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Na verdade Vítor tinha achado um pouco estranho o fato de Lúcia ter pedido pra ele ficar lá, apesar deles só terem se conhecido no dia anterior. Eles realmente tinham se dado bem naquela pequena exploração, mas ainda assim era difícil de acreditar que ela já confiaria nele.
Por outro lado, ele tinha derrotado aquele monstro antes mesmo de conhecê-la, e provavelmente ela esperava que ele fosse atender aos pedidos de ajuda do povo da cidade.
E ele se lembrava daquela intenção assassina que tinha sentido, ela estava mais fraca, mas ainda continuava perceptível por trás das outras sensações que a casa passava. Vítor pensou que era bem possível que o dono daquela intenção fosse um guarda que não hesitaria em acabar com ele caso ele saísse da linha.
Não que ele pretendesse fazer isso, embora ele estivesse disposto a aproveitar o tempo livre para explorar aquela casa. Já que ficar parado seria muito entediante.
Pensado em tudo isso, ele saíu andando pelos corredores inexplorados da casa, e uma coisa que ele rapidamente pode perceber foi que aquela era uma casa complexa, que provavelmente estava cheia de locais ocultos e passagens secretas.
Andando pelo corredor principal da casa, ele decidiu evitar todas as portas que davam em outros corredores, pelo menos no começo. Depois de passar por três delas, ele abriu uma quarta porta, e imediatamente desejou jamais tê-la aberto.
Era um quarto, isso estava absolutamente claro pela cama com dossel e a mesa com um computador, mas o resto do quarto era uma visão que rompia os limites da sanidade. As paredes pareciam feitas de centenas de rostos costurados uns nos outros, alguns desses rostos pareciam estar em agonia, outros possuíam sorrisos maníacos, e ainda outros pareciam observar o próprio Vítor, com olhos acusadores e temíveis, como se eles estivessem prestes a sentenciá-lo pelo pior dos crimes.
Mas esse era apenas o começo do show de horrores, instrumentos de tortura que pareciam récem-usados jaziam jogados no chão ou pendurados nas paredes, instrumentos dos mais variados tipos e para as mais variadas anatomias, como se essa fosse uma macabra exposição histórica.
E isso ainda não era tudo, a cada pequeno detalhe daquele lugar que era absorvido pela mente de vítor, havia mais um pequeno horror esperando para ser descoberto, mas o pior de tudo ainda estava por vir, pois a mente de Vítor tentava desesperadamente não compreender o verdadeiro terror daquela cena, mas não havia possibilidade, tudo já estava entrando em foco.
Eram as cores. Tudo o que havia naquele quarto estava pintado nas cores que causariam a pior distorção possível, rosa, azul-bebê e os vermelhos menos violentos possíveis. Aquilo era algo absurdo, era como ver um coelho comendo a si próprio, era como perceber que havia um número extra na contagem de 1 até 10, e Vítor sentiu um pedaço de sua infância morrendo imediatamente ao perceber aquilo.
Ele bateu a porta com toda a força que tinha.
- Esse... deve ser o quarto da Kogasa - ele concluíu, assim que conseguiu colocar os pensamentos em ordem.
Ele voltou a andar pelo corredor, ainda tremendo, mas confiante de que o pior já tinha passado.
Depois de algum tempo, ele chegou a outra porta, dessa vez ele abriu ela lentamente, e foi surpreendido por uma visão estranhamente normal.
No canto do quarto havia uma pequena cama com lençóis vermelhos, no outro canto havia um guarda-roupa imenso, que parecia ter o dobro do tamanho de um normal. O tapete era branco como o céu de alvorada, enquanto as paredes e o teto eram negros como a meia-noite. Haviam três mesas redondas de cinco cadeiras, cada uma com algo diferente em cima.
Uma delas tinha uma chaleira e algumas xícaras, a segunda tinha uma coleção de diferentes relógios. Analógicos, digitais, biológicos¹... finalmente, a última mesa tinha um tabuleiro de xadrez com peças em cima, mas as peças não estavam nas suas posições iniciais, então esse devia ser um jogo em andamento.
Foi a segunda mesa que fez Vítor ter certeza de que aquele devia ser o quarto de Lúcia, apenas ela seria tão maníaca por relógios. Vítor sentiu uma vontade súbita de adentrar naquela fronteira proibida, mas fechou a porta ao invés disso, aquele não era um caminho que ele queria trilhar.
Depois de mais algum tempo andando, Vítor finalmente chegou ao final do corredor, e havia uma última porta lá. Curioso, pois as duas últimas tinham sido quartos, ele estendeu a mão para a porta.
Antes que ele pudesse colocar a mão na maçaneta, a campainha tocou, quem poderia ser? Será que ele tinha sido deixado lá para receber aquela pessoa? Foi o que Vítor pensou, e a resposta era "definitivamente não".
- - - -
Kogasa andava pelas ruas da cidade, disfarçada como um adorável cãozinho, aquele era um dos truques favoritos dela, alguém sempre tentava levá-la pra casa, e ela dava um tremendo susto na pessoa. Hilário.
O que ela encontrou foi exatamente o esperado de uma cidade militar. Grandes mercados abertos oferecendo todos os tipos de produtos, pequenos acrobatas, malabaristas e outros tipos de performistas realizavam feitos que desafiavam a lógica em troca de algum dinheiro, grandes esquedrões realizavam duros exercícios de combate e guardas bem armados patrulhavam os silos contendo os suprimentos de que a cidade necessitava para continuar funcionando.
Depois de tantos anos de guerra, aquela civilização havia alcançado uma complexidade muito grande, sendo composta de pequenos grupos com interações rigidamente determinadas. Qualquer sociólogo ficaria incrivelmente animado com a oportunidade de estudar algo assim, mas Kogasa não era uma socióloga, e tinha um trabalho a fazer.
Depois de assustar a pessoa requerida², Kogasa mudou para a forma de um mosquito, e adentrou uma das tendas do comando, não havia ninguém lá, então ela repetiu o processo com várias outras tendas até encontrar o ouro.
Bem, não era exatamente ouro, mas era um grupo de pessoas que destoava do resto da cena.
Haviam 11 deles, 6 pareciam híbridos de humanos e lobos, com uma forma humanóide coberta de pêlos e cabeças que variavam de meio caninas até cabeças iguais a de lobos, e estavam carregando ao redor de seus corpos uma grande quantidade de correntes que terminavam em ganchos afiados.
Um outro era um homem baixo e nada ameaçador, exceto pelo machado de duas mãos que ele afiava usando uma máquina. Outra ainda era uma elfa musculosa que estava usando luvas de metal.
Também havia uma quimera, que tinha cicatrizes espalhadas pelo corpo, e um olhar inteligente que observava o resto dos outros calmamente, além disso, havia uma pequena garotinha que carregava uma foice.
Finalmente, havia um homem alto, musculoso e imponente que estava usando uma armadura completa dourada e trazia uma espada de duas mãos presa nas costas. Todos eles eram definitivamente fortes.
"Um grupo de mercenários", Kogasa pensou "o que eles estão fazendo aqui?"
Ela teve sua resposta rapidamente, ao ouvir a conversa deles:
- Lúcia deve estar chegando - falou o homem de armadura, com uma voz alta e fazendo gestos expansivos - Rendi, você fica com ela - o homem do machado assentiu e, fazendo o machado desaparecer(Lúcia achou que ele devia ter algum tipo de espaço vazio), saíu da tenda - Anoris - ele continuou, apontando para os usuários de correntes - observem de longe e deem apoio a ele caso seja necessário - eles também saíram.
Então ele se virou para a garota da foice:
- Você viu o que aquela tal de Kogasa sabe fazer, não viu? - a garota assentiu - posso confiar em você pra lidar com ela?
- Claro - a garota falou, sorrindo docemente.
- Então vá.
Enquanto ela estava indo, o cara da armadura se dirigiu aos outros - nós vamos apenas continuar nas nossas posições anteriores e esperar novas ordens.
Os outros assentiram e saíram da cabana. Kogasa esperou alguns momentos antes de seguí-los, pensando "É uma armadilha, e eu não vou poder nem avisar a Lúcia."
- - -
Vítor chegou até a porta, ele se preparou para atender, mas quando chegou perto da porta, seus instintos fizeram ele saltar para trás, e foi bem a tempo, pois logo depois, a porta aparentemente explodiu.
Vítor tinha se afastado, mas mesmo assim ele foi atingido por cacos de madeira que voaram da porta. Vítor olhou para o local da explosão, e viu quando a poeira começou a baixar.
Haviam três velhas, velhas o bastante para seus cabelos serem brancos, as três também eram baixas e estavam usando robes brancos. As feições delas eram similares o bastante para Vítor se convencer de que elas eram irmãs. E nenhuma delas possuía aquela fragilidade das pessoas no fim da vida. Pelo contrário, as três eram mais parecidas com árvores anciãs, que ficam cada vez mais densas e resistentes com a idade.
A próxima coisa que Vítor percebeu foi que cada uma delas estava segurando uma arma. Aquela que estava na frente das outras possuía uma espada de duas mãos. A que estava mais atrás tinha um cetro. E a que estava entre elas estava usando manoplas bem maiores que a mão dela.
- Ei, vocês! Tomem cuidado com isso! Alguém podia ter se machucado! - Vítor gritou.
Aranea(a velha da espada. Eu não vou fixar chamando ela de velha da espada até alguém falar o nome dela) apontou sua espada para Vítor.
- Vítor Lee! Em nome do bem-estar e ordem no mundo, nós viemos aqui para te executar!
E as três avançaram como uma só. Nesse ponto existe uma coisa que se deve levar em consideração. A família Lee tinha apenas duas regras. A primeira era que todos os membros da família tinham que aprender pelo menos magia o bastante para fazer um feitiço, não importa quão pequeno. E a segunda era que eles tinham que ficar longe de Kali, de qualquer jeito. Essa segunda regra é interessante pois ela mostra uma coisa importante sobre a visão de mundo dos Lee. Eles não são orgulhosos demais pra fugir.
E fugir foi o que vítor fez, ele virou de costas e deu no pé, mas logo percebeu que jamais poderia escapar daquelas três simplesmente correndo. Meenah (a das manoplas) estava aparentemente usando um feitiço de movimento rápido.
Vítor tentou atacar elas enquanto corria, mas nenhum de seus ataques funcionavam, as magias de longa distância eram bloqueadas por Aranea ou Meenah, e tentativas de se aproximar eram respondidas por cubos de energia lançados por Porrim (a do cetro) que eram bem mais fortes que as esferas de energia de Vítor.
Vítor podia ser habilidoso, mas aquelas três obviamente tinham muito mais experiência do que ele. E vítor só tinha um feitiço que ainda não tinha tentato, seu quinto feitiço, mas atingir as magas com ele seria difícil. Pensando rápido, Vítor decidiu que sua melhor chance seria entrar em um dos quartos e atacar quando elas entrassem atrás dele. Porém, no momento em que pensou nisso, Vítor perdeu a concentração. Era exatamente o que as três estavam esperando.
Em um movimento fabulosamente rápido, Aranea se aproximou dele e atacou com a espada de baixo pra cima, Vítor criou sua espada de magia a tempo de bloquear o golpe, mas a pura força por trás daquele ataque jogou os braços dele para trás. Meenah avançou a seguir, juntando as mãos e atacando com elas antes que Vítor pudesse baixar os braços para se defender. Ele se preparou para a dor, mas ao invés disso Meenah tocou nele levemente sussurrando Dominum, e subitamente Vítor sentiu como se estivesse coberto de terra. Cada movimento saía apenas depois de um imenso esforço, e Porrim completou o ataque triplo criando um cubo de energia ainda maior que os outros e lançando ele na direção de Vítor. Ele não poderia se mover rápido o bastante para sair de lá, mas ainda tinha uma chance. O último feitiço.
Canalizando grandes quantidades de seu poder mágico pelo braço, Vítor fez ele brilhar em uma luz dourada. Várias veias romperam, músculos rasgaram e ossos racharam, mas aquele braço pode se mover livremente por uns breves momentos. E ele socou o cubo.
A explosão foi tremenda.
- - - -
Vítor acordou no porão da casa. Todo o corpo dele doía e haviam destroços em todos os lados, mas o que realmente chamou a atenção dele foi a grande quantidade de correntes que estavam naquele lugar, correntes imensas, que pareciam feitas para prender dragões, correntes presas no teto, nas paredes, no chão. Correntes mantidas no lugar com pedras pesadas, com cravos similares aos usados em escaladas e algumas que pareciam coladas. E haviam várias correntes que haviam se soltado devido a destruição que a luta de Vítor e das magas tinha causado.
E então, uma corrente se rompeu.
Seguida de outra.
Todos os instintos de Vítor gritavam para ele fugir, mas antes que ele pudesse, Vítor ouviu uma voz ao lado dele.
- Ei, Vítor.
Vítor quase torceu o pescoço, com a velocidade que ele se virou, mas o que estava lá era muito diferente do que ele tinha esperado. Era uma bola de luz, uma bola de luz verde que aparentemente podia falar³.
- Quem é você? - ele perguntou, de maneira muito pertinente.
- Meu nome é Akinima. Eu sou uma pixie, e minha função é cuidar dessa casa.
- Como você consegue falar? - ele fez uma pergunta menos pertinente.
- Isso não é importante. Você entende o que está acontecendo?
- Tem alguém aqui, que aparentemente quer matar tudo o que existe, pela sensação que eu estou tendo. E está se soltando.
- Exatamente, mas eu tenho que explicar quem é essa pessoa, antes que você faça alguma coisa de que se arrependeria.
- Então quem ela é?
- Essa é... Amanda, a irmã da Lúcia.
¹ Alguns cientistas malucos ouvem o termo "relógio biológico" e entendem errado.
² A pessoa que ela tinha assustado espalhou a história, e a lenda do "cachorro de três cabeças" se tornou muito bem conhecida algumas décadas depois.
³ Existem cientistas chamados xeno-fonologistas que estudam a produção de sons por fontes não usuais. Essa seria uma das coisas que eles estudam.
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