terça-feira, 8 de maio de 2012

Ainda Viva

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- Isso é perigoso - disse Carlos - eu vou contar pra mamãe!
De cima da árvore, Maria disse:
- Eu só vou pegar uma goiaba e aí eu desço.
Aquela goiabeira era muito popular entre as crianças do bairro, que escalavam ela para obter as deliciosas goiabas. Mas a maioria das crianças que faziam isso tinham pelo menos doze anos, enquanto Maria tinha dez. Isso nunca tinha parado ela antes, porém.
Maria estava em um dos galhos mais altos, onde estavam as últimas goiabas restantes que não tinham sido removidas pelas outras crianças.
Carlos observava sua irmã mais velha de forma aflita, ele sempre tivera medo de altura, e não conseguia entender como ela se dispunha a subir tão alto.
A goiaba visada por Maria estava quase ao alcance, ela mantinha as duas pernas ao redor do galho, e estava se esticando em direção ao prêmio, só faltavam mais alguns centímetros...
Ela tocou a goiaba, só precisava de mais um pouco, ela retraíu a mão e se preparou para mais uma tentativa. E ela foi, esticando cada centímetro que podia, tronco, ombro, cotovelo e mão. E finalmente, ela conseguiu agarrar a goiaba.
Perfeito, agora ela só precisava tirar a goiaba de lá, ela dobrou o cotovelo, puxando, a goiaba saíu... e ela perdeu o equilíbrio, seu corpo inclinou-se para baixo, mas então ela apertou as pernas com mais força no galho onde estava, e conseguiu manter-se lá.
Isso tinha sido perigoso, ela reequilibrou o corpo com o braço livre
crek
Quebrou caindo o chão chegando
thump
Carlos saíu correndo, a irmã dele tinha caído da árvore, e estava sangrando, ele tinha que chamar a mãe.
...
Uuuuughhh
Maria abriu os olhos, a cabeça dela estava doendo muito, ela colocou a mão na testa, sangue, Maria começou a chorar, o que tinha acontecido...? Ela viu o galho ao lado dela, parecia que ele tinha quebrado. Maria tentou se levantar, os joelhos e mãos estavam ralados, mas não era nada comparado a dor de cabeça que ela estava sentindo.
Ela colocou a mão na testa e depois a olhou, ela estava cheia de sangue. Maria começou a chorar:
- Mamãe...! Eu estou sangrando...! Alguém...!?
Felizmente, nesse momento Carlos chegou, tendo trazido a mãe deles.
- Mamãe!!
- Maria!
A mãe correu ao ver a filha sangrando, ela abraçou Maria.
- Como você está?
- Está... doendo...
- Olhe esse dedo.
A mãe colocou um dedo indicador na frente da filha e moveu ele de um lado para o outro. Maria seguiu o movimento do dedo.
- Vamos pra casa - a mãe decidiu, ela tinha sido uma enfermeira, e sabia que as coisas não deviam ser tão ruins quanto pareciam se a filha ainda conseguia falar e estava coerente.
As horas seguintes passaram como um sonho para Maria, ela foi levada para o carro nos braços da mãe e o irmão limpou a testa dela com guardanapos enquanto eles dirigiam de volta pra casa.
Quando Maria voltou a si, ela estava deitada em sua cama, mas havia um problema, ela não conseguia se mexer. Ela tentou de todas as formas, mas seus músculos não se moviam nem um pouco. Ela tentou gritar, mas a boca não abria. Lutando desesperadamente, ela caíu no sono de novo.
Acordando, ela tentou imediatamente se mover, e conseguiu. O alívio dela foi indescritível, o que quer que tivesse acontecido, já tinha passado. Maria levou a mão a testa, e viu que ela estava coberta com bandagens, a dor também tinha desaparecido, então Maria decidiu se levantar.
Ela se desequilibrou um pouco depois de colocar os pés no chão, mas logo conseguiu se recuperar, então foi procurar pela mãe.
Ela estava na cozinha, e sorriu assim que viu a filha.
- Como você está se sentindo?
- A dor passou.
A mãe assentiu e então perguntou a filha:
- Está com fome?
Maria se surpreendeu dizendo que não.
A mãe insistiu que ela comesse, e Maria percebeu que sua boca estava um pouco seca. O resto do dia transcorreu sem grandes eventos, apesar de que as moscas pareciam estar atormentando mais do que o usual, mas era um dia úmido, então isso não era tão incomum.
No dia seguinte, Maria foi para a escola, onde os colegas queriam saber tudo sobre a queda dela, e Maria falou sobre o galho quebrando e até mostrou o ferimento embaixo das bandagens. O sangramento tinha parado, então todos puderam ver que era realmente um ferimento feio, que se assemelhava a uma boca deformada aberta, nenhuma das crianças quis que ela mostrasse de novo.
- E as suas pernas ficaram vermelhas? - perguntou um deles.
- O quê? - Maria não sabia do que ele estava falando.
- As suas pernas estão vermelhas.
Maria olhou, e realmente as pernas dela tinha ficado avermelhadas, ela falou que isso só tinha aparecido naquele dia, mas ela não estava sentindo dor, as pernas só pareciam estar um pouco mais pesadas.
A semana passou, e Maria continuava indo para a escola normalmente, ela viu que as unhas estavam grandes e então decidiu cortá-las.
Depois disso, ela resolveu que o ferimento já deveria estar cicatrizado, então tirou as bandagens para ver, e para sua surpresa, descobriu que o ferimento ainda não mostrava sinais de se fechar, quanto mais cicatrizar, mas para não preocupar a mãe, Maria decidiu simplesmente colocar novas bandagens no lugar.
Mais tarde naquele dia, quando estava sozinha em casa, Maria começou a sentir uma terrível dor de barriga, ela foi para o banheiro mas nada saía, não importando o quão forte ela empurrasse, eventualmente, Maria sentiu uma dor terrível, como se algo dentro dela estivesse se rompendo, o grito dela teria alertado quem quer que estivesse em casa.
Felizmente, depois daquilo, a dor passou, e Maria decidiu que era melhor não falar com a mãe a respeito disso.
Maria continuava cortando as unhas, mas começou a notar algo estranho, parecia que os dedos dela estavam diminuindo, e além disso, eles pareciam estar inchando, mas depois ela percebeu que todo o corpo dela estava inchando, como se ela fosse um balão. Ela também tinha trocado as bandagens da testa por uma faixa, para não preocupar a mãe.
A cor da pele dela estava lentamente mudando, tanto que nem a mãe, nem os colegas e nem ela própria tinham percebido, mas um colega que estava voltando de viagem e não tinha visto ela em algumas semanas percebeu isso, mas no momento Maria tinha outras coisas com o que se preocupar.
Ela estava começando a sentir muita dor em todas as partes do corpo, e percebeu que isso era por causa do ar que estava inflando ela. Fora isso, Maria também tinha começado a perceber uma coceira pequena mas que parecia invencível, pois não desaparecia quando ela coçava, quase como se estivesse vindo de baixo da pele.
Mas é claro, a dor era uma preocupação bem maior, e Maria decidiu que se havia alguma coisa dentro dela, ela só precisava deixar sair.
Maria sabia o que tinha que fazer, ela não queria fazer, mas a dor estava ficando insuportável. Ela esperou até que estivesse sozinha em casa, pegou uma faca na cozinha, levantou a manga... e enfiou a faca no braço esquerdo, perto do ombro.
A dor foi grande, mas Maria não teve muito tempo para se concentrar nisso, pois o ar realmente começou a sair com um assobio tenebroso, e foi aí que ela percebeu que não era ar comum.
O cheiro era horrível, era mil vezes pior do que o cheiro de cocô, mil vezes pior do que o cheiro de esgoto, mil vezes pior do que ambos combinados, era um cheiro pior do que qualquer coisa que ela já tivesse sentido. E Maria não podia escapar, pois o cheiro estava saindo dela.
Ela correu para fora, para não empestear a casa, como a mãe dela dizia, e ficou esperando no meio das árvores até tudo sair. E quando acabou, mnilagrosamente a dor tinha passado, mas nem tudo eram notícias boas.
Maria percebeu que, apesar de ter cortado o braço, nenhum sangue estava saindo. Lembrando do que falaram sobre o sangue na escola, ela colocou a mão para checar as batidas do coração.
Mas não importando o quanto ela ouvisse, não havia batida nenhuma. O coração dela estava parado.
- Mas, mas eu ainda estou viva! - ela gritou, para ninguém em particular.
De algum modo, os dias seguintes conseguiram ser ainda piores, a dor de antes tinha desaparecido, mas agora um outra dor tomava o lugar dela, uma dor que ardia por dentro, mas isso não era nem de longe a pior parte. Não, a pior parte era a coceira.
Aquela coceira de antes tinha ficado um milhão de vezes pior, e agora ela estava certa de que realmente era alguma coisa rastejando dentro dela, em uma aula, ela precisou sair mais cedo porque a coceira a estava deixando louca.
Dizer que Maria tomou uma decisão nesse ponto seria superestimá-la, aquela coceira tinha ficado tão ruim que a menina estava reduzida a agir por instinto. A coceira tinha se multiplicado e agora Maria estava convencida de que haviam muitas coisas rastejando embaixo da pele dela.
Então foi por puro instinto que Maria pegou a faca novamente e enfiou ela na própria barriga, a dor foi grande, mas a coceira era muito pior, então ela continuou cortando e cortando.
Assim que abriu um buraco de tamanho suficiente, Maria enfiou a mão dentro da própria barriga, tentando pegar as coisas que estavam dentro dela.
Ela teve sucesso, agarrando alguma coisa viscosa e gosmenta, Maria arrancou ela de dentro de si, ignorando completamente o fato de que pedaços de suas entranhas estavam caindo no chão.
Ela olhou aquilo que tinha na mão, era um verme, uma lesma, uma coisa nojenta que não deveria ver a luz do dia, e não estava inteira, parte dela tinha se rompido, e Maria conseguia sentir que o resto dele ainda estava se movendo dentro dela.
- AAAAAARRRRRRRGHHHHHHHHHHHH!!!!
Maria entrou num frenesi, a maioria das pessoas ficaria com medo ao ver aquele verme, ou ficaria com medo de continuar sentindo dor, mas Maria só conseguia pensar em tirar todas aquelas coisas de dentro dela. Ela enfiou a mão para arrancar o resto do verme, junto com um bolo que um legista poderia reconhecer como pedaços do estômago e instestinos, e vendo que a coceira naquela parte tinha parado, voltou-se a cortar cada um dos pedaços onde podia sentir vermes, ela pegou eles, um por vez.
Quando o espetáculo terrível estava terminado, ela voltou a si, e percebeu o que tinha feito, olhando com horror os múltiplos buracos que havia cravado na própria carne.
Ela voltou pra casa, se atirou na cama e cobriu-se com os cobertores.
No dia seguinte Maria se levantou, ela tinha que ir pra escola, então ela pegou uma calça e uma camisa de mangas longas, e um cachecol pra usar, e saíu correndo antes que alguém perguntasse o que ela estava fazendo com aquilo no meio do verão.
A aula foi terrível, Maria percebeu que todo mundo estava olhando pra ela e se perguntando a razão dela estar usando aquilo, mas aquele era só o começo dos problemas. O cheiro tinha voltado.
Ele se espalhou pela sala e todos começaram a gritar sobre aquele cheiro horrível e correram para fora da sala, mas não adiantou, o cheiro ainda estava saindo de Maria, e todos logo perceberam isso.
- Maria, você tem um animal morto com você!? - a professora perguntou.
- Não professora, não é - ela tentou explicar, mas nesse momento, um dos garotos puxou o cachecol dela, tirando ele e revelando o imenso buraco que ela tinha no pescoço.
- AAAAAAAAAHHHHHHHHHHH! - foi o grito agudo da professora.
- Monstro! - alguma outra pessoa gritou.
Maria não tinha outra escolha, ela saíu correndo.
A professora ainda estava em choque devido ao que tinha visto, mas as crianças sabiam o que fazer, elas começaram a correr atrás do monstro, pegando pedras e atirando elas.
Maria correu com tudo o que pode, ela não estava mais preocupada com nada além de fugir, algumas pedras acertaram ela, mas Maria mal sentiu elas, ela estava desesperada.
Ela entrou na floresta, mas aquela não era uma floresta muito densa, então as crianças continuaram seguindo ela. Maria estava correndo com tudo o que tinha, mas não conseguia se afastar.
Subitamente, ela viu um rio a frente, e percebendo que as crianças estavam se aproximando, decidiu imediatamente saltar para dentro dele. Ela sabia nadar, então estava confiante de que poderia escapar.
Mas ela esqueceu de considerar a força e velocidade do rio, e sem poder fazer nada, foi arrastada por aquelas águas.
...
- Sim, é ela - a mãe disse, numa voz cheia de dor que o legista conhecia tão bem.
Ele cobriu o corpo novamente enquanto a mãe saía para chorar em um lugar solitário. Ele pensou que ela não deveria ter que ver a própria filha num estado tão deplorável.
Peixes tinham comido os olhos, língua e extremidades, grande parte do rosto estava destruída por um ferimento necrótico, os músculos estavam destruídos pela decomposição e ardores do tempo no mar, buracos haviam sido abertos nos braços, pernas, barriga, peito, pescoço e vagina.
O legista colocou a mão no rosto enquanto tentava pensar em uma maneira de colocar o que tinha descoberto no relatório sem parecer maluco. A morte tinha ocorrido aproximadamente 3 meses antes, devido a um trauma severo na cabeça, o que constrastava com o fato dela ter desaparecido apenas duas semanas antes, o estado de decomposição do corpo confirmava isso, os buracos eram definitivamente pós-mortem, mas pareciam ter sido auto-inflingidos, o interior do corpo continha diversos alimentos que haviam sido mastigados normalmente, mas o estado deles mostrava que os mais recentes deviam ter sido ingeridos apenas 2 semanas antes, aproximadamente.
O legista suspirou novamente, mas então pensou ter ouvido algo, uma espécie de zumbido, vindo do corpo coberto na sua frente. Ele checou para ver se era alguma coisa no corpo, mas não vendo nada, decidiu finalizar por aquele dia e se retirar.
Se ele tivesse entendido o que aquele zumbido significava, o que ele teria ouvido era... Eu ainda estou viva.

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