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Os Nocte eram uma família excepcional. Cada um deles tinha um grande talento e todos eram diferentes. Os membros da família consistiam de sete pessoas, um pai, uma mãe, dois irmãos e três irmãs. Porém, uma dessas irmãs era a exceção da família. Ela era pouco conhecida pois nunca havia demonstrado talentos excepcionais ou se envolvido em situações fora do comum. Ela era a irmã do meio que costumava vigiar a casa enquanto os outros estavam fora. Portanto, o resto da família ficou muito feliz quando ela recebeu um convite para estudar na renomada Academia Arcádia. O nome dela era Natália Nocte, essa é a história dela.
Natália estava no quarto dela, fazendo as malas antes de sair. Seu quarto era bonito, com um piso de madeira e paredes brancas que estavam quase completamente recobertas pela variedade de interesses dela.
Haviam pôsteres de seus personagens favoritos, haviam fileiras de estantes contendo todos os livros que ela já tinha lido, todos meticulosamente organizados(ela era um pouco obsessiva em relação a isso), haviam dezenas de bonecos, que ela mesma tinha montado e pintado.
Havia o computador dela, robusto e tão carregado de arquivos que precisava de um HD externo para guardar tudo. Havia uma cama macia e de lençóis azuis. Havia um criado-mudo sobre o qual estava a carteira e o celular dela, dentre outras coisas. Havia uma mesa com cadeira onde ela estudava. E havia irmã mais velha dela, Elidee, que estava ajudando Natália a fazer as malas.
Elidee tinha 16 anos e era bonita, com um corpo atlético e um rosto sorridente. Tanto que ela provavelmente teria muitos pretendentes se a maioria das pessoas não tivessem medo dela. Ela tinha a pele morena e olhos castanhos, junto com cabelos pretos, características que partilhava com quase todos os membros da família, incluindo Natália. Ela estava usando uma camisa sem mangas, especialmente para tornar visíveis as várias marcas, símbolos e imagens gravadas em cada ponto da pele dos braços e ombros, mas haviam várias marcas nas costas que não era visíveis. Cada uma daquelas marcas tinha uma história e Natália conhecia muitas delas, mas havia algumas que Elidee se recusava a contar.
- É engraçado que um dos seus livros da escola seja "Animais Fantásticos e Onde Habitam" - disse Elidee, entregando o livro em questão pra Natália - considerando que fui eu que escrevi.
- Tem razão - Natália disse - então é bom que nenhum dos outros membros da família gostem muito de escrever livros.
- É mesmo! - ela riu - você consegue imaginar como seria um livro escrito pela mamãe?
Elas duas ficaram em silêncio por um momento, e então desataram a rir.
As risadas delas atraíram a atenção da irmã mais nova, Susan, que entrou no quarto perguntando:
- O que é tão engraçado?
- Estávamos imaginando um livro escrito pela mamãe - Natália respondeu, e elas caíram na risada de novo.
Susan apenas sorriu, ela nunca tinha sido muito de rir, mas o sorriso dela era muito bonito. Ela só tinha 10 anos, mas já dava para ver que ela seria uma beldade no mesmo nível da mãe delas, com um corpo mais desenvolvido do que outras garotas da idade dela. Eu mal posso esperar para ver a expressão das filas de pretendentes rejeitados que ela deixar para trás - pensou Natália - bem, isso saíu mais cruel do que eu tinha imaginado. Deixa pra lá - ela voltou a atenção para a situação atual.
A esfera vermelho rubi no colar ao redor do pescoço dela balançou quanto ela se curvou pra pegar o horário escolar que estava na cama de Natália. Susan usava o cabelo na forma de maria-chiquinhas e usava um complicado vestido vermelho com bordas, babados e detalhes em preto, junto com sapatos caros. Eram roupas muito mais práticas do que pareciam, especialmente considerando as habilidades que Susan possuía, e quase todas as roupas dela eram similares.
- Vamos ver... "Conceitos Básicos da Iniciação em Magia", "Artefatos Mágicos: História e Treinamento", "Entendendo a Nova Tecnologia", "Combate a Curta Distância: Nível Básico", "Psiônicos: Talentos Práticos", "Introdução a Ambientes e Seres Fantásticos"... e mais algumas coisas.
Ela levantou a cabeça e olhou para Natália:
- Parece que você incluíu todo mundo.
- Sim - Natália falou.
Elidee fechou a mala de Natália, depois de colocar as últimas coisas dentro. Então ela olhou para Natália com um ar misterioso.
- O que foi? - Natália perguntou.
Ela apenas sorriu, e Natália notou que Susan também estava agindo estranhamente, ela tinha se colocado entre Natália e a porta de saída, como se estivesse tentando impedí-la de fugir.
- Quem vai primeiro? - perguntou Susan.
- Vai você - respondeu Elidee, sem tirar os olhos de Natália.
Alarmes começaram a soar na cabeça de Natália, ela procurou por outra saída, mas Elidee tinha fechado todas as janelas anteriormente. Será que elas tinham planejado isso desde o princípio? Conhecendo elas, provavelmente sim.
Susan começou a andar na direção de Natália. Os músculos se enrijeceram e ela se preparou para um movimento explosivo, caso fosse necessário.
- Eu tenho... - ela falou, depois de se aproximar o bastante - um presente! - ela tinha tirado uma pequena caixa de... algum lugar.
Os músculos de Natália relaxaram tão rápido que ela quase caíu no chão, mas felizmente ela consegui recuperar o equilíbrio a tempo. Era por esse tipo de coisa que ela tinha de estar sempre preparada, tanto para fazer uma pegadinha quanto para dar um presente, elas agiam exatamente do mesmo jeito.
Natália estendeu a mão para a caixa e pegou ela - desculpe, mas eu não tive tempo de embrulhar o presente - Susan disse, mas a caixa já era bonita por si mesma, era uma caixa de madeira branca, do tamanho de uma caixa de anel. Por um segundo Natália teve uma visão estranha de Susan pedindo ela em casamento e quase riu de novo.
Então qual não foi a surpresa dela ao ver que dentro da caixa realmente tinha um anel. Obviamente não era uma aliança de casamento, parecia ser um daqueles anéis de jóias que pessoas usam pra se mostrar. Mas se fosse, era um de muito bom gosto.
Tanto o anel quanto a jóia tinham a mesma cor, um prateado que brilhava como se tivesse acabado de ser polido, a jóia em si era redonda e muito bem trabalhada, mas a parte que deixou Natália certa de que aquilo não era um simples anel, foi o fato de que o conjunto do anel com a jóia parecia ser uma coisa só. Não parecia que era uma jóia presa num anel, parecia que a jóia e o anel eram a mesma coisa.
- Coloque - Susan pediu.
Natália colocou o anel no indicador de sua mão direita. E subitamente ela percebeu exatamente o que ele tinha de tão especial.
- Esse é um Artefato - Natália falou.
- Isso mesmo - Susan disse - o nome dele é Olho da Luz. Tente usá-lo.
Natália se concentrou no anel, e fechando os olhos, ela conseguiu perceber uma coisa que poderia ser considerada um botão, metaforicamente falando. Ela concentrou sua força de vontade e apertou aquele botão metafórico.
A jóia se acendeu como uma lanterna com poucas pilhas, era uma luz que seria pequena mesmo no escuro, e num quarto bem iluminado como aquele, era quase imperceptível.
- Perfeito! - Susan disse, com uma alegria pouco característica - foi bem complicado achar um Artefato adequado pra você. É um Artefato de luz.
Natália abraçou Susan - Obrigado - disse ela - eu adorei.
Susan retribuiu o abraço, e depois elas se separaram - você vai ter que treinar muito pra poder melhorar as suas habilidades com isso - ela disse.
- Vou me esforçar - Natália disse, fazendo o sinal de vitória.
- Agora é a minha vez - disse Elidee, que também removeu seu presente de um lugar indeterminado, e ele era bem maior do que o de Susan, sendo um pouco maior que uma raquete de tênis de mesa, e ele estava embrulhado com um papel vermelho com bolinhas brancas.
Ela entregou o embrulho para Natália e fez um movimento para ela abrir. Natália desfez o pacote e abriu a caixa, que era uma caixa de papelão, para descobrir o que havia dentro.
Era uma faca, uma adaga para ser mais preciso, e ela estava presa em um coldre parecido com aqueles que tem em filmes de faroeste, de couro preto, mas adequado ao formato da adaga, Natália tirou a adaga de lá para olha-la melhor.
A adaga tinha duas coisas em comum com o anel, ela era um objeto único ao invés de partes conectadas e parecia ter sido feita por um artífice de grande habilidade. A cor dela era cinza-claro e o cabo era cilíndrico e tinha uma superfície que não era áspera o bastante para machucar, mas tornava mais fácil de segurar.
A guarda era circular e sólida, e a lâmina era reta e triangular, e tão afiada que quase se podia ouvir o som de corte só de se olhar para ela. Natália colocou ela de volta no coldre, aquela coisa era perigosa.
- E ainda tem a melhor parte! - Elidee disse, e Natália olhou para ela - essa é uma adaga de Ferro Relâmpago!
O queixo de Natália caíu - Quer dizer... ferro de meteoro?
- Isso mesmo - ela assentiu.
O queixo de Natália chegou ao chão, Ferro Relâmpago é um dos minérios lendários, capaz de bloquear completamente o fluxo da magia, ele era muito difícil de encontrar, e ainda mais difícil de manter funcional.
- Eu tive que usar alguns favores pra conseguir o minério e um artífice bom o bastante para moldá-lo...
Natália não deixei ela terminar e a silenciou com um abraço - muito obrigado - ela disse - isso é muito legal.
Elidee ficou em silêncio por um momento e então pegou a adaga junto com o coldre - deixa eu colocar em você - ela falou.
Natália desenlaçou os braços do corpo da Elidee e ela se ajoelhou para amarrar o coldre em volta da coxa direita de sua irmã. Um lugar escondido, pois a saia que Natália usava ia até o joelho. Ela se levantou logo depois, admirando o trabalho.
- Dê uma voltinha - ela pediu.
Natália girou.
- Perfeito - ela disse - está muito bem escondida.
Natália decidiu que aquela era a hora de fazer uma pergunta.
- Gente - ela comecei - eu gostei muito dos presentes, mas por que hoje? Nem é o meu aniversário.
Susan respondeu - É que você vai pra Grande Academia Arcádia, vai ser a primeira vez que você vai pra uma escola interna, e ainda mais por ser a maior escola do mundo. Você vai estar sozinha lá.
Natália baixei os olhos. Era verdade, ela nunca tinha vivido numa escola antes, e ela nunca tinha conseguido fazer amigos em nenhuma de suas escolas anteriores. Mas pelo menos ela voltava pra casa todos os dias, mesmo que a casa estivesse quase sempre vazia. Ela não poderia fazer isso em Arcádia.
- Todos nós decidimos fazer isso hoje pra te relembrar que estamos sempre com você - disse Elidee.
Natália olhou para ela, dava pra sentir que havia alguma coisa que elas não estavam contando pra ela. Então Natália olhou direto nos olhos dela e perguntou:
- É mesmo só isso?
- É claro que sim! - ela respondeu, mas Natália continuei olhando direto para os olhos dela, e rapidamente Elidee começou a ficar desconfortável.
Natália continuou a olhar direto nos olhos dela, tentando descobrir o que elas não estavam lhe falando. Isso continuou por alguns segundos, mas Natália acabou decidindo dar a elas o benefício da dúvida.
Natália parou com aquele olhar penetrante, e o alívio de Elidee foi quase visível.
- Então eu vou falar com os outros - Natália disse.
E saiu de dentro de seu quarto.
Ela andou pelos corredores, desviando dos vários robôs de serviço que voavam de um lado para o outro em velocidades assustadoras. O quarto mais próximo do dela era o quarto de seu irmão mais novo, Aleksei, mas la se encontrou com ele antes de chegar lá.
Aleksei era um garoto de 7 anos de idade que parecia ter vindo das terras distantes de Roksoi, isso por causa da roupa que usava: Um robe monástico cinza-claro, extremamente simples. Aleksei tinha vários desses robes, a maioria deles em cores tão neutras quanto esse. Aleksei sempre tivera muito orgulho de lá, pois era onde ele tinha nascido. Seu nome também era no estilo daquela terra, assim como os nomes de seus irmãos eram no estilo de onde tinham nascido. Os pais deles sempre haviam viajado muito.
A aparência física dele também era muito normal, com um rosto amigável e cabelos crespos. Eu gostaria de brincar dizendo que ele nunca ia arrumar uma namorada daquele jeito, mas ele já estava noivo daquela princesa amazona. Quem diria que uma briga de crianças poderia virar algo tão sério?
Natália encerrou essa linha de pensamentos se aproximou dele e começou a falar:
- Já estou quase pronta.
Ele deu um grande sorriso, Alexei sempre gostara muito de Natália, desde que era bem pequeno.
- Venha comigo - e Aleksei começou a andar, Natália seguiu ele.
Ela achou que eles estivessem indo para o quarto dele, mas Aleksei desceu as escadas e foi na direção do salão de entrada da casa. No meio do caminho, ela percebeu que os pés dele não estavam tocando o chão.
- Aleksei, pare de flutuar - ela mandou.
- Ah - ele nem sequer tinha percebido o que estava fazendo, e voltou ao chão, meio envergonhado.
Depois de passada essa momentânea interrupção, eles chegaram ao salão de entrada. Lá havia um entregador, e ao lado dele uma caixa retangular que era maior do que Natália. Aleksei andou até o entregador e assinou a prancheta que ele segurava.
- Você chegou bem na hora - falou - muito bem.
O entregador não falou nada, mas fez uma mesura tirando o chapéu por um momento, então ele se virou e saíu pela porta da frente.
Aleksei se virou para Natália e falou:
- Tenho um presente pra você! - ele disse, apontando para a caixa com as duas mãos.
- Susan e Elidee me falaram.
Imediatamente a cara dele ficou desconsolada. Parecia que ele estava contando com isso ser uma surpresa. Natália passou a mão na cabeça dele.
- Tudo bem, vamos abrir pra ver o que tem dentro.
Isso rapidamente alegrou ele de novo, e Alexei fez vários gestos repetivamente, apressando ela. E normalmente isso faria Natália ir mais devagar, como uma piada. Mas dessa vez ela estava ansiosa para ver o que havia lá dentro. Então ela rompeu o lacre de segurança e tirou a tampa, deixando as quatro partes laterais caírem, e revelando...
Outra caixa.
Dessa vez era uma caixa quadrada, e bem menor do que a caixa que a continha. Pra que serve todo esse espaço extra então? Ela pensou antes de abrir essa nova caixa.
E revelar outra caixa.
Natália já estava ficando impaciente, então ela começou a abrir caixa após caixa rapidamente e eficientemente, e elas ficavam cada vez menores e menores até o ponto que a caixa restante era ainda menor que a caixa do anel da Susan. Ela respirei fundo e disse:
- Está na hora!
E havia outra caixa dentro.
Natália colocou a palma da minha mão no próprio rosto, em um sinal de exasperação, ela ficou assim por dois segundos inteiros, antes de abrir a (dessa vez) última caixa.
O que havia lá dentro era uma esfera menor do que a ponta do dedo de Natália, a consistência parecia a de uma pedra preciosa, mas a cor era um azul-turquesa muito apagado. O cheiro era a parte mais estranha dela, sendo um aroma ferroso, com traços de produtos químicos que Natália não conseguiu identificar, além de um cheiro extremamente leve de uma pessoa desconhecida.
- O que é isso? - ela perguntou.
Aleksei juntou as mãos e abriu os braços logo em seguida, como um mestre de espetáculos apresentando suas atrações, ele começou - Isso, minha cara, é uma lendária...
Ele fez uma pequena pausa naquele momento, Aleksei sabia como ser dramático - antes de finalizar:
- Esfera de Emoções!
Natália não tinha certeza, mas ela achou que seus olhos se esbugalharam naquele momento. Uma esfera de emoções era uma massa sólida constituída de emoções extremamente comprimidas. Era uma coisa muito perigosa, pois a explosão de uma dessas era capaz de deixar inconsciente quase qualquer ser vivo que estivesse no alcance.
- Vo... você... - Natália gaguejou.
- Eu pedi para um dos meus amigos arranjar isso.
- Certo - Natália falou, começando a se acalmar - mas como... eu vou poder carregar isso?
Ao invés de responder, ele pegou a esfera e falou:
- Abra a boca.
Natália fez o que ele pediu, e ele estendeu a mão para dentro da boca dela, para colocar a esfera lá. Ela percebi o que ele estava fazendo e relaxou.
Ele colocou a esfera no canto da boca dela, perto da gengiva, a esfera ficou colada lá quando ele tirou a mão.
- Isso vai evitar que ela seja ativada por acidente. Mas essa coisa ainda é muito perigosa, então você só deve usá-la em caso de emergência.
Era como Natália tinha imaginado. Ela ainda não estava completamente convencida de que aquilo valia o risco, mas não podia recusar um presente de seu irmão. Ela passei a língua pela esfera, imaginando que ela provavelmente deixaria de sentir a esfera lá depois de algum tempo.
- O que você achou? - Aleksei perguntou.
Ela abraçou ele. E então começou a girar ele no ar.
- Eu não sei se vou precisar de uma coisa dessas - ela falou, sem parar de girar o Aleksei - mas obrigado, deve ter sido muito difícil de conseguir.
Natália colocou o Aleksei no chão e ele deu um sorriso radiante.
- Satoshi está esperando lá no quarto dele, ele também tem um presente pra te dar.
Ela agradeceu de novo e voltou a subir as escadas, dessa vez indo para o terceiro andar da casa, onde ficava o quarto do Satoshi. O corredor do terceiro andar era diferente daquele do segundo andar. Uma das diferenças era o fato de que haviam muito menos robôs voando de um lado para o outrô e realizando tarefas inescrutáveis.
Outra era o fato de que o teto desse andar era muito mais alto, com quase seis metros de altura, e ainda outra era o fato de que a decoração naquela parte da casa parecia muito mais pessoal. Imensas janelas com cortinas igualmente imensas, pedestais de cabeça para baixo e com vários troféus em caixas de vidro adornando o teto e diversas quinquilharias de todas as formas e tamanhos presas nas paredes eram apenas o começo dos muitos toques pessoais espalhados pelo corredor. Um decorador provavelmente consideraria aquilo exagerado, mas pra Natália isso parecia perfeito para os pais dela, pois o quarto deles também era naquele andar.
Ela atravessei o corredor quase sem olhar para os lados, e chegou até a porta do quarto de Satoshi. Ela era fácil de reconhecer, sendo uma porta de metal pesada.
Natália bateu na porta, e uma voz disse que ela podia entrar. Ela se firmou e empurrou a porta, abrindo caminho para o quarto de seu irmão mais velho.
Existe uma forma simples de descrever o quarto do irmão dela, ele parecia pertencer a duas pessoas diferentes. Um lado do quarto estava cheio de barras, sacos de areia(e outras coisas), e vários outros instrumentos de treinamento mais esótericos. Uma coisa importante a se notar é que não haviam simples aparelhos de musculação, mas instrumentos de treinamento marcial sério.
A outra metade do quarto, por outro lado, estava repleta de um número ridículo de videogames, controles de videogame e especialmente jogos, todos meticulamente organizados temática e alfabeticamente(essa parte era culpa de Natália).
De fato, a única coisa que mostrava que aquele era o quarto de apenas uma pessoa era a cama de solteiro onde o irmão dela estava sentado.
Satoshi tinha 19 anos, e o corpo de um lutador marcial. Ele não tinha músculos saindo pelos ouvidos, mas cada pedaço do corpo dele havia sido perfeitamente tonificado pelos anos de treinamentos e combates. O rosto dele também era bonito, e ele já tivera passado por várias namoradas, não surpreendentemente. Satoshi estava usando calças brancas e uma camisa preta sem mangas.
- Olá Natália! - ele acenou, chamando ela mais para perto.
- Como as coisas estão indo?
- O mesmo de sempre, tendo que lidar com alunos que acham que sabem o que estão fazendo, animar alunos que não estão indo tão bem e ajudar os alunos a resolverem os problemas que tem uns com os outros.
- É, você já falou sobre isso.
- E como você está se sentindo sobre finalmente entrar em Arcádia?
- Animada. Vou poder aprender muitas coisas lá - e talvez descobrir o que eu quero fazer, ela pensou.
- Por falar nisso. Eu tenho uma coisa pra te dar - ele estendeu a mão para pegar algo embaixo da cama.
Natália olhou, ela tinha uma ideia do que ele iria lhe dar, mas ainda estava curiosa.
E ele pegou... um livro. Parecia que ela estava certa. Estava embrulhado, mas era claramente um livro. Depois do drama dos outros embrulhos, uma coisa tão simples deixou Natália até aliviada.
Ela peguei o presente e abriu ele, revelando "O Livro dos Cinco Anéis", um tomo instrutivo sobre artes marciais. Natália tinha expressado interesse nele quando tinha passado por uma livraria algum tempo antes. E Satoshi estava lá para ouvir.
- E então? Você gostou?
Ela me virei e abraçou ele. Satoshi retribuíu o abraço e começou a girar ela no ar.
- Ahhhhhhh - ela gritei, de brincadeira.
Ele colocou ela no chão.
- Você vai levar esse treino a sério, não vai?
- Claro, ele vai ajudar nas minhas aulas de combate.
Ele bagunçou o cabelo dela.
- O papai está correndo pelos corredores, procurando você, vai lá.
Natália agradeceu de novo pelo presente e saíu do quarto, novamente precisando se firmar pra puxar a porta.
Sabendo que o pai estava procurando ela, não seria difícil achar ele, ela apenas andou pelo corredor até ouvir o familiar som de metal se chocando contra metal. Ela se virou e esperou o pai dela se aproximar.
Chamar a máquina que estava vindo na direção de Natália de "veículo" seria extremamente caridoso. Pessoalmente, ela diria "armadilha mortal". Ela parecia um pequeno andaime cercado por um anel flutuante de metal que batia nas paredes sem quebrar nada, e com um som macio. O mesmo não podia ser dito da parte de dentro, com a qual o andaime se chocava constantemente, sendo a fonte do barulho que ela tinha ouvido.
E era só isso, não havia qualquer amarra, cinto ou argola segurando a pessoa que estava em cima do andaime. Ela se segurava com as mãos, e ocasionalmente os pés, enquanto o andaime se movia em velocidades que seriam imprudentes em uma rodovia. Aquela pessoa era o pai de Natália.
Ele não era um homem especialmente bonito, mas também não era feio. As feições dele eram sérias, e o corpo dele não era tão musculoso quanto o do filho, mas também não era magricelo. Ele estava usando um jaleco de laboratório por cima de um casaco e calças pretas. Ele era o único da família que não era moreno, tendo a pele branca, mas suas feições eram muito similares a de seus filhos homens. Seu nome era Nicolas.
Ao avistar Natália, ele levantou a perna e colocou a sola do pé numa das barras do andaime. Aí ele freiou.
O andaime parou quase imediatamente, numa desaceleração tão violenta que teria jogado o pai por cima dela se ele não tivesse empurrado para o outro lado com o pé. No final das contas, o anel do andaime voador parou a poucos centímetros do rosto dela. Teria sido assustador se ela já não estivesse acostumada.
Nicolas desceu do andaime.
- Parece que os outros já te deram os presentes - ele falou.
- Sim, só faltam você e a mamãe.
- Nesse caso - ele colocou a mão no bolso do jaleco - está na hora do meu presente.
Ela olhou pra ele. Diferente do resto da família, ela tinha apenas uma vaga ideia do que ele poderia lhe dar, mas o conjunto de possibilidades diminuía muito se fosse algo que coubesse no bolso dele. Natália tentou adivinhar o que era.
Ela falhou.
Ele tirou do bolso um par de luvas brancas extremamente elegantes, parecidas com luvas de ópera. Natália pegou elas e e as calçou, depois de tirar o anel de seu dedo. As luvas tinham uma consistência parecida com a do veludo, e eram muito confortáveis.
Ela estava admirando quão bem as luvas ficavam quando o pai dela falou:
- Deixe os outros dedos esticados e aperte o dedo médio e o anelar na palma da mão.
Ela fiz o que ele pediu, com as duas mãos, e imediatamente sentiu algo estranho. Parecia que ela tinha ficado mais leve subitamente.
- Tente levantar o anel.
Natália colocou as duas mãos no anel do andaime e tentou empurrá-lo para cima. E para a surpresa dela, ele subiu facilmente, como se não tivesse mais que o triplo dopeso dela.
- São dinaluvas. Enquanto ativadas, elas aumentam a sua força consideravelmente.
- Elas são tão... lindas... - Natália falou, depois de ter abaixado o anel - mas como eu volto ao normal?
- É só fazer a mesma coisa.
Ela dobrou os dedos do mesmo jeito de antes, e sentiu o seu peso voltar ao normal. Então ela se virou e abraçou o pai dela.
- Obrigado mesmo...
Ele fez carinho na cabeça dela. Depois eles se separaram e ele falou:
- Sua mãe já deve estar chegando, desça lá no jardim pra receber ela.
- Tá bom, mas pode levar isso pro meu quarto? - Natália entregou o livro de Satoshi pra ele.
- Tudo bem.
Ela saiu, acenando enquanto ele voltava a subir na armadilha mortal, e voltou a descer as escadas, colocando seu anel de volta no dedo por cima da luva e indo para o salão de entrada.
Natália passou pela porta e chegou no jardim. Diferente do que se poderia imaginar, aquele era um jardim perfeitamente normal, e muito bonito. Ela sentiu uma ponta de orgulho, já que ajudava Susan a cuidar dele.
Isso levou ela a pensar no jardim de Elidee, que era muito bem escondido, já que seria muito perigoso pra qualquer pessoa que entrasse lá por engano.
A linha de pensamentos sobre jardins parou quando Natália avistou um ponto negro no céu. Ela apertou os olhos, e percebeu que aquele ponto era a mãe dela.
Natália observou enquanto ela chegava cada vez mais perto, e percebeu quando ela a avistou e começou a acenar, Natália já via o bastante para distinguir as roupas que a mãe estava usando quando algo aconteceu.
Ela caiu, simplesmente despencou do ar como se a gravidade tivesse subitamente percebido que algo estava errado, foi como se uma águia tivesse magicamente se tornado uma pedra.
Não devia ter sido mais de 5 segundos e ela acertou o chão como um míssil, levantando uma nuvem de poeira. Como Natália estava perto de onde ela tinha caído, a garota precisou abanar com as mãos para afastar a poeira.
- Droga - falou a minha mãe, no meio da nuvem de poeira - por que eu tinha que pensar em Ícaro logo naquela hora?
A poeira lentamente baixou, e Natália pode ver sua mãe de perto.
Simplesmente falando, ela era a mulher mais bonita do mundo.
Certo, isso era na opinião de Natália. Mas o fato é que toda vez que eles íam pra um lugar público, ela atraía os olhos de todos os homens e de muitas das mulheres também.
A aparência dela não era magra como a de uma modelo, ela era encorpada e curvilínea, com uma cintura larga. Os braços e as pernas dela não pareciam nada delicados, mas isso era de se esperar, considerando o trabalho dela. Os cabelos dela eram lisos e acentuavam perfeitamente o belo rosto dela, especialmente em contraste com os olhos negros. Isso pois os cabelos dela eram brancos, extremamente brancos da forma que uma folha de papel teria inveja. Seu nome era Bianca.
As roupas que ela estava usando eram uma calça folgada que ia até o tornozelo, uma camisa branca com escritos em círilico, que Natália conseguia reconhecer, mas não entender e um sobretudo marrom que não estava fechado. Ela não usava sapatos.
Ela bateu na roupa com as mãos, para tirar a poeira, e pequenas faíscas multicoloridas saltavam toda vez que ela fazia contato. Ela terminou isso, olhou para Natália, levantou os braços para o ar e gritou:
- Eu cheeeeeeeeeeeeeeeeeeeegueeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeei!!!
Imediatamente, dezenas de pequenos fogos de artifício explodiram ao redor dela, formando imagens de casa, comida e dos outros membros da família. Um arco-íris surgiu sobre a cabeça dela. E finalmente uma explosão imensa rugiu vários metros atrás dela, criando uma nuvem de fumaça vermelha.
Bianca sempre ficava feliz quando voltava pra casa.
E antes que Natália pudesse dar as boas vindas, a mãe dela tinha corrido em sua direção e a envolvido num abraço apertado, levantando-a do chão.
- Ugh - Natália falou, tentando respirar.
Bianca diminuíu um pouco a força, permitindo que Natália abraçasse ela também.
- Que bom que eu consegui chegar a tempo! - ela falou, colocando a filha de volta no chão.
- É, todo mundo conseguiu.
Ela olhou para as luvas de Natália e sorriu.
- E parece que o seu pai já te deu o seu presente.
- Sim.
- Então é a minha vez!
Ela girou a mão e colocou a palma pra cima. Uma explosão de luz surgiu na mão dela, e quando desapareceu havia um embrulho no lugar.
- Aqui está - ela entregou o embrulho para Natália.
O presente tinha sido embrulhado com papel multicolorido, pelo menos três camadas. Mas ainda assim era claramente um livro. Natália já tinha imaginado o que seria o presente de sua mãe, e parecia que ela não estava errada.
Ela desfez o exagerado embrulho e olhou a capa do livro.
Era um livro pesado de capa dura, que parecia ser de segunda mão. Ou talvez sétima mão. Ele parecia um livro que havia testemunhado as mudanças do mundo, e suportado todos os problemas que sofreu. O livro era sólido, e cheirava a conhecimento. A capa dele dizia gloriosamente: Tomo de Feitiços de Fora das Escolas de Magia.
Natália olhou para Bianca, sem acreditar, ela sabia que o presente seria algo relacionado a magia, mas receber um livro tão obviamente raro era algo que ela não estava esperando.
A mãe de Natália se aproveitou da confusão dela para envolvê-la em outro abraço, delicadamente dessa vez.
- Eu te amo - ela falou no ouvido de Natália - nunca se esqueça disso - ela soltou sua - agora vá terminar de arrumar as suas coisas.
- Obrigado - Natália disse, acenando pra ela e voltando para dentro de casa.
Natália correu de volta para o quarto dela, Elidee e Susan não estavam mais lá, mas a mala ainda estava lá, com o livro de Satoshi ao lado dela.
Ela rapidamente guardou os dois livros na mala, e então foi até o espelho para checar sua aparência pela última vez.
Natália estava satisfeita, a aparência dela sempre seria mais parecida com a da Elidee do que com a da Bianca, mas ela não iria querer o excesso de atenção que vinha com a beleza dela.
Natália estava usando uma saia preta e uma camisa vermelha de mangas curtas. Na cabeça dela havia uma boina branca, e o cabelo dela era longo o bastante para chegar no começo das costas. As luvas não tinham deixado de ser elegantes desde a última vez que ela olhara, e nos pés estavam botas de combate pretas com meias brancas. Satoshi acharia melhor se ela usasse galochas como as dele, mas ela preferia essas botas.
Natália sorriu e se virou para pegar a mala, estava na hora de ir para a escola.
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