sexta-feira, 15 de novembro de 2013

Natália Nocte e a Academia Arcádia: Capítulo 2 - A Academia Arcádia

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Natália desceu até o salão de entrada, onde a família dela estava esperando. Depois de umas últimas despedidas(Satoshi disse pra ela mostrar a eles do que ela era feita, mas não especificou quem seriam "eles"), Natália saiu de casa e foi andando para o banco, que era o lugar mais próximo onde ela poderia pegar um táxi.
Natália tinha insistido em fazer isso sozinha, desde a saída de casa até a chegada em Arcádia, e eles não puderam dizer não pra ela.
Não ocorreu nenhum incidente durante a viagem, incluindo a ida de táxi até o aeroporto, e depois de mostrar a minha passagem comprada anteriormente, eu embarquei no avião sem problemas.
Nessa hora ela se lembrou de uma coisa que o pai dela tinha dito "Depois da primeira hora do voo, olhe pela janela, você não vai se arrepender". Então ela marcou o horário que o avião decolou antes de pegar sua mala e tirar dela seu livro de artoniano.
Artoniano era a língua falada na ilha de Arton, onde ficava a Academia Arcádia, e como ela recebia estudantes de todas as partes do mundo, um dos pré-requisitos para ser aceito em Arcádia era aprender artoniano, e dessa maneira todos os estudantes e professores poderiam se entender. Havia até uma versão do artoniano baseada em cliques, ou batidas no chão, que era usada por aqueles que eram incapazes de produzir os sons da língua normal.
Natália passou o tempo revisando o artoniano pela última vez, e rapidamente a hora que ela devia esperar passou. Ela guardei o livro e olhou pela janela.
Por alguns minutos, nada aconteceu. E nada continuou acontecendo pelos minutos seguintes, até que Natália começou a se perguntar se ela tinha entendido o meu pai errado, mas eventualmente ela começou a ouvir um som diferente de tudo o mais que ela tinha ouvido na vida.
Parecia uma canção, uma canção de uma única nota que subia e descia sem jamais se perder. Uma nota impossivelmente longa que parecia se estender até o infinito.
E lentamente, o autor daquela nota surgiu do centro das nuvens. Era uma serpente, imensa a ponto de seus limites se perderem no horizonte. Colorida de um verde-claro tão leve, que era quase possível ver através dela. Seus olhos não eram olhos, mas simples pontos pretos de propósito desconhecido. Sua boca não tinha dentes, assemelhando-se mais com uma atemporal fenda nas rochas de uma montanha ancestral.
Finalmente, o corpo dela parecia ser um sólido transformado em ar, uma coisa que não parecia pertencer a realidade. E era frágil. como uma folha de papel carregada pelo vento de um furacão.
Natália percebeu imediatamente o que era aquele ser. Era uma besta atmosférica, criaturas tão elusivas que desafiavam o estudo. Que tinham sido avistadas pouquíssimas vezes, e quase nunca por pessoas que as buscavam.
Quase nada era conhecido sobre elas, exceto que viviam nas camadas mais elevadas da atmosfera, e por vezes desciam por razões desconhecidas.
Natália observou enquanto ela nadava pelo ar com movimentos belos e majestosos, apesar de serem inegavelmente estranhos, como saltos distorcidos que não obedeciam a qualquer padrão.
E tão rapidamente quanto tinha aparecido, a besta se foi. Subindo de volta ao mundo das nuvens, um mundo tão alienígena quanto as profundezas do mar. E depois que o corpo tinha desaparecido, a canção ainda restou por mais alguns segundos, última lembrança de que qualquer coisa tinha ocorrido.
E então restou apenas silêncio.
Natália olhou para o resto da cabine do avião, percebendo que ela não tinha sido a única que percebera o que tinha ocorrido. Só naquele momento ela se convenceu de que aquilo não tinha sido um sonho.
Natália caiu no sono em algum momento, e a próxima coisa que ela ouviu foi a voz do piloto avisando que eles estávamos se aproximando do aeroporto.
Ela desceu do avião carregando sua mala, e acompanhou a multidão que ia para a parada de ônibus. Eles não tiveram que esperar muito, e logo ela estava fazendo a última viagem em direção a academia.
Natália já tinha visto fotos da Academia Arcádia, mas mesmo assim ela quase não acreditou no que estava vendo quando o ônibus terminou de subir o monte mais alto da ilha, e os passageiros puderam ver o terreno onde ficava a academia.
Só tem uma forma de descrever aquele território. Uma colcha de retalhos colossal que não poderia ter sido criada pela natureza. Geleiras se encontravam com desertos que se encontravam com florestas, pedaços de áreas de diversos tamanhos e formas se espalhavam pelo território caoticamente. E no centro de tudo isso estava a escola, que Natália não estava perto o bastante para conseguir enxergar os detalhes, mas parecia ser diferente de qualquer outro prédio que ela já tivesse visto, apenas pela forma básica.
O ônibus chegou mais perto, e Natália lentamente foi capaz de distinguir mais detalhes daquela... construção, que é a única palavra remotamente adequada para aquela escola.
Ela viu torres em estilo barroco, sólidas em sua colocação. Ela viu esferas prateadas parecendo flutuar ao redor da massa principal, quando de fato estavam conectadas por fios quase invisíveis. Ela viu paredes que pareciam ser feitas de carne, e no meio delas algo que ela poderia jurar que era um olho. Ela viu pontes suspensas constituídas por plantas, pontes grandes o bastante para sustentar gigantes. Ela viu rios de água cristalina correndo livres pelo ar, e viu coisas nadando por aqueles rios.
Ela via cada vez mais coisas impressionantes a cada momento, esculturas de cristal ambulantes, dragões empoleirados em arcos de gelo, gotas de água douradas escorrendo de teias colossais e sendo apanhadas por robôs morcegos. E logo ela percebeu que sempre haviam mais coisas para se ver.
Enquanto ela estava tentando processar tudo aquilo que ela estava vendo, o ônibus entrou num caminho que se elevava acima do nível do chão, olhando para o caminho correspondente do outro lado, ela vi que ele estava suspenso por correntes feitas de ossos, milhões de ossos fundidos e esculpidos com habilidade sobrenatural. O caminho fez um C, afastando-se da escola antes de voltar a se aproximar dela, e ela logo percebeu a razão deles precisarem entrar naquele caminho suspenso.
Os portões principais eram imensos, a escala deles era completamente diferente, eles estavam abertos, e Natália conseguia ver que haviam gigantes passando por eles, mas os próprios gigantes pareciam pequenos em comparação com os portões.
O arco dos portões percorria uma área tão grande, que ele estava conectado aos mais diversos materiais do resto do prédio, estava conectado a uma rocha que brilhava como diamantes, com o que parecia ser cascas de árvore, com uma teia de fios mecânicos, com um metal que escorria como líquido, subindo e descendo em sentido antihorário, formando a figura de um O. E isso era apenas o começo.
O portão em si também atraíu a atenção de Natália, o material de que ele era feito parecia ser uma combinação de madeira e ouro, e haviam detalhes que ela estava longe demais para distinguir. Percebendo que o ônibus não chegaria mais perto, ela respirou fundo e recitou "Azath, Kazath, Nazath", e a visão dela se aguçou, permitindo que ela enxergasse os detalhes dos portóes.
Era como Natália esperava, os detalhes dos portões eram um microcosmo da escola inteira, sendo feitos de uma conjunção de todos os tipos de materiais diferentes. Naturais e sobrenaturais, simples e complexos, estáticos e móveis. Satisfeita, ela desfiz seu feitiço e piscou os olhos várias vezes ao sentir a ardência esperada neles. Ela se aconchegou no banco e esperou o ônibus terminar de fazer a curva e finalmente chegar na sua parada.
Natália desceu, junto com os outros passageiros do ônibus, e passou pelo arco de entrada lateral decididamente. Ela andou pelos corredores, percebendo que o estilo de arquitetura do interior da escola era o mesmo do exterior, a consistência do chão se confundia entre terra batida, cerâmica e outros materiais. A mesma pluralidade se verificava nas paredes e no teto alto. Um rio corria no lado direito dela, e na sua esquerda havia um caminho constituído por placas metálicas finíssimas, que estava acima do chão mas abaixo do teto. Finalmente, na parede do lado esquerdo, alunos andavam normalmente, como se a gravidade daquela área fosse diferente. Ela foi lá testar e descobriu que podia fazer a mesma coisa, então aquilo não era uma habilidade especial daqueles alunos.
Por falar em alunos, eles eram a coisa em que Natália estava prestando mais atenção, pois a variedade deles era ainda maior do que a diversidade do cenário. Alguns alunos andavam como ela, outros nadavam pelo rio em diversas velocidades, outros pulavam entre as árvores que estavam espalhadas pelo terreno, e ainda outros simplesmente voavam, com asas ou não.
Alguns alunos eram pequenos, como fadas em que Natália poderia pisar, e outros eram grandes, como um golem de pedra que precisava se manter abaixado para não bater com a cabeça no teto. Alguns usavam roupas como as de Natália, outros tinham trajes em um número diverso de estilos e formas, e ainda outros eram cobertos apenas por seu pelo, pele ou cobertura metálica.
Subitamente, Natália se lembrei de olhar as horas. Ainda havia algum tempo antes da cerimônia de abertura, mas ela queria desfazer as malas e talvez conhecer sua futura colega de quarto, então ela seguiu as placas e atravessou os corredores, para chegar em sua seção de dormitórios.
Natália subiu uma escada em espiral e passou por mais algumas portas antes de chegar em seu quarto. Ela bateu na porta e uma voz lá dentro disse que ela podia entrar. Então a colega de quarto já tinha chegado, Natália respirou fundo e entrou.
Ela olhei para a garota que estava lá dentro. Ela era uma humana como Natália, ou pelo menos parecida o bastante. Os cabelos dela eram de um loiro escuro e os olhos eram verdes. Ela estava usando um short que ia até a metade das coxas e uma camisa sem mangas. Ela também não estava usando sapatos. Isso permitiu que Natália visse que o corpo dela estava repleto de marcas multicoloridas, incluindo o rosto dela. Natália já tinha visto marcas como aquela em algum lugar... em suma, a garota era bonita.
- Olá - Natália falei em artoniano, tentando ser amigável.
- Olá - ela respondeu, fazendo um pequeno aceno e indo na direção de Natália - parece que nós somos colegas de quarto.
- É, parece - Natália falou, grata por estar entendendo a garota bem, apesar do sotaque dela.
- Eu me chamo Rinata Alveia - ela disse, estendendo a mão - venho da terra de São Lourenço.
Natália apertei a mão dela - Eu me chamo Natália Nocte. Venho da terra de Yuden - ela terminou, e esperei pela reação da outra garota.
Natália viu a compreensão se formar nos olhos de Rinata.
- Quer dizer.. - ela começou - da família Nocte?
Natália se preparou mentalmente e falou - Sim.
- Que incrível! - ela falou, com uma animação evidente - você é a filha da Bianca Nocte?
- Isso mesmo.
A animação dela aumentou ainda mais - Sua mãe é a minha ídola!
- Mesmo? Quer dizer que você também usa magia das histórias?
- Não. Eu uso magia da manipulação. Mas eu sempre quis me tornar uma maga de combate, desde que vi um vídeo da sua mãe ganhando o torneio Atlamontei.
- Ah, eu entendo - Natália percebeu uma brecha na conversa, e decidiu agir - mas você poderia me fazer um favor?
- Que tipo de favor? - ela perguntou.
- Poderia manter segredo sobre quem eu sou? Eu não quero receber atenção demais, entende?
- Pelo que eu ouvi dizer, você não é a única pessoa de uma família famosa por aqui, mas tudo bem, se você quer isso, eu prometo que não irei revelar o seu segredo, ou todo o azar do mundo cairá sobre mim.
Natália relaxou, parecia que tudo ia ficar bem - Essa é uma promessa ao estilo São Lourenço? - ela perguntei.
- Exatamente. Como vocês fazem em Yuden?
- Nós dizemos "Se quebrar essa promessa, engolirei mil agulhas!".
- Agh - ela disse - mas voltando ao assunto, quer dizer que você veio aqui pra estudar magia das histórias?
- Na verdade não - Natália baixei os olhos - mamãe tentou me ensinar, mas eu não consegui aprender.
- Oh - ela parou por um instante quase imperceptível - então que matérias você pegou?
Natália colocou a mão em sua mala, puxou a folha de seu horário de aula e entregou para ela.
- Vamos ver - ela começou - "História do Século 20", segunda e sexta 08:00. "Conceitos Básicos da Iniciação em Magia", segunda e quarta 10:00. Legal, é a mesma classe que eu. "Introdução a Teoria da Magia", segunda e quarta 14:00. Eu prefiro as aulas mais práticas. "Artefatos Mágicos: História e Treinamento", segunda e quinta 16:00. Podia ter entrado nessa aula, mas não consegui encontrar um horário bom. "Psiônicos: Talentos Práticos", segunda e quarta 23:00. "Russo 1", terça e quinta 08:00. Aprender uma língua só foi o bastante pra mim. "Entendendo a Nova Tecnologia", terça e quinta 10:00. Eu já estou feliz com a tecnologia normal. "Culinária 1", terça e quinta 14:00. Eles tem uma aula de culinária?! Por que ninguém me avisou? "Introdução a Ambientes e Seres Fantásticos", terça e quarta 16:00. Outra aula junto com você. "Combate a Curta Distância: Nível Básico", quarta e sábado 08:00. E uma terceira matéria juntas - ela coçou a cabeça - espera aí, tem algo estranho.
Ela devolveu a folha pra Natália, e foi na mesa pegar a folha de horários dela. Ela entregou a folha para a recém-chegada e falou - Compara.
Natália olhou a folha de horários dela, além das aulas que elas duas tínham, ela também tinha aulas de "Magia da Manipulação: Nível Básico", "Aplicando a Magia em um Contexto de Combate", "Cálculo 1", e duas instâncias de "Prática de Magia". Natália não precisou olhar por muito tempo para perceber o que ela tinha achado estranho. Com exceção do fato dela não ter aula ás 23:00, os horários de descanso dela eram exatamente iguais aos de Natália.
- É estranho mesmo - ela concordou - mas acho que eu sei o que houve.
- Sério?
- Sim. Acho que as disposições dos quartos são decididas com base nos horários dos alunos.
Rinata pegou o horário de volta - Sim, você deve ter razão. Mais uma coisa pra pilha de "Bizarrices Dessa Escola". Você tem alguma teoria sobre a razão deles misturarem tantos materiais diferentes nessa construção?
- Na verdade - Natália começou - minha mãe me explicou sobre isso.
- Oh? - ela pareceu mais interessada - essa eu quero ouvir.
- Basicamente, tempos atrás, as pessoas começaram a notar que shopping centers tinham algumas propriedades estranhas. Como por exemplo, o fato de que criaturas do povo das fadas podem entrar neles sem precisar de convite.
- Eu já ouvi falar disso.
- Realmente. E como a magia dos territórios ensina, cada lugar tem suas próprias regras, então eles descobriram que, como os shopping centers tinham coisas de muitos lugares diferentes, como lojas de franquias de diferentes países, as regras deles ficavam confusas. O termo de não-lugar foi criado para designar eles.
Rinata estava ouvindo atentamente, e Natália viu quando ela entendeu o que a outra estava querendo explicar. Ela continuei só pra esclarecer.
- Então quando essa academia foi fundada, 20 anos atrás, a diretora, que é uma especialista em magia do território, projetou a escola para ser o maior não-lugar possível, assim ela mesma poderia definir quais seriam as leis do território. Um exemplo é que os vampiros são imunes a luz do sol aqui.
Rinata piscou os olhos.
- Eu entendo... mas acho que vou deixar essa informação na pilha de "Bizarrices Dessa Escola".
- Concordo - Natália percebeu que ainda estava segurando a mala - pode me ajudar a desfazer isso?
Ela finalmente olhou direito para o quarto. E ele era surpreendentemente normal. De fato, depois de tudo o que Natália tinha visto até aquele ponto, aquela normalidade chegava até a ser agressiva. A única coisa interessante era que haviam pequenas diferenças entre o lado do quarto de Natália e o de Rinata. A cor das paredes de Natália era azul marinho, e as de Rinata eram verde-escuras. Natália tinha uma cama com colchão, Rinata tinha um colchão sem uma cama. Natália tinha um criado mudo, Rinata tinha uma simples mesa de quatro pernas.
- Claro - Rinata respondeu. E com a ajuda dela, Natália conseguiu arrumar tudo em pouco tempo.
Ela olhou para o relógio.
- Está quase na hora da cerimônia de entrada.
Rinata olhou pra ela e falou:
- Venha comigo, eu vim mais cedo e explorei um pouco, eu conheço um atalho.
E sem esperar resposta, Rinata saiu correndo do quarto.
Alarmada, Natália saiu o mais rápido possível, trancando a porta atrás dela, e se apressou para tentar alcançá-la. Rinata corria rápido, e Natália teve que se esforçar, mas ela ainda conseguiu perceber que ninguém estava olhando para elas. O povo dessa escola devia estar acostumado a coisas bem mais estranhas.
Elas subiram por uma escada de corda e depois atravessaram uma ponte estreita que passava do lado de uma cachoeira. Natália não olhou muito bem para os lugares por onde elas passaram, pois estava com muita pressa na hora.
Finalmente elas chegaram num lugar que tinha duas fileiras de cadeiras diante de um quadro-negro. Em cima do quadro-negro estava uma contagem regressiva que estava nos últimos segundos, a maioria das cadeiras estavam ocupadas.
- Chegamos a tempo! - Rinata comemorou, sentando em uma das cadeiras.
Natália sentei na cadeira ao lado dela, sem saber o que exatamente estava acontecendo ali. Ela não precisei esperar muito para descobrir, pois quando a contagem chegou a zero, as cadeiras subitamente manifestaram barras de segurança, como as de uma montanha-russa, e o quadro-negro deslizou para o lado, revelando uma passagem escura.
O chão embaixo das cadeiras começou a se mover, avançando para dentro da passagem e carregando as cadeiras junto.
- Ah, é um transpo-
O chão acelerou subitamente.
- OOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOORTEEEEE! - a surpresa fez Natália gritar.
A comparação com uma montanha-russa mostrou ser extremamente apta, especialmente quando o transporte saíu de dentro do túnel e ela pode ver que ele estava andando em um único cabo fino, que não parecia ter qualquer sustentação adicional. Isso também permitiu que Natália visse vários outros lugares da academia que ela ainda não tinha visto. Como quando elas passaram no meio de teias de aranha gigantes, e também quando passaram ao lado de árvores gigantes, e também quando passaram acima de uma pista de corrida... de tamanho normal. Nem tudo podia ser gigante, pelo que parecia.
Elas pararam perto de um corredor suspenso, onde várias pessoas estavam entrando. E olhando para as placas, Natália percebeu que aquele corredor era uma das conexões com a Esfera de Cristal, que era o lugar onde a cerimônia de abertura seria realizada.
Ela desci do banco, tentando fazer suas pernas pararem de tremer, o que levou alguns segundos. Então as duas entraram no corredor, junto com todos os outros alunos que estavam indo para a cerimônia de entrada.
Não era um corredor especialmente longo, e quando elas chegaram chegamos no final, a escola surpreendeu Natália mais uma vez. O nome de Esfera de Cristal era tecnicamente correto, mas ele realmente subestimava a escala daquela maravilha.
Para começar, cada uma das mesas onde os alunos estavam sentados estava pousada em uma plataforma circular, e estavam conectadas por duas coisas, largos corredores suspensos no ar e escadarias também suspensas no ar que conectavam os andares superiores e inferiores. Não havia qualquer tipo de coluna de sustentação abaixo dessas plataformas e corredores, o que parecia ser um tema para essa escola, mas haviam tantos desses corredores em todos os andares que essas colunas precisariam atravessar vários deles para chegar ao chão.
Isso não quer dizer que houvesse pouco espaço vazio, pois havia o bastante para ver desde as pessoas que estavam no fundo até aquelas que estavam no topo, olhando pelos espaços entre os corredores.
A próxima coisa que saltava aos olhos era a simples escala daquela construção. Elas estavam em um dos andares médios, e podiam perceber que as escadas e corredores ficavam cada vez menores conforme a altura subia, e vice-versa. Natália viu vários andares que tinham proporções adequadas para gigantes, então a altura daquela estrutura inteira devia ser algo de fora desse mundo. E isso fez ela pensar, pois ela não achava que a altura da escola era tão grande assim.
Isso significava que parte daquela estrutura devia estar abaixo do nível da terra, escavada em profundidades abissais, e Natália teve outro choque quando percebeu que isso queria dizer que os portões gigantes de entrada da escola não eram grandes o bastante para deixar alguns daqueles gigantes passarem, e as acomodações igualmente grandes que deviam haver no térreo provavelmente pareciam inadequadas.
E a terceira coisa que impressionou elas duas foi a aparência das estruturas, que eram feitas de cristal, assim como o nome dizia, mas eram muitos tipos de cristal. Elas viram árvores de cristal Arukanji, que passavam uma inegável sensação de vida. Elas viram cristais artificiais, sutilmente registrando informações sobre todos que passavam por eles. Elas viram cristais que pareciam ser feitos de luz, mas eram tão sólidos quanto todo o resto. Elas viram até cristais líquidos, onde alguns seres aquáticos nadavam. E elas viram muitos outros tipos de cristal, formando a esfera na qual todos estavam reunidos, formando os corredores e escadas, formando as mesas e cadeiras.
- Isso é... incrível... - Rinata falou.
- É... eu concordo.
Elas não falaram mais nada enquanto andaram até a mesa mais próxima e sentaram nas cadeiras. Elas eram confortáveis, com uma consistência macia, mas diferente daquela de bancos normais.
Natália aproveitou o tempo antes da cerimônia começar para observar os alunos que ela podia ver daquela posição, enquanto Rinata parecia estar tentando tocar uma das sinfonias de Marx com a batida dos dedos na mesa. E haviam todos os tipos de alunos imagináveis. Natália viu um estudante humanoide formado por milhares de abelhas. Ela viu um aluno que parecia ser um monte de areia que circulava entre várias formas diferentes constantemente. Ela viu um ovo do tamanho de uma pessoa e que tinha braços e pernas. E esses foram apenas os que mais chamaram a atenção dela.
Haviam incontáveis outros, incluindo muitos que Natália não conseguia nem imaginar o que eram, mas Elidee provavelmente poderia explicar pra ela tudo a respeito deles.
Mas subitamente, algo chamou a atenção dela. Por algum motivo, seus olhos foram atraídos para um conjunto de plataformas no centro absoluto da esfera, levemente separadas de todas as outras.
Pelo canto do olho ela viu que todos os outros alunos ao meu redor também estavam olhando para a mesma direção, levando-a a pensar que a atração de sua atenção não devia ser coincidência.
Aqueles deviam ser os professores, mas eles estavam longe demais para Natália conseguir distingui-los. Relutantemente, ela murmurou as palavras mágicas de novo "Azath, Kazath, Nazath". E sua minha visão aumentou.
Ela viu que haviam centenas de professores, o que não era surpreendente, considerando a quantidade de alunos, e eles eram tão diversificados quanto os alunos. A atenção dela foi atraída para dois professores que estavam lado a lado. Um deles parecia ser um humano, mas tinha as partes que ela podia ver do corpo dele quase completamente cobertas por diversas pequenas marcas de várias formas, incluindo uma estrela amarela no meio da testa. Natália pensou em sua irmã Elidee e imaginou o que aquele professor ensinaria. O outro era um centauro de cabelos loiros que estava usando vários braceletes dourados e um olho de vidro.
Ela ia continuar olhando para os professores quando Rinata chamou sua atenção.
- Isso é magia pura, não é? - ela perguntou.
Natália desfez a magia antes de olhar para ela, e apertou os olhos para lidar com a dor.
- Isso mesmo - ela respondi - você percebeu?
- Sim, eu sou uma praticante, eu consigo perceber essas coisas se estou prestando atenção.
- Eu só consegui aprender dois feitiços de magia pura, estava esperando poder aprender alguns outros, e descobrir se eu quero seguir alguma das escolas de magia, ou se eu quero ir por outro caminho.
- Ah - a compreensão passou pelos olhos dela - então é por isso que você tem tantas coisas diferentes no seu horário de aulas.
Antes que Natália pudesse assentir, uma voz ressoou por toda a esfera, de uma forma que apenas magia seria capaz de fazer. Ou centenas de alto-falantes cuidadosamente posicionados e calibrados, mas seria mais fácil usar magia.
- Bem-vindos - era uma voz masculina - Sua diretora não pode chegar a tempo, então eu farei as apresentações - milhares de sussurros começaram após essas palavras.
- Para os alunos que estão começando esse ano, espero que vocês gostem da academia. Para aqueles que estão voltando, seu retorno é apreciado.
- Nossa escola tem uma tradição a zelar, nós treinamos nossos alunos para lidar com o mundo, e desenvolver suas habilidades. Nosso maior orgulho é o seu avanço, e nós também aprendemos com vocês.
- Pois foi para isso que essa academia foi criada, para ensinar e aprender.
Ocorreu um momento de silêncio antes dos alunos perceberem que o discurso tinha terminado. E então a resposta foi uma ovação tremenda, e depois o ruído de milhões de passos enquanto os alunos se levantavam e saíam.
Natália conversava com Rinata enquanto elas estavam andando:
- Eu achei que o discurso fosse ser maior - ela disse.
- É, eu também - Natália parou por um momento - quer comer alguma coisa?
Ela pensou - Não, estou sem fome. Mas acho que quero beber alguma coisa.
Natália teve uma ideia - Nesse caso, eu tenho a coisa perfeita.
- O quê?
- Vamos voltar para o quarto que eu te mostro.
E elas andaram de volta para os dormitórios, dessa vez seguindo pelo caminho mais longo, e passando por mais cenários que nenhuma delas tinha visto antes. Incluindo uma ponte no formato de um garfo gigante. Não, nenhuma delas entendeu a razão disso.
Quando elas chegaram no quarto, Natália olhou em sua mala, e encontrou vários pacotes de chá lá dentro. Assim como um mini-fogão e um pote de metal cheio de água. Ela aqueceu a água no fogão, enquanto se explicava para Rinata:
- Minha irmã Elidee adora chá, então ela coloca chá nas minhas coisas sempre que tem uma oportunidade. Por causa disso eu desenvolvi um gosto por chá.
- Certo, mas onde nós vamos colocar o chá?
Natália colocou a mão na mala e tirou um pacote com seis xícaras.
- Ela pensa em tudo - falou.
Depois de Natália terminar de preparar o chá, elas duas beberam enquanto conversavam sobre o que elas tinham visto. Natália ouviu muito sobre os caminhos da escola, enquanto Rinata ouviu sobre os muitos materiais usados na construção e detalhes sobre alguns dos outros alunos.
Quando elas finalmente encerraram a conversa e se deitaram em suas camas, Natália não pode deixar de sorrir.
Ela tinha feito uma amiga.

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