a si próprios de Culto de Kali. Dizem que, quando Kali destrói uma cidade, das ruínas saem novos seguidores para ela.
E existem problemas menores, reis sedentos de conquista, cientistas malucos que abandonaram a moralidade em favor de suas experiências, bestas enlouquecidas...
E para lidar com esses problemas, existem os heróis. Heróis grandes e pequenos, lendários e efêmeros, heróis de todos os tipos. Aventureiros são o tipo mais comum de heróis, pois eles parecem ter uma tendência a atrair problemas, mas também existem protetores de cidades, mercenários e muitos mais.
Entre os heróis mais conhecidos estão Arthur Bellevere, o Mago das Lágrimas, e também Raro Megila, Flagelo dos Abissais. Os Madou são toda uma organização de heróis cuja missão é proteger.
E mesmo sem contar os heróis, guerreiros são extremamente necessários no mundo de Laplace. Guardas em locais de extração de minerais ameaçados por monstros, caçadores de recompensa que lidam com criminosos que a lei comum não consegue lidar, escoltas para viagens através de áreas hostis...
O resultado de tudo isso, é que Laplace é um mundo de aventuras, uma terra conhecida por seus heróis e vilões. Um mundo onde qualquer pessoa pode acabar mudando a história. Assim é Laplace.

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