sábado, 11 de fevereiro de 2012

A Silhueta

Eu estava sonhando, e no sonho vi uma silhueta, uma silhueta feminina que parecia me chamar, eu fui até ela.
- Quem é você? - perguntei.
- Eu possuo muitos nomes - respondeu a silhueta, em uma voz melodiosa que parecia me convidar a chegar mais perto - como você gostaria de me chamar?
Eu me lembre por um instante de uma amiga que tive na infância, cujas memórias eu guardava com carinho, e o nome dela - Susan - escapou de meus lábios quase que sem querer.
- Então você pode me chamar de Susan - disse a silhueta, e subitamente a voz dela, embora não tivesse mudado, parecia ecoar a voz de Susan a cada palavra. A familiaridade fez com que eu chegasse ainda mais perto.
- E como eu devo chamar você? - foi o que ela perguntou a seguir.
Eu estava prestes a dizer Takuma, que era o meu nome, quando tive um flash de minha adolescência. Eu estava na escola, e minha colega Yara estava me chamando do apelido ridículo que havia dado para mim, Takkun, e aquele nome rolou para fora da minha boca como se estivesse desesperado para sair.
- Entendi. Como você está, Takkun?
Saindo da boca dela, o apelido não parecia mais ser ridículo, eu fiquei feliz em ser chamado dessa forma, e a voz dela agora ecoava Yara, a colega que sentava do meu lado.
Foi então que percebi que ela estava fazendo uma pergunta, e comecei a dizer que estava bem, mas não conseguiria mentir para Susan. Eu comecei a falar, despejando todos os meus medos e preocupações, eu disse tudo o que nunca poderia dizer a ninguém, e que eu sempre desejei qeu alguém ouvisse.
Eu falei do fundo do meu coração, dizendo tudo o que me vinha a mente. Quando terminei, ela ficou em silêncio por um momento e então falou:
- Deve ser difícil, Takkun.
Aquelas poucas palavras me deixaram feliz como eu não havia ficado em muito tempo. Eu podia sentir, em cada sílaba falada por aquela linda voz, que ela me entendia, ela realmente me entendia! Eu me aproximei ainda mais, querendo agradecer a Susan, e então pude sentir seu cheiro.
Era um cheiro inacreditável, que lembrava amoras recém colhidas e campos de flores. Era um cheiro prazeroso, que me fez lembrar de Ana, uma mascate que fazia muitos negócios na cidade onde eu morava. Esse era um cheiro sedutor, que me chamava para chegar mais perto e aproveitá-lo.
- Que lugar é esse? - eu perguntei, procurando continuar a conversa.
Não era possível ver, mas eu percebi que Susan sorria.
- Aqui, onde nós estamos, é o reino do desejo, o domínio do prazer e a terra onde a diversão nunca acava.
Intrigado, eu pedi por mais detalhes, e Susan falou. Ela falou que lá não haviam preocupações ou medos. Ela falou que lá não haviam inibições. Ela falou que lá não haviam inimigos. E ela falou que lá, a felicidade era eterna.
Eu estava maravilhado, aquele era o verdadeiro paraíso, da forma como eu sempre havia imaginado. Mas então ela me fez uma pergunta num tom sério.
- Takkun, você gosta de mim?
Eu pensei por apenas um momento, é claro que eu gostava, ela havia me feito esquecer todos os problemas, e tomado o lugar deles em minha mente.
- Sim - eu respondi - eu gosto de você, Susan.
- Estou feliz - ela disse.
E estava mesmo, a alegria na voz dela era real. Eu, estando muito mais perto do que antes, estendi a minha mão. E ela, que ainda não estava completamente visível, estendeu a dela. Nossos dedos se tocaram.
A sensação foi indescritível, parecia que tudo o que eu era, todo o meu ser, estava contido naquele único toque e naquele único momento. Eu ficaria feliz se aquilo durasse para sempre, mas o destino parecia ter outros planos.
Eu comecei a sentir como se estivesse sendo puxado para trás, e nossas mãos se separaram.
- O que está acontecendo? - perguntei, com medo.
- Você está acordando - ela respondeu - o seu corpo está te puxando de volta.
- Não... - eu disse, enquanto me afastava mais e mais - não quero... - eu tentei me forçar para frente - eu não quero te deixar!
- Não se preocupe - ela disse, abrindo os braços - esse é um lugar de desejo, se desejar o bastante eu estarei com você.
E então eu desejei, desejei com todas as minhas forças e todo o meu coração. Desejei enquanto a consciência me puxava com suas garras negras.
Quando eu acordei, ela estava lá.

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