sexta-feira, 15 de novembro de 2013

Natália Nocte e a Academia Arcádia: Capítulo 2 - A Academia Arcádia

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Natália desceu até o salão de entrada, onde a família dela estava esperando. Depois de umas últimas despedidas(Satoshi disse pra ela mostrar a eles do que ela era feita, mas não especificou quem seriam "eles"), Natália saiu de casa e foi andando para o banco, que era o lugar mais próximo onde ela poderia pegar um táxi.
Natália tinha insistido em fazer isso sozinha, desde a saída de casa até a chegada em Arcádia, e eles não puderam dizer não pra ela.
Não ocorreu nenhum incidente durante a viagem, incluindo a ida de táxi até o aeroporto, e depois de mostrar a minha passagem comprada anteriormente, eu embarquei no avião sem problemas.
Nessa hora ela se lembrou de uma coisa que o pai dela tinha dito "Depois da primeira hora do voo, olhe pela janela, você não vai se arrepender". Então ela marcou o horário que o avião decolou antes de pegar sua mala e tirar dela seu livro de artoniano.
Artoniano era a língua falada na ilha de Arton, onde ficava a Academia Arcádia, e como ela recebia estudantes de todas as partes do mundo, um dos pré-requisitos para ser aceito em Arcádia era aprender artoniano, e dessa maneira todos os estudantes e professores poderiam se entender. Havia até uma versão do artoniano baseada em cliques, ou batidas no chão, que era usada por aqueles que eram incapazes de produzir os sons da língua normal.
Natália passou o tempo revisando o artoniano pela última vez, e rapidamente a hora que ela devia esperar passou. Ela guardei o livro e olhou pela janela.
Por alguns minutos, nada aconteceu. E nada continuou acontecendo pelos minutos seguintes, até que Natália começou a se perguntar se ela tinha entendido o meu pai errado, mas eventualmente ela começou a ouvir um som diferente de tudo o mais que ela tinha ouvido na vida.
Parecia uma canção, uma canção de uma única nota que subia e descia sem jamais se perder. Uma nota impossivelmente longa que parecia se estender até o infinito.
E lentamente, o autor daquela nota surgiu do centro das nuvens. Era uma serpente, imensa a ponto de seus limites se perderem no horizonte. Colorida de um verde-claro tão leve, que era quase possível ver através dela. Seus olhos não eram olhos, mas simples pontos pretos de propósito desconhecido. Sua boca não tinha dentes, assemelhando-se mais com uma atemporal fenda nas rochas de uma montanha ancestral.
Finalmente, o corpo dela parecia ser um sólido transformado em ar, uma coisa que não parecia pertencer a realidade. E era frágil. como uma folha de papel carregada pelo vento de um furacão.
Natália percebeu imediatamente o que era aquele ser. Era uma besta atmosférica, criaturas tão elusivas que desafiavam o estudo. Que tinham sido avistadas pouquíssimas vezes, e quase nunca por pessoas que as buscavam.
Quase nada era conhecido sobre elas, exceto que viviam nas camadas mais elevadas da atmosfera, e por vezes desciam por razões desconhecidas.
Natália observou enquanto ela nadava pelo ar com movimentos belos e majestosos, apesar de serem inegavelmente estranhos, como saltos distorcidos que não obedeciam a qualquer padrão.
E tão rapidamente quanto tinha aparecido, a besta se foi. Subindo de volta ao mundo das nuvens, um mundo tão alienígena quanto as profundezas do mar. E depois que o corpo tinha desaparecido, a canção ainda restou por mais alguns segundos, última lembrança de que qualquer coisa tinha ocorrido.
E então restou apenas silêncio.
Natália olhou para o resto da cabine do avião, percebendo que ela não tinha sido a única que percebera o que tinha ocorrido. Só naquele momento ela se convenceu de que aquilo não tinha sido um sonho.
Natália caiu no sono em algum momento, e a próxima coisa que ela ouviu foi a voz do piloto avisando que eles estávamos se aproximando do aeroporto.
Ela desceu do avião carregando sua mala, e acompanhou a multidão que ia para a parada de ônibus. Eles não tiveram que esperar muito, e logo ela estava fazendo a última viagem em direção a academia.
Natália já tinha visto fotos da Academia Arcádia, mas mesmo assim ela quase não acreditou no que estava vendo quando o ônibus terminou de subir o monte mais alto da ilha, e os passageiros puderam ver o terreno onde ficava a academia.
Só tem uma forma de descrever aquele território. Uma colcha de retalhos colossal que não poderia ter sido criada pela natureza. Geleiras se encontravam com desertos que se encontravam com florestas, pedaços de áreas de diversos tamanhos e formas se espalhavam pelo território caoticamente. E no centro de tudo isso estava a escola, que Natália não estava perto o bastante para conseguir enxergar os detalhes, mas parecia ser diferente de qualquer outro prédio que ela já tivesse visto, apenas pela forma básica.
O ônibus chegou mais perto, e Natália lentamente foi capaz de distinguir mais detalhes daquela... construção, que é a única palavra remotamente adequada para aquela escola.
Ela viu torres em estilo barroco, sólidas em sua colocação. Ela viu esferas prateadas parecendo flutuar ao redor da massa principal, quando de fato estavam conectadas por fios quase invisíveis. Ela viu paredes que pareciam ser feitas de carne, e no meio delas algo que ela poderia jurar que era um olho. Ela viu pontes suspensas constituídas por plantas, pontes grandes o bastante para sustentar gigantes. Ela viu rios de água cristalina correndo livres pelo ar, e viu coisas nadando por aqueles rios.
Ela via cada vez mais coisas impressionantes a cada momento, esculturas de cristal ambulantes, dragões empoleirados em arcos de gelo, gotas de água douradas escorrendo de teias colossais e sendo apanhadas por robôs morcegos. E logo ela percebeu que sempre haviam mais coisas para se ver.
Enquanto ela estava tentando processar tudo aquilo que ela estava vendo, o ônibus entrou num caminho que se elevava acima do nível do chão, olhando para o caminho correspondente do outro lado, ela vi que ele estava suspenso por correntes feitas de ossos, milhões de ossos fundidos e esculpidos com habilidade sobrenatural. O caminho fez um C, afastando-se da escola antes de voltar a se aproximar dela, e ela logo percebeu a razão deles precisarem entrar naquele caminho suspenso.
Os portões principais eram imensos, a escala deles era completamente diferente, eles estavam abertos, e Natália conseguia ver que haviam gigantes passando por eles, mas os próprios gigantes pareciam pequenos em comparação com os portões.
O arco dos portões percorria uma área tão grande, que ele estava conectado aos mais diversos materiais do resto do prédio, estava conectado a uma rocha que brilhava como diamantes, com o que parecia ser cascas de árvore, com uma teia de fios mecânicos, com um metal que escorria como líquido, subindo e descendo em sentido antihorário, formando a figura de um O. E isso era apenas o começo.
O portão em si também atraíu a atenção de Natália, o material de que ele era feito parecia ser uma combinação de madeira e ouro, e haviam detalhes que ela estava longe demais para distinguir. Percebendo que o ônibus não chegaria mais perto, ela respirou fundo e recitou "Azath, Kazath, Nazath", e a visão dela se aguçou, permitindo que ela enxergasse os detalhes dos portóes.
Era como Natália esperava, os detalhes dos portões eram um microcosmo da escola inteira, sendo feitos de uma conjunção de todos os tipos de materiais diferentes. Naturais e sobrenaturais, simples e complexos, estáticos e móveis. Satisfeita, ela desfiz seu feitiço e piscou os olhos várias vezes ao sentir a ardência esperada neles. Ela se aconchegou no banco e esperou o ônibus terminar de fazer a curva e finalmente chegar na sua parada.
Natália desceu, junto com os outros passageiros do ônibus, e passou pelo arco de entrada lateral decididamente. Ela andou pelos corredores, percebendo que o estilo de arquitetura do interior da escola era o mesmo do exterior, a consistência do chão se confundia entre terra batida, cerâmica e outros materiais. A mesma pluralidade se verificava nas paredes e no teto alto. Um rio corria no lado direito dela, e na sua esquerda havia um caminho constituído por placas metálicas finíssimas, que estava acima do chão mas abaixo do teto. Finalmente, na parede do lado esquerdo, alunos andavam normalmente, como se a gravidade daquela área fosse diferente. Ela foi lá testar e descobriu que podia fazer a mesma coisa, então aquilo não era uma habilidade especial daqueles alunos.
Por falar em alunos, eles eram a coisa em que Natália estava prestando mais atenção, pois a variedade deles era ainda maior do que a diversidade do cenário. Alguns alunos andavam como ela, outros nadavam pelo rio em diversas velocidades, outros pulavam entre as árvores que estavam espalhadas pelo terreno, e ainda outros simplesmente voavam, com asas ou não.
Alguns alunos eram pequenos, como fadas em que Natália poderia pisar, e outros eram grandes, como um golem de pedra que precisava se manter abaixado para não bater com a cabeça no teto. Alguns usavam roupas como as de Natália, outros tinham trajes em um número diverso de estilos e formas, e ainda outros eram cobertos apenas por seu pelo, pele ou cobertura metálica.
Subitamente, Natália se lembrei de olhar as horas. Ainda havia algum tempo antes da cerimônia de abertura, mas ela queria desfazer as malas e talvez conhecer sua futura colega de quarto, então ela seguiu as placas e atravessou os corredores, para chegar em sua seção de dormitórios.
Natália subiu uma escada em espiral e passou por mais algumas portas antes de chegar em seu quarto. Ela bateu na porta e uma voz lá dentro disse que ela podia entrar. Então a colega de quarto já tinha chegado, Natália respirou fundo e entrou.
Ela olhei para a garota que estava lá dentro. Ela era uma humana como Natália, ou pelo menos parecida o bastante. Os cabelos dela eram de um loiro escuro e os olhos eram verdes. Ela estava usando um short que ia até a metade das coxas e uma camisa sem mangas. Ela também não estava usando sapatos. Isso permitiu que Natália visse que o corpo dela estava repleto de marcas multicoloridas, incluindo o rosto dela. Natália já tinha visto marcas como aquela em algum lugar... em suma, a garota era bonita.
- Olá - Natália falei em artoniano, tentando ser amigável.
- Olá - ela respondeu, fazendo um pequeno aceno e indo na direção de Natália - parece que nós somos colegas de quarto.
- É, parece - Natália falou, grata por estar entendendo a garota bem, apesar do sotaque dela.
- Eu me chamo Rinata Alveia - ela disse, estendendo a mão - venho da terra de São Lourenço.
Natália apertei a mão dela - Eu me chamo Natália Nocte. Venho da terra de Yuden - ela terminou, e esperei pela reação da outra garota.
Natália viu a compreensão se formar nos olhos de Rinata.
- Quer dizer.. - ela começou - da família Nocte?
Natália se preparou mentalmente e falou - Sim.
- Que incrível! - ela falou, com uma animação evidente - você é a filha da Bianca Nocte?
- Isso mesmo.
A animação dela aumentou ainda mais - Sua mãe é a minha ídola!
- Mesmo? Quer dizer que você também usa magia das histórias?
- Não. Eu uso magia da manipulação. Mas eu sempre quis me tornar uma maga de combate, desde que vi um vídeo da sua mãe ganhando o torneio Atlamontei.
- Ah, eu entendo - Natália percebeu uma brecha na conversa, e decidiu agir - mas você poderia me fazer um favor?
- Que tipo de favor? - ela perguntou.
- Poderia manter segredo sobre quem eu sou? Eu não quero receber atenção demais, entende?
- Pelo que eu ouvi dizer, você não é a única pessoa de uma família famosa por aqui, mas tudo bem, se você quer isso, eu prometo que não irei revelar o seu segredo, ou todo o azar do mundo cairá sobre mim.
Natália relaxou, parecia que tudo ia ficar bem - Essa é uma promessa ao estilo São Lourenço? - ela perguntei.
- Exatamente. Como vocês fazem em Yuden?
- Nós dizemos "Se quebrar essa promessa, engolirei mil agulhas!".
- Agh - ela disse - mas voltando ao assunto, quer dizer que você veio aqui pra estudar magia das histórias?
- Na verdade não - Natália baixei os olhos - mamãe tentou me ensinar, mas eu não consegui aprender.
- Oh - ela parou por um instante quase imperceptível - então que matérias você pegou?
Natália colocou a mão em sua mala, puxou a folha de seu horário de aula e entregou para ela.
- Vamos ver - ela começou - "História do Século 20", segunda e sexta 08:00. "Conceitos Básicos da Iniciação em Magia", segunda e quarta 10:00. Legal, é a mesma classe que eu. "Introdução a Teoria da Magia", segunda e quarta 14:00. Eu prefiro as aulas mais práticas. "Artefatos Mágicos: História e Treinamento", segunda e quinta 16:00. Podia ter entrado nessa aula, mas não consegui encontrar um horário bom. "Psiônicos: Talentos Práticos", segunda e quarta 23:00. "Russo 1", terça e quinta 08:00. Aprender uma língua só foi o bastante pra mim. "Entendendo a Nova Tecnologia", terça e quinta 10:00. Eu já estou feliz com a tecnologia normal. "Culinária 1", terça e quinta 14:00. Eles tem uma aula de culinária?! Por que ninguém me avisou? "Introdução a Ambientes e Seres Fantásticos", terça e quarta 16:00. Outra aula junto com você. "Combate a Curta Distância: Nível Básico", quarta e sábado 08:00. E uma terceira matéria juntas - ela coçou a cabeça - espera aí, tem algo estranho.
Ela devolveu a folha pra Natália, e foi na mesa pegar a folha de horários dela. Ela entregou a folha para a recém-chegada e falou - Compara.
Natália olhou a folha de horários dela, além das aulas que elas duas tínham, ela também tinha aulas de "Magia da Manipulação: Nível Básico", "Aplicando a Magia em um Contexto de Combate", "Cálculo 1", e duas instâncias de "Prática de Magia". Natália não precisou olhar por muito tempo para perceber o que ela tinha achado estranho. Com exceção do fato dela não ter aula ás 23:00, os horários de descanso dela eram exatamente iguais aos de Natália.
- É estranho mesmo - ela concordou - mas acho que eu sei o que houve.
- Sério?
- Sim. Acho que as disposições dos quartos são decididas com base nos horários dos alunos.
Rinata pegou o horário de volta - Sim, você deve ter razão. Mais uma coisa pra pilha de "Bizarrices Dessa Escola". Você tem alguma teoria sobre a razão deles misturarem tantos materiais diferentes nessa construção?
- Na verdade - Natália começou - minha mãe me explicou sobre isso.
- Oh? - ela pareceu mais interessada - essa eu quero ouvir.
- Basicamente, tempos atrás, as pessoas começaram a notar que shopping centers tinham algumas propriedades estranhas. Como por exemplo, o fato de que criaturas do povo das fadas podem entrar neles sem precisar de convite.
- Eu já ouvi falar disso.
- Realmente. E como a magia dos territórios ensina, cada lugar tem suas próprias regras, então eles descobriram que, como os shopping centers tinham coisas de muitos lugares diferentes, como lojas de franquias de diferentes países, as regras deles ficavam confusas. O termo de não-lugar foi criado para designar eles.
Rinata estava ouvindo atentamente, e Natália viu quando ela entendeu o que a outra estava querendo explicar. Ela continuei só pra esclarecer.
- Então quando essa academia foi fundada, 20 anos atrás, a diretora, que é uma especialista em magia do território, projetou a escola para ser o maior não-lugar possível, assim ela mesma poderia definir quais seriam as leis do território. Um exemplo é que os vampiros são imunes a luz do sol aqui.
Rinata piscou os olhos.
- Eu entendo... mas acho que vou deixar essa informação na pilha de "Bizarrices Dessa Escola".
- Concordo - Natália percebeu que ainda estava segurando a mala - pode me ajudar a desfazer isso?
Ela finalmente olhou direito para o quarto. E ele era surpreendentemente normal. De fato, depois de tudo o que Natália tinha visto até aquele ponto, aquela normalidade chegava até a ser agressiva. A única coisa interessante era que haviam pequenas diferenças entre o lado do quarto de Natália e o de Rinata. A cor das paredes de Natália era azul marinho, e as de Rinata eram verde-escuras. Natália tinha uma cama com colchão, Rinata tinha um colchão sem uma cama. Natália tinha um criado mudo, Rinata tinha uma simples mesa de quatro pernas.
- Claro - Rinata respondeu. E com a ajuda dela, Natália conseguiu arrumar tudo em pouco tempo.
Ela olhou para o relógio.
- Está quase na hora da cerimônia de entrada.
Rinata olhou pra ela e falou:
- Venha comigo, eu vim mais cedo e explorei um pouco, eu conheço um atalho.
E sem esperar resposta, Rinata saiu correndo do quarto.
Alarmada, Natália saiu o mais rápido possível, trancando a porta atrás dela, e se apressou para tentar alcançá-la. Rinata corria rápido, e Natália teve que se esforçar, mas ela ainda conseguiu perceber que ninguém estava olhando para elas. O povo dessa escola devia estar acostumado a coisas bem mais estranhas.
Elas subiram por uma escada de corda e depois atravessaram uma ponte estreita que passava do lado de uma cachoeira. Natália não olhou muito bem para os lugares por onde elas passaram, pois estava com muita pressa na hora.
Finalmente elas chegaram num lugar que tinha duas fileiras de cadeiras diante de um quadro-negro. Em cima do quadro-negro estava uma contagem regressiva que estava nos últimos segundos, a maioria das cadeiras estavam ocupadas.
- Chegamos a tempo! - Rinata comemorou, sentando em uma das cadeiras.
Natália sentei na cadeira ao lado dela, sem saber o que exatamente estava acontecendo ali. Ela não precisei esperar muito para descobrir, pois quando a contagem chegou a zero, as cadeiras subitamente manifestaram barras de segurança, como as de uma montanha-russa, e o quadro-negro deslizou para o lado, revelando uma passagem escura.
O chão embaixo das cadeiras começou a se mover, avançando para dentro da passagem e carregando as cadeiras junto.
- Ah, é um transpo-
O chão acelerou subitamente.
- OOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOORTEEEEE! - a surpresa fez Natália gritar.
A comparação com uma montanha-russa mostrou ser extremamente apta, especialmente quando o transporte saíu de dentro do túnel e ela pode ver que ele estava andando em um único cabo fino, que não parecia ter qualquer sustentação adicional. Isso também permitiu que Natália visse vários outros lugares da academia que ela ainda não tinha visto. Como quando elas passaram no meio de teias de aranha gigantes, e também quando passaram ao lado de árvores gigantes, e também quando passaram acima de uma pista de corrida... de tamanho normal. Nem tudo podia ser gigante, pelo que parecia.
Elas pararam perto de um corredor suspenso, onde várias pessoas estavam entrando. E olhando para as placas, Natália percebeu que aquele corredor era uma das conexões com a Esfera de Cristal, que era o lugar onde a cerimônia de abertura seria realizada.
Ela desci do banco, tentando fazer suas pernas pararem de tremer, o que levou alguns segundos. Então as duas entraram no corredor, junto com todos os outros alunos que estavam indo para a cerimônia de entrada.
Não era um corredor especialmente longo, e quando elas chegaram chegamos no final, a escola surpreendeu Natália mais uma vez. O nome de Esfera de Cristal era tecnicamente correto, mas ele realmente subestimava a escala daquela maravilha.
Para começar, cada uma das mesas onde os alunos estavam sentados estava pousada em uma plataforma circular, e estavam conectadas por duas coisas, largos corredores suspensos no ar e escadarias também suspensas no ar que conectavam os andares superiores e inferiores. Não havia qualquer tipo de coluna de sustentação abaixo dessas plataformas e corredores, o que parecia ser um tema para essa escola, mas haviam tantos desses corredores em todos os andares que essas colunas precisariam atravessar vários deles para chegar ao chão.
Isso não quer dizer que houvesse pouco espaço vazio, pois havia o bastante para ver desde as pessoas que estavam no fundo até aquelas que estavam no topo, olhando pelos espaços entre os corredores.
A próxima coisa que saltava aos olhos era a simples escala daquela construção. Elas estavam em um dos andares médios, e podiam perceber que as escadas e corredores ficavam cada vez menores conforme a altura subia, e vice-versa. Natália viu vários andares que tinham proporções adequadas para gigantes, então a altura daquela estrutura inteira devia ser algo de fora desse mundo. E isso fez ela pensar, pois ela não achava que a altura da escola era tão grande assim.
Isso significava que parte daquela estrutura devia estar abaixo do nível da terra, escavada em profundidades abissais, e Natália teve outro choque quando percebeu que isso queria dizer que os portões gigantes de entrada da escola não eram grandes o bastante para deixar alguns daqueles gigantes passarem, e as acomodações igualmente grandes que deviam haver no térreo provavelmente pareciam inadequadas.
E a terceira coisa que impressionou elas duas foi a aparência das estruturas, que eram feitas de cristal, assim como o nome dizia, mas eram muitos tipos de cristal. Elas viram árvores de cristal Arukanji, que passavam uma inegável sensação de vida. Elas viram cristais artificiais, sutilmente registrando informações sobre todos que passavam por eles. Elas viram cristais que pareciam ser feitos de luz, mas eram tão sólidos quanto todo o resto. Elas viram até cristais líquidos, onde alguns seres aquáticos nadavam. E elas viram muitos outros tipos de cristal, formando a esfera na qual todos estavam reunidos, formando os corredores e escadas, formando as mesas e cadeiras.
- Isso é... incrível... - Rinata falou.
- É... eu concordo.
Elas não falaram mais nada enquanto andaram até a mesa mais próxima e sentaram nas cadeiras. Elas eram confortáveis, com uma consistência macia, mas diferente daquela de bancos normais.
Natália aproveitou o tempo antes da cerimônia começar para observar os alunos que ela podia ver daquela posição, enquanto Rinata parecia estar tentando tocar uma das sinfonias de Marx com a batida dos dedos na mesa. E haviam todos os tipos de alunos imagináveis. Natália viu um estudante humanoide formado por milhares de abelhas. Ela viu um aluno que parecia ser um monte de areia que circulava entre várias formas diferentes constantemente. Ela viu um ovo do tamanho de uma pessoa e que tinha braços e pernas. E esses foram apenas os que mais chamaram a atenção dela.
Haviam incontáveis outros, incluindo muitos que Natália não conseguia nem imaginar o que eram, mas Elidee provavelmente poderia explicar pra ela tudo a respeito deles.
Mas subitamente, algo chamou a atenção dela. Por algum motivo, seus olhos foram atraídos para um conjunto de plataformas no centro absoluto da esfera, levemente separadas de todas as outras.
Pelo canto do olho ela viu que todos os outros alunos ao meu redor também estavam olhando para a mesma direção, levando-a a pensar que a atração de sua atenção não devia ser coincidência.
Aqueles deviam ser os professores, mas eles estavam longe demais para Natália conseguir distingui-los. Relutantemente, ela murmurou as palavras mágicas de novo "Azath, Kazath, Nazath". E sua minha visão aumentou.
Ela viu que haviam centenas de professores, o que não era surpreendente, considerando a quantidade de alunos, e eles eram tão diversificados quanto os alunos. A atenção dela foi atraída para dois professores que estavam lado a lado. Um deles parecia ser um humano, mas tinha as partes que ela podia ver do corpo dele quase completamente cobertas por diversas pequenas marcas de várias formas, incluindo uma estrela amarela no meio da testa. Natália pensou em sua irmã Elidee e imaginou o que aquele professor ensinaria. O outro era um centauro de cabelos loiros que estava usando vários braceletes dourados e um olho de vidro.
Ela ia continuar olhando para os professores quando Rinata chamou sua atenção.
- Isso é magia pura, não é? - ela perguntou.
Natália desfez a magia antes de olhar para ela, e apertou os olhos para lidar com a dor.
- Isso mesmo - ela respondi - você percebeu?
- Sim, eu sou uma praticante, eu consigo perceber essas coisas se estou prestando atenção.
- Eu só consegui aprender dois feitiços de magia pura, estava esperando poder aprender alguns outros, e descobrir se eu quero seguir alguma das escolas de magia, ou se eu quero ir por outro caminho.
- Ah - a compreensão passou pelos olhos dela - então é por isso que você tem tantas coisas diferentes no seu horário de aulas.
Antes que Natália pudesse assentir, uma voz ressoou por toda a esfera, de uma forma que apenas magia seria capaz de fazer. Ou centenas de alto-falantes cuidadosamente posicionados e calibrados, mas seria mais fácil usar magia.
- Bem-vindos - era uma voz masculina - Sua diretora não pode chegar a tempo, então eu farei as apresentações - milhares de sussurros começaram após essas palavras.
- Para os alunos que estão começando esse ano, espero que vocês gostem da academia. Para aqueles que estão voltando, seu retorno é apreciado.
- Nossa escola tem uma tradição a zelar, nós treinamos nossos alunos para lidar com o mundo, e desenvolver suas habilidades. Nosso maior orgulho é o seu avanço, e nós também aprendemos com vocês.
- Pois foi para isso que essa academia foi criada, para ensinar e aprender.
Ocorreu um momento de silêncio antes dos alunos perceberem que o discurso tinha terminado. E então a resposta foi uma ovação tremenda, e depois o ruído de milhões de passos enquanto os alunos se levantavam e saíam.
Natália conversava com Rinata enquanto elas estavam andando:
- Eu achei que o discurso fosse ser maior - ela disse.
- É, eu também - Natália parou por um momento - quer comer alguma coisa?
Ela pensou - Não, estou sem fome. Mas acho que quero beber alguma coisa.
Natália teve uma ideia - Nesse caso, eu tenho a coisa perfeita.
- O quê?
- Vamos voltar para o quarto que eu te mostro.
E elas andaram de volta para os dormitórios, dessa vez seguindo pelo caminho mais longo, e passando por mais cenários que nenhuma delas tinha visto antes. Incluindo uma ponte no formato de um garfo gigante. Não, nenhuma delas entendeu a razão disso.
Quando elas chegaram no quarto, Natália olhou em sua mala, e encontrou vários pacotes de chá lá dentro. Assim como um mini-fogão e um pote de metal cheio de água. Ela aqueceu a água no fogão, enquanto se explicava para Rinata:
- Minha irmã Elidee adora chá, então ela coloca chá nas minhas coisas sempre que tem uma oportunidade. Por causa disso eu desenvolvi um gosto por chá.
- Certo, mas onde nós vamos colocar o chá?
Natália colocou a mão na mala e tirou um pacote com seis xícaras.
- Ela pensa em tudo - falou.
Depois de Natália terminar de preparar o chá, elas duas beberam enquanto conversavam sobre o que elas tinham visto. Natália ouviu muito sobre os caminhos da escola, enquanto Rinata ouviu sobre os muitos materiais usados na construção e detalhes sobre alguns dos outros alunos.
Quando elas finalmente encerraram a conversa e se deitaram em suas camas, Natália não pode deixar de sorrir.
Ela tinha feito uma amiga.

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quarta-feira, 13 de novembro de 2013

Natália Nocte e a Academia Arcádia: Capítulo 1 - A Família Nocte

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Os Nocte eram uma família excepcional. Cada um deles tinha um grande talento e todos eram diferentes. Os membros da família consistiam de sete pessoas, um pai, uma mãe, dois irmãos e três irmãs. Porém, uma dessas irmãs era a exceção da família. Ela era pouco conhecida pois nunca havia demonstrado talentos excepcionais ou se envolvido em situações fora do comum. Ela era a irmã do meio que costumava vigiar a casa enquanto os outros estavam fora. Portanto, o resto da família ficou muito feliz quando ela recebeu um convite para estudar na renomada Academia Arcádia. O nome dela era Natália Nocte, essa é a história dela.
Natália estava no quarto dela, fazendo as malas antes de sair. Seu quarto era bonito, com um piso de madeira e paredes brancas que estavam quase completamente recobertas pela variedade de interesses dela.
Haviam pôsteres de seus personagens favoritos, haviam fileiras de estantes contendo todos os livros que ela já tinha lido, todos meticulosamente organizados(ela era um pouco obsessiva em relação a isso), haviam dezenas de bonecos, que ela mesma tinha montado e pintado.
Havia o computador dela, robusto e tão carregado de arquivos que precisava de um HD externo para guardar tudo. Havia uma cama macia e de lençóis azuis. Havia um criado-mudo sobre o qual estava a carteira e o celular dela, dentre outras coisas. Havia uma mesa com cadeira onde ela estudava. E havia irmã mais velha dela, Elidee, que estava ajudando Natália a fazer as malas.
Elidee tinha 16 anos e era bonita, com um corpo atlético e um rosto sorridente. Tanto que ela provavelmente teria muitos pretendentes se a maioria das pessoas não tivessem medo dela. Ela tinha a pele morena e olhos castanhos, junto com cabelos pretos, características que partilhava com quase todos os membros da família, incluindo Natália. Ela estava usando uma camisa sem mangas, especialmente para tornar visíveis as várias marcas, símbolos e imagens gravadas em cada ponto da pele dos braços e ombros, mas haviam várias marcas nas costas que não era visíveis. Cada uma daquelas marcas tinha uma história e Natália conhecia muitas delas, mas havia algumas que Elidee se recusava a contar.
- É engraçado que um dos seus livros da escola seja "Animais Fantásticos e Onde Habitam" - disse Elidee, entregando o livro em questão pra Natália - considerando que fui eu que escrevi.
- Tem razão - Natália disse - então é bom que nenhum dos outros membros da família gostem muito de escrever livros.
- É mesmo! - ela riu - você consegue imaginar como seria um livro escrito pela mamãe?
Elas duas ficaram em silêncio por um momento, e então desataram a rir.
As risadas delas atraíram a atenção da irmã mais nova, Susan, que entrou no quarto perguntando:
- O que é tão engraçado?
- Estávamos imaginando um livro escrito pela mamãe - Natália respondeu, e elas caíram na risada de novo.
Susan apenas sorriu, ela nunca tinha sido muito de rir, mas o sorriso dela era muito bonito. Ela só tinha 10 anos, mas já dava para ver que ela seria uma beldade no mesmo nível da mãe delas, com um corpo mais desenvolvido do que outras garotas da idade dela. Eu mal posso esperar para ver a expressão das filas de pretendentes rejeitados que ela deixar para trás - pensou Natália - bem, isso saíu mais cruel do que eu tinha imaginado. Deixa pra lá - ela voltou a atenção para a situação atual.
A esfera vermelho rubi no colar ao redor do pescoço dela balançou quanto ela se curvou pra pegar o horário escolar que estava na cama de Natália. Susan usava o cabelo na forma de maria-chiquinhas e usava um complicado vestido vermelho com bordas, babados e detalhes em preto, junto com sapatos caros. Eram roupas muito mais práticas do que pareciam, especialmente considerando as habilidades que Susan possuía, e quase todas as roupas dela eram similares.
- Vamos ver... "Conceitos Básicos da Iniciação em Magia", "Artefatos Mágicos: História e Treinamento", "Entendendo a Nova Tecnologia", "Combate a Curta Distância: Nível Básico", "Psiônicos: Talentos Práticos", "Introdução a Ambientes e Seres Fantásticos"... e mais algumas coisas.
Ela levantou a cabeça e olhou para Natália:
- Parece que você incluíu todo mundo.
- Sim - Natália falou.
Elidee fechou a mala de Natália, depois de colocar as últimas coisas dentro. Então ela olhou para Natália com um ar misterioso.
- O que foi? - Natália perguntou.
Ela apenas sorriu, e Natália notou que Susan também estava agindo estranhamente, ela tinha se colocado entre Natália e a porta de saída, como se estivesse tentando impedí-la de fugir.
- Quem vai primeiro? - perguntou Susan.
- Vai você - respondeu Elidee, sem tirar os olhos de Natália.
Alarmes começaram a soar na cabeça de Natália, ela procurou por outra saída, mas Elidee tinha fechado todas as janelas anteriormente. Será que elas tinham planejado isso desde o princípio? Conhecendo elas, provavelmente sim.
Susan começou a andar na direção de Natália. Os músculos se enrijeceram e ela se preparou para um movimento explosivo, caso fosse necessário.
- Eu tenho... - ela falou, depois de se aproximar o bastante - um presente! - ela tinha tirado uma pequena caixa de... algum lugar.
Os músculos de Natália relaxaram tão rápido que ela quase caíu no chão, mas felizmente ela consegui recuperar o equilíbrio a tempo. Era por esse tipo de coisa que ela tinha de estar sempre preparada, tanto para fazer uma pegadinha quanto para dar um presente, elas agiam exatamente do mesmo jeito.
Natália estendeu a mão para a caixa e pegou ela - desculpe, mas eu não tive tempo de embrulhar o presente - Susan disse, mas a caixa já era bonita por si mesma, era uma caixa de madeira branca, do tamanho de uma caixa de anel. Por um segundo Natália teve uma visão estranha de Susan pedindo ela em casamento e quase riu de novo.
Então qual não foi a surpresa dela ao ver que dentro da caixa realmente tinha um anel. Obviamente não era uma aliança de casamento, parecia ser um daqueles anéis de jóias que pessoas usam pra se mostrar. Mas se fosse, era um de muito bom gosto.
Tanto o anel quanto a jóia tinham a mesma cor, um prateado que brilhava como se tivesse acabado de ser polido, a jóia em si era redonda e muito bem trabalhada, mas a parte que deixou Natália certa de que aquilo não era um simples anel, foi o fato de que o conjunto do anel com a jóia parecia ser uma coisa só. Não parecia que era uma jóia presa num anel, parecia que a jóia e o anel eram a mesma coisa.
- Coloque - Susan pediu.
Natália colocou o anel no indicador de sua mão direita. E subitamente ela percebeu exatamente o que ele tinha de tão especial.
- Esse é um Artefato - Natália falou.
- Isso mesmo - Susan disse - o nome dele é Olho da Luz. Tente usá-lo.
Natália se concentrou no anel, e fechando os olhos, ela conseguiu perceber uma coisa que poderia ser considerada um botão, metaforicamente falando. Ela concentrou sua força de vontade e apertou aquele botão metafórico.
A jóia se acendeu como uma lanterna com poucas pilhas, era uma luz que seria pequena mesmo no escuro, e num quarto bem iluminado como aquele, era quase imperceptível.
- Perfeito! - Susan disse, com uma alegria pouco característica - foi bem complicado achar um Artefato adequado pra você. É um Artefato de luz.
Natália abraçou Susan - Obrigado - disse ela - eu adorei.
Susan retribuiu o abraço, e depois elas se separaram - você vai ter que treinar muito pra poder melhorar as suas habilidades com isso - ela disse.
- Vou me esforçar - Natália disse, fazendo o sinal de vitória.
- Agora é a minha vez - disse Elidee, que também removeu seu presente de um lugar indeterminado, e ele era bem maior do que o de Susan, sendo um pouco maior que uma raquete de tênis de mesa, e ele estava embrulhado com um papel vermelho com bolinhas brancas.
Ela entregou o embrulho para Natália e fez um movimento para ela abrir. Natália desfez o pacote e abriu a caixa, que era uma caixa de papelão, para descobrir o que havia dentro.
Era uma faca, uma adaga para ser mais preciso, e ela estava presa em um coldre parecido com aqueles que tem em filmes de faroeste, de couro preto, mas adequado ao formato da adaga, Natália tirou a adaga de lá para olha-la melhor.
A adaga tinha duas coisas em comum com o anel, ela era um objeto único ao invés de partes conectadas e parecia ter sido feita por um artífice de grande habilidade. A cor dela era cinza-claro e o cabo era cilíndrico e tinha uma superfície que não era áspera o bastante para machucar, mas tornava mais fácil de segurar.
A guarda era circular e sólida, e a lâmina era reta e triangular, e tão afiada que quase se podia ouvir o som de corte só de se olhar para ela. Natália colocou ela de volta no coldre, aquela coisa era perigosa.
- E ainda tem a melhor parte! - Elidee disse, e Natália olhou para ela - essa é uma adaga de Ferro Relâmpago!
O queixo de Natália caíu - Quer dizer... ferro de meteoro?
- Isso mesmo - ela assentiu.
O queixo de Natália chegou ao chão, Ferro Relâmpago é um dos minérios lendários, capaz de bloquear completamente o fluxo da magia, ele era muito difícil de encontrar, e ainda mais difícil de manter funcional.
- Eu tive que usar alguns favores pra conseguir o minério e um artífice bom o bastante para moldá-lo...
Natália não deixei ela terminar e a silenciou com um abraço - muito obrigado - ela disse - isso é muito legal.
Elidee ficou em silêncio por um momento e então pegou a adaga junto com o coldre - deixa eu colocar em você - ela falou.
Natália desenlaçou os braços do corpo da Elidee e ela se ajoelhou para amarrar o coldre em volta da coxa direita de sua irmã. Um lugar escondido, pois a saia que Natália usava ia até o joelho. Ela se levantou logo depois, admirando o trabalho.
- Dê uma voltinha - ela pediu.
Natália girou.
- Perfeito - ela disse - está muito bem escondida.
Natália decidiu que aquela era a hora de fazer uma pergunta.
- Gente - ela comecei - eu gostei muito dos presentes, mas por que hoje? Nem é o meu aniversário.
Susan respondeu - É que você vai pra Grande Academia Arcádia, vai ser a primeira vez que você vai pra uma escola interna, e ainda mais por ser a maior escola do mundo. Você vai estar sozinha lá.
Natália baixei os olhos. Era verdade, ela nunca tinha vivido numa escola antes, e ela nunca tinha conseguido fazer amigos em nenhuma de suas escolas anteriores. Mas pelo menos ela voltava pra casa todos os dias, mesmo que a casa estivesse quase sempre vazia. Ela não poderia fazer isso em Arcádia.
- Todos nós decidimos fazer isso hoje pra te relembrar que estamos sempre com você - disse Elidee.
Natália olhou para ela, dava pra sentir que havia alguma coisa que elas não estavam contando pra ela. Então Natália olhou direto nos olhos dela e perguntou:
- É mesmo só isso?
- É claro que sim! - ela respondeu, mas Natália continuei olhando direto para os olhos dela, e rapidamente Elidee começou a ficar desconfortável.
Natália continuou a olhar direto nos olhos dela, tentando descobrir o que elas não estavam lhe falando. Isso continuou por alguns segundos, mas Natália acabou decidindo dar a elas o benefício da dúvida.
Natália parou com aquele olhar penetrante, e o alívio de Elidee foi quase visível.
- Então eu vou falar com os outros - Natália disse.
E saiu de dentro de seu quarto.
Ela andou pelos corredores, desviando dos vários robôs de serviço que voavam de um lado para o outro em velocidades assustadoras. O quarto mais próximo do dela era o quarto de seu irmão mais novo, Aleksei, mas la se encontrou com ele antes de chegar lá.
Aleksei era um garoto de 7 anos de idade que parecia ter vindo das terras distantes de Roksoi, isso por causa da roupa que usava: Um robe monástico cinza-claro, extremamente simples. Aleksei tinha vários desses robes, a maioria deles em cores tão neutras quanto esse. Aleksei sempre tivera muito orgulho de lá, pois era onde ele tinha nascido. Seu nome também era no estilo daquela terra, assim como os nomes de seus irmãos eram no estilo de onde tinham nascido. Os pais deles sempre haviam viajado muito.
A aparência física dele também era muito normal, com um rosto amigável e cabelos crespos. Eu gostaria de brincar dizendo que ele nunca ia arrumar uma namorada daquele jeito, mas ele já estava noivo daquela princesa amazona. Quem diria que uma briga de crianças poderia virar algo tão sério?
Natália encerrou essa linha de pensamentos se aproximou dele e começou a falar:
- Já estou quase pronta.
Ele deu um grande sorriso, Alexei sempre gostara muito de Natália, desde que era bem pequeno.
- Venha comigo - e Aleksei começou a andar, Natália seguiu ele.
Ela achou que eles estivessem indo para o quarto dele, mas Aleksei desceu as escadas e foi na direção do salão de entrada da casa. No meio do caminho, ela percebeu que os pés dele não estavam tocando o chão.
- Aleksei, pare de flutuar - ela mandou.
- Ah - ele nem sequer tinha percebido o que estava fazendo, e voltou ao chão, meio envergonhado.
Depois de passada essa momentânea interrupção, eles chegaram ao salão de entrada. Lá havia um entregador, e ao lado dele uma caixa retangular que era maior do que Natália. Aleksei andou até o entregador e assinou a prancheta que ele segurava.
- Você chegou bem na hora - falou - muito bem.
O entregador não falou nada, mas fez uma mesura tirando o chapéu por um momento, então ele se virou e saíu pela porta da frente.
Aleksei se virou para Natália e falou:
- Tenho um presente pra você! - ele disse, apontando para a caixa com as duas mãos.
- Susan e Elidee me falaram.
Imediatamente a cara dele ficou desconsolada. Parecia que ele estava contando com isso ser uma surpresa. Natália passou a mão na cabeça dele.
- Tudo bem, vamos abrir pra ver o que tem dentro.
Isso rapidamente alegrou ele de novo, e Alexei fez vários gestos repetivamente, apressando ela. E normalmente isso faria Natália ir mais devagar, como uma piada. Mas dessa vez ela estava ansiosa para ver o que havia lá dentro. Então ela rompeu o lacre de segurança e tirou a tampa, deixando as quatro partes laterais caírem, e revelando...
Outra caixa.
Dessa vez era uma caixa quadrada, e bem menor do que a caixa que a continha. Pra que serve todo esse espaço extra então? Ela pensou antes de abrir essa nova caixa.
E revelar outra caixa.
Natália já estava ficando impaciente, então ela começou a abrir caixa após caixa rapidamente e eficientemente, e elas ficavam cada vez menores e menores até o ponto que a caixa restante era ainda menor que a caixa do anel da Susan. Ela respirei fundo e disse:
- Está na hora!
E havia outra caixa dentro.
Natália colocou a palma da minha mão no próprio rosto, em um sinal de exasperação, ela ficou assim por dois segundos inteiros, antes de abrir a (dessa vez) última caixa.
O que havia lá dentro era uma esfera menor do que a ponta do dedo de Natália, a consistência parecia a de uma pedra preciosa, mas a cor era um azul-turquesa muito apagado. O cheiro era a parte mais estranha dela, sendo um aroma ferroso, com traços de produtos químicos que Natália não conseguiu identificar, além de um cheiro extremamente leve de uma pessoa desconhecida.
- O que é isso? - ela perguntou.
Aleksei juntou as mãos e abriu os braços logo em seguida, como um mestre de espetáculos apresentando suas atrações, ele começou - Isso, minha cara, é uma lendária...
Ele fez uma pequena pausa naquele momento, Aleksei sabia como ser dramático - antes de finalizar:
- Esfera de Emoções!
Natália não tinha certeza, mas ela achou que seus olhos se esbugalharam naquele momento. Uma esfera de emoções era uma massa sólida constituída de emoções extremamente comprimidas. Era uma coisa muito perigosa, pois a explosão de uma dessas era capaz de deixar inconsciente quase qualquer ser vivo que estivesse no alcance.
- Vo... você... - Natália gaguejou.
- Eu pedi para um dos meus amigos arranjar isso.
- Certo - Natália falou, começando a se acalmar - mas como... eu vou poder carregar isso?
Ao invés de responder, ele pegou a esfera e falou:
- Abra a boca.
Natália fez o que ele pediu, e ele estendeu a mão para dentro da boca dela, para colocar a esfera lá. Ela percebi o que ele estava fazendo e relaxou.
Ele colocou a esfera no canto da boca dela, perto da gengiva, a esfera ficou colada lá quando ele tirou a mão.
- Isso vai evitar que ela seja ativada por acidente. Mas essa coisa ainda é muito perigosa, então você só deve usá-la em caso de emergência.
Era como Natália tinha imaginado. Ela ainda não estava completamente convencida de que aquilo valia o risco, mas não podia recusar um presente de seu irmão. Ela passei a língua pela esfera, imaginando que ela provavelmente deixaria de sentir a esfera lá depois de algum tempo.
- O que você achou? - Aleksei perguntou.
Ela abraçou ele. E então começou a girar ele no ar.
- Eu não sei se vou precisar de uma coisa dessas - ela falou, sem parar de girar o Aleksei - mas obrigado, deve ter sido muito difícil de conseguir.
Natália colocou o Aleksei no chão e ele deu um sorriso radiante.
- Satoshi está esperando lá no quarto dele, ele também tem um presente pra te dar.
Ela agradeceu de novo e voltou a subir as escadas, dessa vez indo para o terceiro andar da casa, onde ficava o quarto do Satoshi. O corredor do terceiro andar era diferente daquele do segundo andar. Uma das diferenças era o fato de que haviam muito menos robôs voando de um lado para o outrô e realizando tarefas inescrutáveis.
Outra era o fato de que o teto desse andar era muito mais alto, com quase seis metros de altura, e ainda outra era o fato de que a decoração naquela parte da casa parecia muito mais pessoal. Imensas janelas com cortinas igualmente imensas, pedestais de cabeça para baixo e com vários troféus em caixas de vidro adornando o teto e diversas quinquilharias de todas as formas e tamanhos presas nas paredes eram apenas o começo dos muitos toques pessoais espalhados pelo corredor. Um decorador provavelmente consideraria aquilo exagerado, mas pra Natália isso parecia perfeito para os pais dela, pois o quarto deles também era naquele andar.
Ela atravessei o corredor quase sem olhar para os lados, e chegou até a porta do quarto de Satoshi. Ela era fácil de reconhecer, sendo uma porta de metal pesada.
Natália bateu na porta, e uma voz disse que ela podia entrar. Ela se firmou e empurrou a porta, abrindo caminho para o quarto de seu irmão mais velho.
Existe uma forma simples de descrever o quarto do irmão dela, ele parecia pertencer a duas pessoas diferentes. Um lado do quarto estava cheio de barras, sacos de areia(e outras coisas), e vários outros instrumentos de treinamento mais esótericos. Uma coisa importante a se notar é que não haviam simples aparelhos de musculação, mas instrumentos de treinamento marcial sério.
A outra metade do quarto, por outro lado, estava repleta de um número ridículo de videogames, controles de videogame e especialmente jogos, todos meticulamente organizados temática e alfabeticamente(essa parte era culpa de Natália).
De fato, a única coisa que mostrava que aquele era o quarto de apenas uma pessoa era a cama de solteiro onde o irmão dela estava sentado.
Satoshi tinha 19 anos, e o corpo de um lutador marcial. Ele não tinha músculos saindo pelos ouvidos, mas cada pedaço do corpo dele havia sido perfeitamente tonificado pelos anos de treinamentos e combates. O rosto dele também era bonito, e ele já tivera passado por várias namoradas, não surpreendentemente. Satoshi estava usando calças brancas e uma camisa preta sem mangas.
- Olá Natália! - ele acenou, chamando ela mais para perto.
- Como as coisas estão indo?
- O mesmo de sempre, tendo que lidar com alunos que acham que sabem o que estão fazendo, animar alunos que não estão indo tão bem e ajudar os alunos a resolverem os problemas que tem uns com os outros.
- É, você já falou sobre isso.
- E como você está se sentindo sobre finalmente entrar em Arcádia?
- Animada. Vou poder aprender muitas coisas lá - e talvez descobrir o que eu quero fazer, ela pensou.
- Por falar nisso. Eu tenho uma coisa pra te dar - ele estendeu a mão para pegar algo embaixo da cama.
Natália olhou, ela tinha uma ideia do que ele iria lhe dar, mas ainda estava curiosa.
E ele pegou... um livro. Parecia que ela estava certa. Estava embrulhado, mas era claramente um livro. Depois do drama dos outros embrulhos, uma coisa tão simples deixou Natália até aliviada.
Ela peguei o presente e abriu ele, revelando "O Livro dos Cinco Anéis", um tomo instrutivo sobre artes marciais. Natália tinha expressado interesse nele quando tinha passado por uma livraria algum tempo antes. E Satoshi estava lá para ouvir.
- E então? Você gostou?
Ela me virei e abraçou ele. Satoshi retribuíu o abraço e começou a girar ela no ar.
- Ahhhhhhh - ela gritei, de brincadeira.
Ele colocou ela no chão.
- Você vai levar esse treino a sério, não vai?
- Claro, ele vai ajudar nas minhas aulas de combate.
Ele bagunçou o cabelo dela.
- O papai está correndo pelos corredores, procurando você, vai lá.
Natália agradeceu de novo pelo presente e saíu do quarto, novamente precisando se firmar pra puxar a porta.
Sabendo que o pai estava procurando ela, não seria difícil achar ele, ela apenas andou pelo corredor até ouvir o familiar som de metal se chocando contra metal. Ela se virou e esperou o pai dela se aproximar.
Chamar a máquina que estava vindo na direção de Natália de "veículo" seria extremamente caridoso. Pessoalmente, ela diria "armadilha mortal". Ela parecia um pequeno andaime cercado por um anel flutuante de metal que batia nas paredes sem quebrar nada, e com um som macio. O mesmo não podia ser dito da parte de dentro, com a qual o andaime se chocava constantemente, sendo a fonte do barulho que ela tinha ouvido.
E era só isso, não havia qualquer amarra, cinto ou argola segurando a pessoa que estava em cima do andaime. Ela se segurava com as mãos, e ocasionalmente os pés, enquanto o andaime se movia em velocidades que seriam imprudentes em uma rodovia. Aquela pessoa era o pai de Natália.
Ele não era um homem especialmente bonito, mas também não era feio. As feições dele eram sérias, e o corpo dele não era tão musculoso quanto o do filho, mas também não era magricelo. Ele estava usando um jaleco de laboratório por cima de um casaco e calças pretas. Ele era o único da família que não era moreno, tendo a pele branca, mas suas feições eram muito similares a de seus filhos homens. Seu nome era Nicolas.
Ao avistar Natália, ele levantou a perna e colocou a sola do pé numa das barras do andaime. Aí ele freiou.
O andaime parou quase imediatamente, numa desaceleração tão violenta que teria jogado o pai por cima dela se ele não tivesse empurrado para o outro lado com o pé. No final das contas, o anel do andaime voador parou a poucos centímetros do rosto dela. Teria sido assustador se ela já não estivesse acostumada.
Nicolas desceu do andaime.
- Parece que os outros já te deram os presentes - ele falou.
- Sim, só faltam você e a mamãe.
- Nesse caso - ele colocou a mão no bolso do jaleco - está na hora do meu presente.
Ela olhou pra ele. Diferente do resto da família, ela tinha apenas uma vaga ideia do que ele poderia lhe dar, mas o conjunto de possibilidades diminuía muito se fosse algo que coubesse no bolso dele. Natália tentou adivinhar o que era.
Ela falhou.
Ele tirou do bolso um par de luvas brancas extremamente elegantes, parecidas com luvas de ópera. Natália pegou elas e e as calçou, depois de tirar o anel de seu dedo. As luvas tinham uma consistência parecida com a do veludo, e eram muito confortáveis.
Ela estava admirando quão bem as luvas ficavam quando o pai dela falou:
- Deixe os outros dedos esticados e aperte o dedo médio e o anelar na palma da mão.
Ela fiz o que ele pediu, com as duas mãos, e imediatamente sentiu algo estranho. Parecia que ela tinha ficado mais leve subitamente.
- Tente levantar o anel.
Natália colocou as duas mãos no anel do andaime e tentou empurrá-lo para cima. E para a surpresa dela, ele subiu facilmente, como se não tivesse mais que o triplo dopeso dela.
- São dinaluvas. Enquanto ativadas, elas aumentam a sua força consideravelmente.
- Elas são tão... lindas... - Natália falou, depois de ter abaixado o anel - mas como eu volto ao normal?
- É só fazer a mesma coisa.
Ela dobrou os dedos do mesmo jeito de antes, e sentiu o seu peso voltar ao normal. Então ela se virou e abraçou o pai dela.
- Obrigado mesmo...
Ele fez carinho na cabeça dela. Depois eles se separaram e ele falou:
- Sua mãe já deve estar chegando, desça lá no jardim pra receber ela.
- Tá bom, mas pode levar isso pro meu quarto? - Natália entregou o livro de Satoshi pra ele.
- Tudo bem.
Ela saiu, acenando enquanto ele voltava a subir na armadilha mortal, e voltou a descer as escadas, colocando seu anel de volta no dedo por cima da luva e indo para o salão de entrada.
Natália passou pela porta e chegou no jardim. Diferente do que se poderia imaginar, aquele era um jardim perfeitamente normal, e muito bonito. Ela sentiu uma ponta de orgulho, já que ajudava Susan a cuidar dele.
Isso levou ela a pensar no jardim de Elidee, que era muito bem escondido, já que seria muito perigoso pra qualquer pessoa que entrasse lá por engano.
A linha de pensamentos sobre jardins parou quando Natália avistou um ponto negro no céu. Ela apertou os olhos, e percebeu que aquele ponto era a mãe dela.
Natália observou enquanto ela chegava cada vez mais perto, e percebeu quando ela a avistou e começou a acenar, Natália já via o bastante para distinguir as roupas que a mãe estava usando quando algo aconteceu.
Ela caiu, simplesmente despencou do ar como se a gravidade tivesse subitamente percebido que algo estava errado, foi como se uma águia tivesse magicamente se tornado uma pedra.
Não devia ter sido mais de 5 segundos e ela acertou o chão como um míssil, levantando uma nuvem de poeira. Como Natália estava perto de onde ela tinha caído, a garota precisou abanar com as mãos para afastar a poeira.
- Droga - falou a minha mãe, no meio da nuvem de poeira - por que eu tinha que pensar em Ícaro logo naquela hora?
A poeira lentamente baixou, e Natália pode ver sua mãe de perto.
Simplesmente falando, ela era a mulher mais bonita do mundo.
Certo, isso era na opinião de Natália. Mas o fato é que toda vez que eles íam pra um lugar público, ela atraía os olhos de todos os homens e de muitas das mulheres também.
A aparência dela não era magra como a de uma modelo, ela era encorpada e curvilínea, com uma cintura larga. Os braços e as pernas dela não pareciam nada delicados, mas isso era de se esperar, considerando o trabalho dela. Os cabelos dela eram lisos e acentuavam perfeitamente o belo rosto dela, especialmente em contraste com os olhos negros. Isso pois os cabelos dela eram brancos, extremamente brancos da forma que uma folha de papel teria inveja. Seu nome era Bianca.
As roupas que ela estava usando eram uma calça folgada que ia até o tornozelo, uma camisa branca com escritos em círilico, que Natália conseguia reconhecer, mas não entender e um sobretudo marrom que não estava fechado. Ela não usava sapatos.
Ela bateu na roupa com as mãos, para tirar a poeira, e pequenas faíscas multicoloridas saltavam toda vez que ela fazia contato. Ela terminou isso, olhou para Natália, levantou os braços para o ar e gritou:
- Eu cheeeeeeeeeeeeeeeeeeeegueeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeei!!!
Imediatamente, dezenas de pequenos fogos de artifício explodiram ao redor dela, formando imagens de casa, comida e dos outros membros da família. Um arco-íris surgiu sobre a cabeça dela. E finalmente uma explosão imensa rugiu vários metros atrás dela, criando uma nuvem de fumaça vermelha.
Bianca sempre ficava feliz quando voltava pra casa.
E antes que Natália pudesse dar as boas vindas, a mãe dela tinha corrido em sua direção e a envolvido num abraço apertado, levantando-a do chão.
- Ugh - Natália falou, tentando respirar.
Bianca diminuíu um pouco a força, permitindo que Natália abraçasse ela também.
- Que bom que eu consegui chegar a tempo! - ela falou, colocando a filha de volta no chão.
- É, todo mundo conseguiu.
Ela olhou para as luvas de Natália e sorriu.
- E parece que o seu pai já te deu o seu presente.
- Sim.
- Então é a minha vez!
Ela girou a mão e colocou a palma pra cima. Uma explosão de luz surgiu na mão dela, e quando desapareceu havia um embrulho no lugar.
- Aqui está - ela entregou o embrulho para Natália.
O presente tinha sido embrulhado com papel multicolorido, pelo menos três camadas. Mas ainda assim era claramente um livro. Natália já tinha imaginado o que seria o presente de sua mãe, e parecia que ela não estava errada.
Ela desfez o exagerado embrulho e olhou a capa do livro.
Era um livro pesado de capa dura, que parecia ser de segunda mão. Ou talvez sétima mão. Ele parecia um livro que havia testemunhado as mudanças do mundo, e suportado todos os problemas que sofreu. O livro era sólido, e cheirava a conhecimento. A capa dele dizia gloriosamente: Tomo de Feitiços de Fora das Escolas de Magia.
Natália olhou para Bianca, sem acreditar, ela sabia que o presente seria algo relacionado a magia, mas receber um livro tão obviamente raro era algo que ela não estava esperando.
A mãe de Natália se aproveitou da confusão dela para envolvê-la em outro abraço, delicadamente dessa vez.
- Eu te amo - ela falou no ouvido de Natália - nunca se esqueça disso - ela soltou sua - agora vá terminar de arrumar as suas coisas.
- Obrigado - Natália disse, acenando pra ela e voltando para dentro de casa.
Natália correu de volta para o quarto dela, Elidee e Susan não estavam mais lá, mas a mala ainda estava lá, com o livro de Satoshi ao lado dela.
Ela rapidamente guardou os dois livros na mala, e então foi até o espelho para checar sua aparência pela última vez.
Natália estava satisfeita, a aparência dela sempre seria mais parecida com a da Elidee do que com a da Bianca, mas ela não iria querer o excesso de atenção que vinha com a beleza dela.
Natália estava usando uma saia preta e uma camisa vermelha de mangas curtas. Na cabeça dela havia uma boina branca, e o cabelo dela era longo o bastante para chegar no começo das costas. As luvas não tinham deixado de ser elegantes desde a última vez que ela olhara, e nos pés estavam botas de combate pretas com meias brancas. Satoshi acharia melhor se ela usasse galochas como as dele, mas ela preferia essas botas.
Natália sorriu e se virou para pegar a mala, estava na hora de ir para a escola.

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